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agosto 13, 2005
A importância de se ser Governador Civil
Seguidores fiéis e servis do(s) partido(s) que sustenta(m) o Governo, não se pode, obviamente, esperar dos Governadores Civis nem altas qualidades de isenção nem eméritas capacidades críticas relativamente às decisões de quem lhes assina as nomeações.
Aliás, não fosse o Estado encarado apenas como um meio de satisfazer o voraz e insaciável clientelismo partidário, e também esta figura, institucionalmente inútil e objectivamente cara, há muito poderia ter sido saneada do ordenamento político nacional.
(É, aliás, esta missão fundamental do Estado – “garantir a recompensa das fidelidades partidárias” – que justifica, igualmente, a manutenção de um império empresarial e tentacular, destinado a saciar os apaniguados, com a distribuição de cargos, mordomias e sinecuras, generosamente suportados pelos contribuintes)
Naturalmente que, nestas condições, não é legítimo exigir dos premiados mais do que dedicação ao partido que os catapulta para essas funções; isenção, competência, rigor, ponderação, iniciativa, empenho e motivação são termos exigíveis ao job description de um qualquer funcionário de carreira mas totalmente inconcebíveis se aplicados às hordas de militantes que enxameiam o País, dos assessores ministeriais, aos gestores públicos e, como não podia deixar de ser, aos Governadores Civis.
Neste último caso, aliás, e dada a absoluta inutilidade da função (a emissão de passaportes legais bem que podia ser feita pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros – que já tutela, igualmente, os organismos diplomáticos responsáveis pela circulação de tantos exemplares roubados por esse mundo fora!!!), melhor seria premiar a dedicação partidária com o vencimento, o motorista e o carro – poupando-se assim aos bolsos do contribuinte uns larguíssimos milhares de euros, e à sensibilidade dos cidadãos a ofensa grosseira do tipo de declarações lamentáveis como as proferidas pelo Governador Civil de Leiria, na passada 5ª feira, após a reunião no Ministério da Administração Interna.
Afirmar que “o mais importante não é a área ardida, mas aquela que não ardeu” (vi a entrevista num dos telejornais mas não consegui, posteriormente, obter o link nem a transcrição exacta) não denota só falta de sensibilidade pelo sofrimento de muitos e pela perda da vida de alguns mas, também, uma imensa falta de respeito pelos cidadãos que lhe pagam o vencimento mas não têm que lhe aturar as excreções verbais.
Nada tenho de pessoal contra o senhor Governador Civil de Leiria (responsável pela enormidade atrás referida) – nem, aliás, contra nenhum dos restantes 17 cidadãos que exercem funções similares.
Serão certamente pessoas respeitáveis, mas cuja simpatia partidária não sendo, certamente, o único dos seus defeitos parece ser, infelizmente, a maior das suas qualificações.
Mas, não posso deixar de exigir do poder político que, perante a monstruosidade das afirmações, determine ao Ministro respectivo que, a bem da saúde pública, não permita estas formas de agressão verbal e tortura mental sobre os cidadãos.
E, já agora, à Alta Autoridade para a Comunicação Social, que obrigue a RTP a não passar reportagens obscenas no horário nobre sem, pelo menos, ter a decência de informar, previamente, que “as cenas que se seguem podem ferir a susceptibilidade das pessoas mais honestas e solidárias com o sofrimento de terceiros”.
Quando era Ministro, José Sócrates, a bem da preservação do Ambiente, trouxe ao País o "Dia Europeu sem carros"; porque não, agora que é Primeiro-Ministro, e a bem da preservação da dignidade nacional, criar o "Dia Português sem alarvidades"?
Ahhhhh, tem razão, senhor Primeiro-Ministro: não há orçamento que chegue para as mordaças!
Publicado por blog-notas às 09:41 PM | Comentários (3)
agosto 11, 2005
Até quando, Portugal???
“Portugal é o país com menor sucesso no combate aos incêndios florestais. Enquanto todos os países da Europa do Sul - que inclui ainda Espanha, França, Grécia e Itália - tiveram em 2004 um total de área ardida inferior à média dos últimos 25 anos, Portugal foi o único Estado membro onde o fogo consumiu mais floresta do que a média anual desde 1980.”
Diário de Notícias, 10 de Agosto de 2004
A notícia não refere – e não consegui apurar se o documento da EU aborda essa questão – quais os custos per capita que os diferentes países suportaram com as medidas adoptadas para a diminuição da sinistralidade florestal; mas, a avaliar pelas características de esbanjamento nacional, quase que podia adivinhar que, também nesta matéria, Portugal se destaque dos demais.
Porque, desgraçadamente, a situação calamitosa dos incêndios deste Verão decorre mais da incapacidade manifesta de um Estado obsoleto e desleixado, do que das condições climatéricas particularmente gravosas com que a Divina Providência nos tem castigado.
Em 9 de Agosto de 2003 publiquei, neste mesmo local, um texto que intitulei “Um Estado obsceno”.
Dois anos (quase exactos) depois, verifico, com tristeza, que o Estado – nas suas múltiplas vertentes, das Autarquias ao Parlamento, da Administração Local ao Governo, das Repartições aos Organismos Públicos – não só é desleixado como criminoso, numa manifestação tão óbvia quanto chocante da sua notória incapacidade de cumprir o articulado constitucional e, como tal, “proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar um correcto ordenamento do território (artº 9º, alínea e da Constituição)”.
Espartilhado por um sistema político que privilegia a óptica partidária em detrimento dos interesses nacionais, o País mergulha de crise em crise, arrastado num redemoinho de incompetência, ganância, nepotismo e corrupção que, não nos distinguindo na Europa a que teimosamente julgamos pertencer, nos nivela por uma África que, desdenhosa e sobranceiramente, preferimos encarar como sendo terceiro-mundista.
Mas da qual, infelizmente e pelos pior motivos, não estamos tão longe como alguns julgam.
Afinal, lamentamo-nos muito... resignamo-nos mais... e perdoamos tudo!
Tal como na Guiné- Bissau onde Nino Vieira é, de novo, o Presidente porque, “se não tivesse sido perdoado, não teria sido eleito. Se fui eleito, posso considerar que o povo perdoou os erros que possivelmente cometi durante o meu mandato”.
Porque se há-de, então, preocupar Isaltino Morais? Ou Fátima Felgueiras? Ou Avelino Ferreira Torres? Ou mesmo José Sócrates?
Até quando, Portugal???
Publicado por blog-notas às 12:33 AM | Comentários (2)
agosto 02, 2005
A geração rasca...
... não é a que se situa entre os 15 e os 25 anos e é irreverente - mas sim outra, a que (des)governa o País, que não tem memória nem vergonha, e subscreve afirmações como esta:
"Outra casa essencial está também em perigo: a Caixa Geral de Depósitos. Já não bastava ter ficado meses paralisada pela luta de facções do PSD, desenvolvida ao abrigo de uma excêntrica bicefalia, em que o presidente supostamente não-executivo detinha pelouros de gestão fundamentais. Agora, com a entrada de Celeste Cardona e Norberto Rosa, fica transformada num depósito de ex-governantes em busca de emprego rápido. A Caixa Geral de Depósitos é um banco, trabalha num mercado altamente competitivo, em que os maiores grupos financeiros procuram naturalmente os gestores mais qualificados e treinados do sector. Ora, basta ver a forma como é noticiada a nova administração para notar o perigo: ninguém consegue valorizar as capacidades e a experiência de Celeste Cardona na área para que se dirige, o facto é que à tradicional partilha de influência política entre PSD e PS se junta agora o CDS!..."
Augusto Santos Silva, Público - 25/9/2004
Publicado por blog-notas às 11:55 PM