« julho 2004 | Entrada | setembro 2004 »
agosto 18, 2004
Sexta feira, 13
Com o brilhantismo e o fino recorte literário a que nos habituou, Luís Delgado afirmava, num texto épico e glorioso intitulado "Acender a chama", publicado no Diário de Notícias, na aziaga data que dá título a este comentário, que "os portugueses olham para estes Jogos com uma grande expectativa, uma vez mais centrada no futebol, e na selecção de excelência que está concentrada na Grécia".
Mas, certamente por inspiração divina - que o tempo é propício a recordar os heróis da mitologia helénica e os Deuses do Olimpo - Luís Delgado tomou a nuvem por Juno e, julgando-se a lusa reencarnação do afamado oráculo de Delfos, profetizou, com a veemência e a pomposidade de quem priva de perto com a corte de Zeus, que "a competição é mais fraca em termos de igualdade de equipas, e a nossa, com os jogadores que tem, está em condições ideais para trazer uma medalha, que no mínimo terá de ser de prata, ou mesmo de ouro."
A selecção olímpica de Portugal, que iniciou a competição com uma derrota de 4-2 frente à "qualificadíssima" equipa iraquiana viria hoje, escassas horas atrás, a demonstrar à evidência a delgada profecia, ao repetir o resultado, soçobrando desta feita frente à "poderosíssima" selecção da Costa Rica.
Bem sei que o artigo foi publicado numa 6ª feira, dia 13!
Mas, tendo em conta as qualidades divinatórias de que o autor tem dado provas, também tanto fazia...
Publicado por blog-notas às 11:34 PM | Comentários (4)
agosto 16, 2004
Perguntar não ofende...
Quando se visita o site do Governo, e se procura ler uma declaração oficial do Primeiro-Ministro, encontra-se uma curiosa notinha a encabeçar o texto: “ (Só faz fé a versão efectivamente proferida) ”!!!
Ora, tendo em conta que o senhor Primeiro-Ministro já afirmou que “quando vos dou entrevistas, quando vos faço declarações, eu gosto de falar em possibilidades, gosto de falar em ideias de trabalho”, como é que um cidadão anónimo, medianamente inteligente e um dos mais mal pagos da Europa como eu, vai conseguir entender a política do Governo???
Publicado por blog-notas às 11:28 PM | Comentários (1)
agosto 12, 2004
Carta a uma vítima
Meu caro José Gomes:
Através do Telejornal da RTP-1 da passada 4ª feira, dia 4 de Agosto, tomei conhecimento do drama que, aos 82 anos, marcou a sua vida, vitimada pelo impiedoso incêndio que assolou Alportel e, em breves e dolorosos instantes, lhe destrui os haveres e condicionou a subsistência.
Hesitei muito antes de me decidir por escrever esta carta - cujo tema me angustia como pessoa e cuja substância me envergonha como português.
Faço-o, no entanto, como um grito de alma, como público manifesto de uma profunda indignação, não só pela situação de miséria para a qual alguns foram atirados mas, também, pela continuação de uma situação de vergonha nacional que a todos atinge.
Infelizmente, meu caro José Gomes, o senhor concentra, na sua pessoa, duas das mais pungentes e tristes condições que um português pode ostentar: a ruralidade e a velhice.
Porque vive no campo, e encontra na terra e na natureza a fonte primária do seu sustento e da sua vida, é esquecido pelos poderes públicos, ignorado pela maioria dos seus concidadãos e alvo de troça e de chacota no anedotário nacional.
Depois, porque como quase todos os velhos, não têm relevância económica, não podem fazer greves para pressionar o Governo, e só justificam destaques noticiosos quando o sofrimento que os atinge garante a fixação de audiências.
Como tantos outros portugueses, cabe-lhe pagar caro a factura da interioridade (num País que, curiosamente, apresenta uma insignificante dimensão geográfica) e da idade (numa sociedade onde, paradoxalmente, os avanços da medicina persistem em prolongá-la).
Instalada nas grandes zonas urbanas do Litoral, a classe política Governa para os portugueses que aí vivem - porque são esses que dão maiorias parlamentares e atapetam, com os seus votos periódicos, os degraus de acesso aos cadeirais do Poder.
O senhor, meu caro José Gomes, faz parte de uma minoria que não dá votos, que não reclama, que não depende dos subsídios governamentais, e de que as autoridades só se lembram para apregoar piedosas intenções ou para ilustrar promessas demagógicas.
Em 2003, muitos outros portugueses como o senhor, foram também vítimas da inépcia de sucessivos Governos, da incompetência de sucessivas organizações, do desmazelo de sucessivos autarcas.
Em 2003, também muitos outros portugueses como o senhor, lutaram contra a voracidade das chamas e perderam vidas e haveres, perante uma patente e inqualificável incapacidade das autoridades em actuar de forma rápida e decidida.
Em 2003, muitos portugueses como o senhor, ouviram as declarações de preocupação formal dos responsáveis bem como as promessas de que a situação excepcional que então se viveu não poderia, em caso algum, voltar a repetir-se.
Em 2003, muitos portugueses como eu e, se calhar, também como o senhor, contribuíram voluntariamente para as campanhas de solidariedade, tentando atenuar os prejuízos e mitigar a desolação das vítimas da inclemência da Natureza e da incúria dos Homens.
Um ano depois, o horror repete-se - perante a estupefacção de um País condenado, ano após ano, a confrontar-se com o pesadelo feérico da devastação incendiária que o assola de Norte a Sul.
Para trás parece ter ficado a intenção de "remediar as insuficiências e colmatar as falhas que podem ser imediatamente diagnosticadas, e identificar medidas susceptíveis de organizar e capacitar melhor e desde já, a protecção civil, os corpos de bombeiros e os vários mecanismos de alerta e coordenação na prevenção e combate aos incêndios".
Para trás parece ter ficado a declaração de "medir com exactidão a amplitude e não o pormenor da catástrofe, e avaliar com exactidão medidas a tomar com carácter imediato para que nunca mais se repita".
Para trás parece, igualmente, ter ficado a promessa de "seriedade no discurso, serenidade na análise, solidariedade na acção, eficácia e determinação na decisão e na execução". (Figueiredo Lopes, Diário da Assembleia da República, 14-8-2003)
Em 2004, tal como em 2003, você, meu caro concidadão foi, como muitos outros portugueses, vítima da forma infame como os poderes públicos desprezam o interior do País e ignoram o sofrimento de quantos, já quase só por fatalidade, são condenados a lá viver.
Em 2004, tal como em 2003, você é apenas mais um entre os muitos milhares de portugueses que a falta de visão estratégica, a escassez de competências e a ausência de escrúpulos de sucessivos Governos e Autarcas condenam ao isolamento permanente, à carência constante e à angústia sazonal do avanço dos incêndios.
E onde o desprezo pela dignidade das vítimas atinge o seu máximo expoente na criminosa cobardia de um Poder que não se preocupa, tão pouco, em gerir a generosidade de muitos e, escandalosamente, permite que, um ano depois, para além de "cerca de nove milhões de euros nos cofres do Ministério da Administração Interna" haja "ainda contas de solidariedade recheadas e intactas - uma delas com milhão e meio de euros, cerca de metade da verba angariada em seis campanhas".
Tal como foi pomposamente afirmado pelo então Ministro da Administração Interna na sessão da Assembleia da República atrás citada, também eu tenho a "convicção muito profunda de que os portugueses, especialmente as vítimas desta calamidade, têm o direito de exigir que estejamos [o Governo e o Parlamento] à altura deste momento histórico que vivemos em Portugal"
Por si - e por tantos outros portugueses que, ao longo de tantos anos, têm sido vítimas do gigantesco embuste promissório mantido por sucessivas levas de políticos de todos os quadrantes - só lamento que, para além deste desabafo, não me reste outra forma de protestar do que aquela que o sistema constitucional, generosa e periodicamente me atribuí, ao permitir-me votar num conjunto de políticos que não representam os interesses dos eleitores mas os objectivos dos directórios partidários.
E que, por isso mesmo, não fazem julgar como criminosos aqueles que, com responsabilidades aos diferentes níveis, se têm não só mostrado incapazes de gerir as crises como, até, de aplicar as verbas que a solidariedade nacional, ingénua e nobremente, lhes confia.
Portugal, que tanto se orgulha das suas realizações internacionais recentes - com destaque para o Euro-2004 - não pode continuar a desprezar os seus cidadãos, privando-os até das dádivas de generosidade de quantos encontram, nas horas de crise, a coragem de partilhar o pouco que têm com aqueles que tudo perderam.
Porque, com 82 anos, os portugueses são já credores do respeito social devido a idade mas, também, da gratidão inerente a uma vida de trabalho.
Mas, se mais não houver, possa o seu drama, meu caro amigo, servir para alertar as consciências e despertar o sentido de cidadania dos portugueses, levando-os a exigir das autoridades públicas que, na impossibilidade de evitar as catástrofes, sejam pelo menos capazes de lhes enfrentar as consequências.
Resta-me, agora, manifestar-lhe a minha profunda solidariedade e desejar-lhe, a si e a todos os "José Gomes" de Portugal, que a consciência social do País seja capaz de exigir, aos governantes, aquilo que as respectivas consciências pessoais não conseguem: que sejam justos.
E, com toda a sinceridade, enviar-lhe um pedido de desculpas e um abraço de fraterna amizade,
Publicado por blog-notas às 03:38 PM | Comentários (4)
agosto 04, 2004
Album de recordações - II
"No dia 10 de Agosto, em Castelo Branco, tomou o Governo o compromisso de publicar este Livro Branco.
Justificam-no a vastidão, voracidade e tenacidade dos incêndios que, neste verão de 2003, um dos mais tórridos e secos de que há memória, atingiram proporções de calamidade pública.
Apesar do imenso esforço e sacrifício posto no combate e no socorro, os incêndios devoraram vidas, casas e haveres, devastaram florestas e matas protegidas. Deixaram um rasto de tragédia humana, em primeiro lugar, e estragos materiais e ambientais que levarão muito tempo e mais empenho, a remediar e reparar.
Justificam-no, ainda, o desejo de corresponder, no mais curto prazo possível, à salutar exigência de que o Governo faculte aos cidadãos a informação factual e a apreciação que dela faz, de forma a permitir uma avaliação ciente da actuação desenvolvida e a desenvolver.
Uma catástrofe semelhante, ainda que se repita de futuro a excepcionalmente forte e longa vaga de calor que atingiu Portugal e grande parte da Europa, não pode repetir-se nunca mais."
LIVRO BRANCO DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS OCORRIDOS NO VERÃO DE 2003, Outubro de 2003
Publicado por blog-notas às 11:47 PM | Comentários (3)