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outubro 31, 2003
Da Luz até S. Bento
Decorrem hoje as eleições para a presidência do Sport Lisboa e Benfica.
A usual falta de qualidade do discurso dos candidatos à presidência dos clubes desportivos, que assenta geralmente na mais confrangedora ausência de ideias arrojadas, de objectivos motivadores e de uma estratégia de galvanização de vontades não é, certamente, aquilo que seria desejável para a condução dos destinos destas instituições.
As candidaturas à presidência do Clube das Águias não constitui excepção relevante a esta confrangedora regra.
No decurso da campanha eleitoral, Luís Filipe Vieira, Jaime Antunes e Guerra Madaleno evidenciaram, mais do que a defesa de um projecto, uma notória habilidade política . relembrar as glórias do passado, culpar os antecessores pelas desgraças do presente e prometer uma equipa de estrelas para o futuro.
É sintomática esta estranha e perigosa similitude entre o futebol e a política . a mesma que empurra os clubes e o país para os últimos lugares do ranking, arrastados por um despesismo megalómano que os mergulha num descalabro financeiro.
O Primeiro-Ministro não tem, pois, que se preocupar excessivamente com a vaia que sublinhou a sua curta intervenção na inauguração do .inferno da Luz..
Com efeito, pode sempre interpretá-la como um coro de protestos dirigido, não ao responsável pelo Governo de um país, mas ao presidente de um clube que tem história mas não tem garra, tem estrelas mas não tem equipa, tem estádios de luxo mas não tem dinheiro, tem adeptos entusiastas mas dirigentes sem génio.
Tal como Portugal, a grandeza e a história do Benfica (do qual, aliás, não sou adepto) justificavam, por si só, que os seus candidatos a dirigentes não fossem personalidades com tamanha penúria de ideias e uma tão óbvia tacanhez de objectivos.
Os benfiquistas mereciam mais e melhor.
Os portugueses também!
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outubro 30, 2003
Minha querida televisão
Numa reportagem de hoje com as irmãs siamesas Tânia e Magda, para assinalar os 25 anos da intervenção cirúrgica que permitiu a respectiva separação, a RTP-1 identificou as entrevistadas referindo o respectivo nome mas, subtitulando-o com a expressiva referência de "gémea".
É brilhante, como sempre - e infelizmente característico das outras televisões também!
Neste país de doutores e engenheiros, a identificação da pessoa não fica completa com o respectivo nome - faz falta um apêndice: o sub-título.
Já conheciamos os tristemente usuais "vítima", "sobrevivente", "testemunha", "vizinho", etc - temos agora, também, o "gémea".
O que se segue?
A referência a "violado", "pedófilo", "preso preventivo", "escutado", "deficiente mental"???
Quanto a mim, vou aproveitar a deixa e assinar
blog-notas
utilizador do autocarro 35
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outubro 29, 2003
Uma torpe petição
Fiquei a saber, através da Blogotinha, da existência de uma petição online para afastar Manuela Moura Guedes da sua função de pivot do Jornal Nacional da TVI.
Que inominável aleivosia!!!
Ousar propor o afastamento de Manuela Moura Guedes do seu papel de apresentadora é uma infame perfídia que só encontra paralelo na nomeação de Bin Laden para Nobel da Paz.
Porque, mais do que a simples apresentadora de um bloco noticioso, Manuela Moura Guedes é, hoje em dia, uma estrela da comunicação, um monumento de isenção, uma potestade do rigor, um símbolo incontestado do jornalismo.
Retirar o charme e o glamour de Manuela Moura Guedes ao Jornal Nacional teria, sobre a auto estima dos portugueses, um efeito tão nefasto como arrancar ao Big Brother a figura ternurenta e subtil de Teresa Guilherme.
Teresa Guilherme ganhou já o epíteto de .google da ordinarice..
Manuela Moura Guedes merece, por direito, a delicadeza de uma metáfora condizente com o seu estatuto de .cara da TVI.!
Poderá ser, um dia ou outro, um bocadinho pretensiosa, pender, aqui e ali, para a arrogância, assumir, de quando em vez, o protagonismo que é devido aos entrevistados . mas é, indiscutivelmente, um reflexo perfeito do estilo da estação de Carnaxide.
Que, como todos sabemos, é uma televisão .pimba.!
Por isso, Manuela Moura Guedes talvez possa ficar na História como a .Mónica Sintra das notícias.!
Ou, quiçá, como o .Zé Cabra das entrevistas.!
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outubro 28, 2003
Parabéns
"A rainha Sofia de Espanha entregou hoje, em Madrid, o prémio de poesia com o seu nome a Sophia de Mello Breyner Andresen"
Público, 28-Out-2003
Parabéns Majestade, pelo bom gosto!
Parabéns Sra. D. Sophia, pela sensibilidade!
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outubro 27, 2003
Os partidos no tempo de Eça
Há em Portugal quatro partidos: o partido histórico, o regenerador, o reformista, e o constituinte. Há ainda outros, mas anónimos, conhecidos apenas de algumas famílias. Os quatro partidos oficiais, com jornal e porta para a rua, vivem num perpétuo antagonismo, irreconciliáveis, latindo ardentemente uns contra os outros de dentro dos seus artigos de fundo. Tem-se tentado uma pacificação, uma união.
Impossível! eles só possuem de comum a lama do Chiado que todos pisam e a Arcada que a todos cobre. Quais são as irritadas divergências de princípios que os separam? . Vejamos:
O partido regenerador é constitucional, monárquico, intimamente monárquico, e lembra nos seus jornais a necessidade da economia.
O partido histórico é constitucional, imensamente monárquico, e prova irrefutavelmente a urgência da economia.
O partido constituinte é constitucional, monárquico, e dá subida atenção à economia.
O partido reformista é monárquico, é constitucional, e doidinho pela economia!
Todos quatro são católicos,
Todos quatro são centralizadores,
Todos quatro têm o mesmo afecto à ordem,
Todos quatro querem o progresso, e citam a Bélgica,
Todos quatro estimam a liberdade.
Quais são então as desinteligências? . Profundas! Assim, por exemplo, a ideia de liberdade entendem-na de diversos modos.
O partido histórico diz gravemente que é necessário respeitar as Liberdades Públicas.
O partido regenerador nega, nega numa divergência resoluta, provando com abundância de argumentos que o que se deve respeitar são . as Públicas Liberdades.
A conflagração é manifesta!
Eça de Queiróz, Uma campanha alegre, Maio de 1871
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outubro 24, 2003
Quem me dera também ter uma Fada Madrinha
Ao comentar uma bem sucedida experiência científica, que permitiu aumentar o tempo médio de vida de alguns vermes, dos habituais 20 dias para mais de 120, Manuela Moura Guedes confessou:
"Quem me dera ser verme!"
Ó minha senhora....quem lhe dera?????????
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O senhor colunista
Do magnífico texto assinado pelo senhor colunista Eduardo Prado Coelho sob o título .O Sr.., permito-me respigar a seguinte passagem:
.Os membros da nossa comunidade tratavam respeitosamente o embaixador por "senhor embaixador", mas, depois, desabituados do tratamento por "o senhor", faziam uma tradução directa do "vous" e diziam "você". O embaixador cambaleava um pouco, mas depois recompunha-se perante aquele "você" que parecia agressivo mas não era..
Ficamos pois a saber quão frágil é (ou era) a compleição física dos nossos representantes diplomáticos em França . cujo cambalear não se deve à graduação etílica dos afamados espumantes franceses ou dos requintados vinhos portugueses mas, tão somente, à impertinência do tratamento por .você., cuspido da boca de um grosseiro e luso emigrante.
Quanto ao conteúdo da requintada prosa do senhor colunista Eduardo Prado Coelho . e que só não transcrevo por consideração para com eventuais leitores mais sensíveis . limito-me às seguintes transcrições de outros textos do mesmo senhor colunista, que encontrei no site da secção de Benfica do Partido Socialista:
(...) Pedro Correia, no .Diário de Notícias. (...)
(...) tinha razão João Lobo Antunes (...)
(...) pessimistas de Miguel Beleza (...)
(...) Como escreve Artur Neves (...)
(...) está no estilo de Durão Barroso, e Manuela Ferreira Leite (...)
A Greve como um gesto, Público . 2002-12-12
(...) converteu Santana Lopes (...)
(...) muito admiro, Helena Matos (...)
(...) outra amiga, Daniela Santiago (...)
(...) espécie de João César das Neves (...)
(...) vermos Manuela Ferreira Leite e Durão Barroso (...)
O casino (1), Público - 2002-11-11
(...) um dos apoiantes da actual solução governativa, João Salgueiro (...)
(...) evitar o pântano que Guterres temia (...)
(...) contos que Celeste Cardona julgava ter perdido (...)
(...) o moderado Bagão Félix (...)
Um País à Deriva, Público - 2002-10-22
Constata-se que o senhor colunista Eduardo Prado Coelho apregoa mas não segue .a norma vigente numa língua. - preferindo transgredi-la e correr o risco de .criar um efeito sobre o outro que, neste caso, é claramente vexatório..
Ao ler o último texto do senhor colunista Eduardo Prado Coelho (.O Autocarro do Benfica.) transcrito no site atrás referido, apeteceu-me parafraseá-lo:
.Sabe uma coisa? O EPC é pouco dado a estas coisas da coerência..
.Pois, pois, já sabia. Mas não é preciso exagerar..
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outubro 23, 2003
A cobardia saloia
Embora integrados na Europa dos ricos, não perdemos ainda uma certa ancestralidade rústica e alcoviteira que busca, no parapeito da janela, o motivo para a conversa mesquinha à soleira da porta.
Mas, embora o progresso económico, tenha atirado para as brumas da memória o generalizado e cosmopolita hábito de ir a Badajoz comprar caramelos, nem por isso se perdeu a genuína matriz social que faz de nós, ainda hoje, um país de saloios . e onde pontifica, muitas vezes, aquela forma ardilosa de vida que a sabedoria popular tão bem baptizou de .esperteza saloia..
Somos, de facto, um país saloio . o que, não sendo necessariamente uma injúria, não é, obviamente, um predicado.
O folhetim da divulgação das escutas telefónicas envolvendo figuras de relevo no meio político e social português é pois, mais do que uma mera figura de contorno jurídico, um reflexo óbvio desta mentalidade saloia, agravada agora pelo ambiente de degradação moral que já caracteriza a nossa sociedade e incessantemente amplificada pela estridência da comunicação social.
Aos motivos tradicionais de satisfação da curiosidade pacóvia . da pudica devassa da intimidade doméstica do vizinho ao deleite com o escândalozinho do bairro, da apetência pelo ajuntamento espontâneo junto ao automóvel acidentado até à excursão organizada ao local de uma qualquer tragédia . os portugueses vêem agora juntar-se as delícias dos segredos dos processos judiciais.
Dia a dia, ao ritmo e ao jeito de uma novela totalmente portuguesa, o País assiste, no conforto do lar ou na tertúlia do café, ao esgravatar da vida, das conversas e dos desabafos dos famosos - e delicia-se com a transcrição dos pormenores escabrosos e das expressões brejeiras, trazidas ao conhecimento de todos pela actuação cobarde de alguns.
Que não é só cobarde . mas também indigna e ilegal.
E que, como tal, devia ser investigada, identificada e punida . quer se trate de magistrados, de funcionários judiciais ou de agentes de investigação.
Mas, infelizmente, é sabido que, além de saloio, Portugal também se mostra, muitas vezes, como um País de cobardes.
Como, infelizmente, se pode constatar a respeito do hediondo crime de Ermesinde onde, só após a detenção dos presumíveis culpados, surgem frente às câmaras de televisão, os vizinhos e conhecidos que .já se tinham apercebido de qualquer coisa. ou .já tinham suspeitado. . mas que, até então, haviam preferido o conforto do anonimato à coragem da denúncia.
Em Ermesinde perdeu-se mais uma vida inocente, sacrificada no altar do desleixo hipócrita de uns e da cobardia abjecta de outros.
Enquanto isso, em Portugal perde-se a confiança na hombridade da justiça e dos seus responsáveis . e, com ela, mais um bocado da auto estima de um País que, com oito séculos de História, merecia um bocadinho mais de respeito.
Publicado por blog-notas às 11:57 PM | Comentários (1)
outubro 21, 2003
Dois pesos... e duas medidas
Sendo certo que a coerência não é a mais acarinhada das virtudes políticas, aqui ficam algumas palavras que, sublinhando a independência de actuação censuram quaisquer formas de pressão sobre o poder judicial...
.Quero, também, dizer-lhe, Sr. Deputado, que não esperava de si a grosseira confusão entre o que é o exercício das funções de responsabilização política pela Assembleia da República e o que ocorre com outro tipo de responsabilização que só às autoridades judiciárias cumpre indagar. Recuso-me liminarmente, e falo por mim, a admitir acusações sobre interferências ou pressões sobre o funcionamento do poder judicial..
Diário da Assembleia da República, IX Legislatura, Reunião plenária de 18 de Setembro de 2002, Intervenção do deputado António Costa (PS)
(...) .se os problemas da transparência são de hoje, se os problemas da autonomia e da credibilidade dos partidos políticos e dos políticos são de hoje, devem ter a resposta imediata, hoje!.
(...)
.Os problemas de hoje têm de ser resolvidos hoje! É preciso coragem política para os resolver hoje! O populismo pode pagar imediatamente, mas o populismo é sempre contra a democracia..
(...)
.E, por isso, a exigência da coragem política faz com que a transparência que é exigível hoje seja exigível hoje, o rigor que é exigível hoje tem de entrar em vigor hoje, a credibilidade é de hoje..
(...)
.Há um outro aspecto em relação ao qual convém que não nos iludamos.
Já hoje existe um Código Penal, leis penais bastantes para encontrar actos de natureza criminosa. Costumo dizer, com alguma ironia, e permitam-me que a use hoje, que, em Portugal, não temos falta de crimes - o nosso elenco penal está ao nível dos mais exigentes elencos penais da Europa -, do que temos falta, muitas vezes, é de encontrar os criminosos.
E para encontrar os criminosos e os actos que são criminosos é preciso termos uma investigação consistente, com meios, com situações de instrumentalidade rigorosa para a poder cumprir..
(...)
.O prestígio da Assembleia da República, da política e dos políticos exige novos comportamentos. Temos todos de estar à altura de os assumir..
Diário da Assembleia da República, IX Legislatura, Reunião plenária de 27 de Abril de 2003, Intervenção do deputado Alberto Martins (PS)
.É, aliás, extraordinário - e outras descobertas certamente faremos quando, com mais tempo, pudermos ler o texto fabricado pela maioria ao longo do dia de hoje na Comissão - que queiram, simultaneamente, apresentar como uma grande inovação a criação de novos crimes e a primeira coisa que fazem é retirar ao Ministério Público, a uma magistratura independente, a titularidade dessa acção penal, atribuindo a titularidade dessa acção penal a uma entidade administrativa, carente da independência, violando assim, claramente, a Constituição..
(...)
.Quem quer transparência não teme as autoridades judiciárias! Quem teme as autoridades judiciárias quer enganar o "pagode", mas não quer submeter-se à tutela da legalidade..
Diário da Assembleia da República, IX Legislatura, Reunião plenária de 27 de Abril de 2003, Intervenção do deputado António Costa (PS)
(...) .Não ouviu, nem nesse momento nem em qualquer outro, da minha parte qualquer acusação abstracta, consequentemente infundamentada e fora de circunstância às magistraturas portuguesas..
(...)
.Pensemos o que pensemos sobre o comportamento em concreto de magistrados portugueses, temos um dever institucional elementar, o de nos relacionarmos de forma cooperante com as instituições que representam as nossas magistraturas..
Diário da Assembleia da República, IX Legislatura, Reunião plenária de 18 de Setembro de 2003, Intervenção do deputado Jorge Lacão (PS)
.O que é que está em causa? É que também não podemos pôr em causa alguns princípios que são fundamentais. E não podemos entender a separação de poderes como um princípio sagrado de organização do Estado de direito democrático e, depois, entendermos que devemos quebrar este princípio sagrado conforme a motivação política relativamente a qualquer processo!.
Diário da Assembleia da República, IX Legislatura, Reunião plenária de 2 de Outubro de 2003, Intervenção do deputado António Costa (PS)
Publicado por blog-notas às 11:46 PM | Comentários (1)
outubro 19, 2003
O vórtice dos dislates
Embora não comente .frases ditas em privado., o Barnabé (a cujo texto fui conduzido pela declaração de concordância do Adufe.pt) não hesita em referir que é o Ministério Público que .coordena fugas de informação permanentes para garantir um julgamento na praça pública..
O que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?
Não se vê logo???
A capacidade de esclarecer, em definitivo, uma dúvida que assolava muitos . e com a garantia de autenticidade da explicação através da solidez demonstrativa, cultural, técnica e política que só um blog declaradamente de esquerda pode reclamar.
Na Rua da Escola Politécnica, o senhor Procurador-Geral, que representa o topo do Ministério Público, pode continuar a manter o sorriso escarninho...
Porque, convém não esquecer, é ao Ministério Público que compete representar, entre outros, .os incertos e os incapazes. . como, no caso vertente, se mostrou o Barnabé!
Publicado por blog-notas às 11:57 PM | Comentários (7)
outubro 17, 2003
A cagadela...
.Novos excertos de escutas telefónicas entre dirigentes do PS relativas ao processo Casa Pia foram reveladas esta noite pela SIC. As gravações em causa passam-se entre Ferro Rodrigues, António Costa, e Paulo Pedroso a 21 de Maio último, dia em que o então porta-voz do PS foi detido preventivamente por decisão do juiz Rui Teixeira..
(...)
.Já no final do dia, Ferro Rodrigues diz a António Costa: "tou-me cagando para o segredo de justiça"..
Público,17-10-2003
E eu que pensava que não era de bom tom proceder à satisfação destas necessidades fisiológicas em público...
Publicado por blog-notas às 11:58 PM | Comentários (3)
outubro 16, 2003
Um golpe de bisturi
Invocar a dor é, muitas vezes, uma forma de demonstrar solidariedade com os que sofrem, alertando os distraídos e os egoístas para o sofrimento que nos rodeia . e que, tantas vezes, por comodismo ou preconceito, preferimos ignorar.
A violência do post d.O Bisturi é, por isso mesmo, um arrepiante grito de alerta, ao qual não é legítimo ficar indiferente porque, como ele diz, .a Sílvia nunca teve nenhuma visita do João Pinto nem do Figo, mas está feliz porque recebeu há pouco tempo uma cama de pinho em segunda mão..
A imprensa, que tantas vezes se socorre dos dramas humanos para alimentar audiências, prestou desta vez um inexcedível serviço . permitindo que a lâmina afiada do Bisturi dissecasse, à nossa frente, o horror de uma vida trágica, miserável, esquecida dos Deuses e ignorada pelos Homens.
Para que não esqueçamos que, ao lado do País dos protestos estudantis, do mediatismo dos tribunais e dos milhões do futebol, há um outro País - sem voz, sem apoio, sem recursos e onde cada minuto de sobrevivência é um século de sofrimento.
Para muitos, como a Sílvia, esse . e só esse . é o único Portugal que conhecem!
Publicado por blog-notas às 01:04 AM
outubro 15, 2003
O livro do gerente
Infelizmente não pude ir até ao Mercado da Ribeira, participar no lançamento do livro do Paulo Querido e do Luis Ene, beber um copo .à borla., comprar o livro com desconto, e conseguir que os autores me autografassem a obra que deram á estampa.
Até já tinha comprado uns calções e uns chinelos de praia próprios para a ocasião . e que até condiziam com o guarda-chuva e tudo!:)
Não pude lá estar ao vivo... mas nem por isso quero deixar de desejar que o lançamento tenha sido um êxito, que o momento tenha constituído um óptimo momento de convívio entre todos os que puderam comparecer, e que a edição da obra se traduza no sucesso que o empenho dos autores merece.
Impossibilitado de o ter feito pessoalmente, aqui vai (em bytes) o meu abraço de amizade!!!
Publicado por blog-notas às 11:56 PM | Comentários (1)
Acção Leucemia
É um apelo simbólico e simples . como simples são todos os actos genuinamente desprendidos e despretensiosos de partilha com os outros.
Aanes, a propósito do seu drama pessoal, lançou o mote . para que, ao escrever sobre a leucemia, se lance também um grito de alerta solidário a favor de todos aqueles que, independentemente da idade, são vítimas da terrível doença.
As minhas palavras de agora são, também, um tributo à memória e ao sofrimento dos familiares e amigos que já perdi, ceifados pela impiedade gélida desta enfermidade.
E relembro particularmente uma inocente criança de cinco anos, filha de um colega de trabalho, e que foi arrancada ao amor dos pais e do irmão, após três anos de um inenarrável sofrimento . e quando, por ironia, parecia já ter debelado o hediondo mal.
Um beijinho, Daniela!
Publicado por blog-notas às 11:44 PM
outubro 14, 2003
Uma mente brilhante
Fazendo fé na notícia do público, .após reportagem sobre a prostituição brasileira em Bragança, Governo suspende publicidade ao Euro 2004 na revista "Time" ..
Habituados a criticar os Governos pela forma tantas vezes titubeante como defendem os superiores interesses da Nação no exterior, os portugueses rejubilam com a clareza e veemência desta indiscutível e orgulhosa afirmação de soberania.
Não podendo conquistar a .Time. com a força das armas, sujeitamo-la pela asfixia económica e pelo vitupério publicitário.
Retirar, das páginas da .Time., a publicidade ao Euro-2004 é uma manobra brilhante, digna dos mais insignes estrategas militares . actuando, simultaneamente, sobre o fluxo vital dos abastecimentos e introduzindo um factor de pressão psicológica insustentável.
Subjugada pela falta dos preciosos euros dos anúncios, e esmagada pelo opróbrio da exclusão, a .Time. acabará por, maltrapilha e escanzelada, rastejar aos pés destes impiedosos governantes, a mendigar clemência.
A afirmação de Portugal na Europa e no Mundo faz-se, agora, através .do Braço forte, de gente sublimada/ Não menos nos engenhos que na espada..
A belicosidade da Espada foi substituída pela habilidade mortífera da Pena: a Mente vence a Força, Arnaut derrota a .Time..
Tivesse o Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas utilizado esta estratégia e, a esta hora, o Reino de Espanha estaria de joelhos, a suplicar por um cabaz de sardinhas.
Bastava que, perante a inflexibilidade arrogante do governo de Aznar, Sevinate Pinto tivesse ameaçado com uma medida igualmente implacável.
Retirar todas as placas rodoviárias que dizem .Espanha., por exemplo.
As pressões internacionais contra a violência de uma tal medida seriam, certamente, desmedidas.
Mas, perante o corajoso exemplo da .Time. . quem ousaria esboçar mais do que simbólicos protestos?
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outubro 13, 2003
Momentos KODAK... para mais tarde recordar (continuação)
.Esqueceu-se que, como disse recentemente o Presidente da República, aqueles que foram escolhidos pelos seus concidadãos são os primeiros a ter, pelos seus actos e pelos seus comportamentos, o dever de prestigiar e de valorizar as instituições da democracia representativa..
(...)
.Esqueceu-se também que os portugueses têm de confiar, como disse o Presidente da República, no rigor ético, na autoridade moral e na credibilidade pessoal daqueles que desempenham cargos públicos..
Diário da Assembleia da República, IX Legislatura, Reunião plenária de 9 de Outubro de 2002, Intervenção do deputado Ferro Rodrigues (PS)
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outubro 12, 2003
Momentos KODAK... para mais tarde recordar (continuação)
(...) .o Partido Socialista tem uma doutrina e a única diferença que estabelece relativamente aos seus próprios políticos é a de sermos mais exigentes connosco próprios do que entendemos dever ser com os outros..
(...)
.Esta é, pois, a doutrina do Partido Socialista que aplicamos a nós próprios e gostamos de ver aplicada pelos outros. É um entendimento que assenta numa destrinça muito clara entre o que é a responsabilidade política e o que é a responsabilidade criminal.
Quanto à responsabilidade criminal, todos gozamos da presunção de inocência e só às autoridades judiciárias cabe fazer o julgamento de acordo com as regras. Podemos ter solidariedade pessoal para com as pessoas de quem somos amigos, mas ninguém está acima da lei, mesmo aqueles que estão entre nós. Assim, quanto a essa matéria, total e absoluta confiança na justiça portuguesa, nas autoridades judiciárias e na total isenção, imparcialidade e independência com que julgarão o que houver a julgar.
Matéria distinta, neste caso como em todos os outros, é a questão da responsabilidade política. O que se diz da mulher de César também vale para César: não basta sê-lo, é preciso parecê-lo. Em nosso entendimento, a defesa da dignidade das instituições exige sempre que sobre quem está a exercer um cargo público não possa pairar um grau de suspeição que afecta a credibilidade das próprias instituições..
(...)
.Entendemos que não pode exercer as funções enquanto a questão não estiver esclarecida e que, se vier a ser acusada, deve demitir-se das mesmas. Nada disto tem a ver com qualquer juízo sobre a sua culpabilidade ou sobre a sua inocência..
(...)
.Para nós, não é a questão da responsabilidade criminal que aqui está em causa, é a da responsabilidade política. Quanto a essa, temos sempre uma só posição, seja ou não um dos nossos que está em causa..
Diário da Assembleia da República, IX Legislatura, Reunião plenária de 8 de Janeiro de 2003, Intervenção do deputado António Costa (PS)
Publicado por blog-notas às 11:23 PM
Uma pergunta incómoda
Pela pertinência, transcrevo a pergunta do Bengelsdorff:
"Se os políticos ficam surpresos quando chocam com a 'realidade nua e crua' mas que raio de classe política temos nós? Que legitimidade têm eles para governar os 95% da população que vive nessa realidade 'nua e crua'? E que tipo de realidade terão, então, eles em que viver?"
Publicado por blog-notas às 03:11 AM | Comentários (1)
outubro 11, 2003
Em estado de choque
.Um elemento do gabinete do presidente [da Assembleia da República] faz questão de assinalar que este «não está a fazer uma censura política» aos socialistas, recordando que Mota Amaral disse receber Paulo Pedroso no Parlamento de «braços abertos».
O que o incomodou foi «a falta de comportamento cívico dos deputados do PS e dos jornalistas», continua a mesma fonte..
(...)
.«Está em causa a imagem da Assembleia», conclui o membro do gabinete de Mota Amaral, adiantando que pessoas de outros parlamentos viram as imagens, nomeadamente na CNN, e telefonaram para Lisboa..
Expresso, 11-Out-2003
O comportamento dos deputados não é, infelizmente, um modelo de virtudes a seguir pelos cidadãos . quer quanto à atitude dentro do parlamento quer quanto à atitude e dignidade com que exercem as suas funções.
Mas, desta vez, é de sublinhar a sua atitude, que contribui, decisivamente, para divulgar o País no estrangeiro . com cobertura da CNN e tudo!
E ainda há quem diga que só os nossos jornalistas é que pegam em qualquer assunto para subir as audiências...
Publicado por blog-notas às 11:57 PM
outubro 10, 2003
Momentos KODAK... para mais tarde recordar
.A democracia é o regime da transparência e convive mal com suspeições, ou com dúvidas, sobre a idoneidade dos que a servem. A defesa das instituições democráticas exige-nos, por isso, frontalidade e urgência no apuramento da verdade..
(...)
Num Estado de direito, existe uma diferença fundamental entre, por um lado, a responsabilidade cível, fiscal ou criminal, que se afere pela adequação de um dado comportamento à lei e que só às autoridades judiciárias cabe apurar e, por outro, a responsabilidade política, que afere da idoneidade e credibilidade para o exercício de cargos políticos e que a esta Assembleia cabe apurar quanto a quem exerce funções governativas..
(...)
.Nenhuma confusão pode existir entre estes dois tipos de responsabilidade. Pode haver ilícitos, até penais, que não desqualificam para o exercício de cargos governativos. Há comportamentos que, ainda que não sejam ilícitos, afectam a credibilidade para o exercício de cargos políticos..
(...)
.Temos total confiança no sistema de justiça para apurar eventuais responsabilidades cíveis, fiscais ou penais. Não podemos, nem devemos, renunciar ao exercício das nossas próprias competências..
Diário da Assembleia da República, IX Legislatura, Reunião plenária de 18 de Setembro de 2002, Intervenção do deputado António Costa (PS)
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outubro 09, 2003
A solidariedade na lixeira
"Na semana passada, carregaram um camião com caixas de roupa, para levar para Beja. Só que, nessa noite, como o camião tem a capota toda rota, entrou imensa água e, quando foram partir, constataram que a roupa estava toda malcheirosa, com bolor", explicou, [o Secretário-Geral da CVP] adiantando que o material foi recolhido na campanha de auxílio às vítimas dos incêndios do Verão passado.
Público, 9-Out-2003
A Cruz Vermelha Portuguesa, que se mostra tão rigorosa na especificação dos donativos (referindo, quanto ao vestuário e ao calçado, que devem estar .em bom estado.), bem que podia cuidar melhor dos artigos que se propõe distribuir aos mais necessitados.
Muitos dos artigos agora deitados fora, terão sido entregues à C.V.P. num acto de solidariedade . que, quase dois meses após a tragédia dos incêndios, a burocracia não conseguiu distribuir e a incúria atirou para uma lixeira.
Esperemos que, já que se aproxima a época das chuvas constantes, a C.V.P. não deixe ir .por água abaixo. mais um bocado da solidariedade nacional!
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outubro 08, 2003
O Pipi e a política
A nível mundial, Arnold Schwarzenegger está indissociavelmente ligado à figura do Exterminador Implacável.
Na blogosfera nacional, o Pipi está indissociavelmente ligado ao epíteto de Cobridor Insaciável.
Arnold Schwarzenegger foi acusado de assédio sexual, por cerca de onze mulheres que se queixaram, entre outras coisas, de ter sido apalpadas.
O Pipi nunca será acusado de assédio sexual; quanto muito poderia sê-lo por óbvias práticas sexuais e, seguramente, por mais de onze dúzias de mulheres.
Arnold Schwarzenegger é casado com Maria Shriver.
O Pipi confessa inconfessáveis fantasias com Fernanda Borsatti e Margarida Martins.
Schwarzenegger, depois de uma carreira artística, enveredou pela carreira política . e ontem, dia 7, ganhou as eleições para Governador do estado da Califórnia.
O Pipi é uma estrela artística em ascensão - e ontem, dia 7, publicou um livro.
Só lhe falta mesmo enveredar pela carreira política . e, quiçá, conquistar rapidamente um lugar no areópago de S. Bento.
E, com a fama que se lhe conhece... Odete Santos que se cuide!
Publicado por blog-notas às 09:37 PM
outubro 07, 2003
A CIGARRA E A FORMIGA
VERSÃO ANTIGA
A formiga trabalha arduamente, debaixo de um calor abrasador, durante todo o Verão, construindo a sua casa e armazenando provisões e mantimentos para aguentar o Inverno.
A cigarra pensa que a formiga é uma tola e ri, dança e brinca durante o Verão.
Chega o Inverno, e a formiga está confortável e bem alimentada.
A cigarra não tem comida nem abrigo e morre.
VERSÃO MODERNA E PORTUGUESA (em 18 capítulos)
I
A formiga trabalha arduamente, debaixo de um calor abrasador, durante todo o Verão, construindo a sua casa e armazenando provisões e mantimentos para aguentar o Inverno.
A cigarra pensa que a formiga é uma tola e ri, dança e brinca durante o Verão.
Chega o Inverno, e a enregelada cigarra convoca uma conferência de imprensa para denunciar a situação em que vive, pretendendo saber por que razão é permitido à formiga estar bem aquecida e alimentada enquanto outros sofrem com frio e fome.
II
RTP, SIC e TVI apresentam-se em força para transmitir imagens da pobre cigarra, completamente transfigurada pelo frio e pela fome, ao mesmo tempo que passam outras imagens da formiga na sua casa bem confortável e com a mesa cheia de boa comida.
O país está chocado perante este contraste.
Como é possível, nos dias que correm, uma pobre cigarra sofrer tanto?
Durante semanas não se fala de outra coisa.
III
O Primeiro-Ministro aparece num programa especial da RTP com um ar consternadíssimo, repetindo, vezes sem conta, que o Governo fará tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a pobre cigarra, a qual, como toda a gente deverá entender, está a ser vítima da má política dos anteriores governos do PS.
IV
O Padre Vitor Melícias desdobra-se em esforços para angariar toda a ajuda possível, implementando um peditório, a nível nacional, para que a cigarra possa viver com alguma dignidade.
Simultaneamente, a CGD abre uma conta especial, onde qualquer pessoa pode efectuar um depósito, contribuindo, assim, para mais uma ajuda preciosa.
V
O secretário-geral do PCP, numa entrevista a Manuela Moura Guedes, comenta que a formiga enriqueceu à custa da cigarra, resultado de uma gestão danosa da política de direita, que sempre prejudicou os mais necessitados, e apela ao Primeiro-Ministro para que seja criado um aumento significativo do IRS, através de um escalão especial, por forma a que a formiga pague o valor justo em relação àquilo que ganhou.
VI
O Bloco de Esquerda exige a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a demissão do Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, do Ministro da Economia e do Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente.
VII
O líder do maior partido da oposição, acusa o Primeiro-Ministro de estar ausente e à margem da crise social evidenciada pela desgraça da cigarra, e exige a criação de outra Comissão Parlamentar de Inquérito, e a demissão da Ministra de Estado e das Finanças, do Ministro da Administração Interna e da Ministra da Justiça, bem como a reavaliação da Lei-Quadro do Rendimento Cigarral Mínimo.
VIII
Num movimento sem precedentes, o líder do CDS/PP aparece abraçado à cigarra, em todas as feiras e mercados, e chama a atenção para a necessidade de limitar a imigração de insectos (em particular de outras formigas).
IX
Tentando acompanhar a situação política, o Comité Central do PCP convoca uma conferência de imprensa para propor a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, e exigir a demissão do Ministro de Estado e da Defesa Nacional, do Ministro da Segurança Social e Trabalho e do Ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação.
X
A Câmara Municipal de Lisboa inunda a capital com cartazes onde se pode ler .Já viu que esta rua não tem formigas?.
XI
A CGTP e a UGT, preocupadas com a diminuição do poder de compra da cigarra, organizam marchas de protesto, apelam à Assembleia da República para que crie uma Comissão Parlamentar de Inquérito, e exigem do Primeiro-Ministro a imediata demissão do Ministro da Educação, do Ministro da Cultura e do Ministro da Saúde.
XII
Cedendo à imensa pressão nacional, o Governo cria uma Secretaria de Estado, dependente do Ministério das Finanças, e implementa um programa chamado "Igualdade Económica e Acções Anti-Formiga", com efeitos ao princípio do Verão, e que obriga a formiga a pagar os novos impostos com retroactivos.
Como a formiga não estava preparada para pagar, a sua casa foi confiscada pelo Governo.
XIII
O Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro, o Ministro da Presidência e o Ministro dos Assuntos Parlamentares convocam uma conferência de imprensa e, numa atitude inédita, lamentam que nenhuma força social tenha contestado a sua permanência no Governo, e informam o País que, por essa razão, apresentaram a demissão ao Primeiro-Ministro.
XIV
A firma de advogados de Vale e Azevedo, representando a cigarra, apresentou em tribunal um processo contra a formiga, por abuso e fuga aos impostos, tendo a formiga perdido a causa, sem qualquer hipótese de recurso.
A formiga desaparece e ninguém mais lhe põe a vista em cima.
XV
Em todos os canais da televisão, o Presidente da República, com o seu entusiasmo habitual, anuncia que foi feita justiça e que uma nova era de integridade e equidade nasceu em Portugal.
XVI
Lili Caneças, querendo tirar mais umas fotografias, organizou uma grande festa de beneficência, onde estiveram presentes todos os nomes conhecidos da política, artes, moda, teatro, cinema, música, desporto, etc.
Com o dinheiro que ganhou de todos estes movimentos nacionais de solidariedade, bem como da venda de grande parte da comida da formiga, a cigarra vive dias com que nunca sonhou.
Grandes festas, jantaradas, casinos, jogo, mais festas e mais jantaradas, oportunistas, más companhias, e o dinheiro desaparece depressa.
XVII
Entretanto, é noticiado em diversos órgãos da comunicação social internacional, o retumbante sucesso obtido pela a formiga portuguesa, no país desenvolvido para onde, entretanto, tinha emigrado . salientando-se, nomeadamente, os bons serviços e enormes mais-valias acrescentadas ao sector industrial e comercial resultantes da sua capacidade empreendedora.
XVIII
A história acaba com as imagens da cigarra a comer o último bocadinho de comida que a formiga tinha armazenado, dentro da casa que agora pertence ao Governo, mas que, por falta de verba para proceder à sua manutenção, se encontra completamente degradada.
Epílogo
A cigarra, entretanto, foi encontrada morta num beco, resultado de um incidente relacionado com drogas, e a casa, agora abandonada, é utilizada por um bando de delinquentes que vive aterrorizando o que, em tempos, era uma pacífica vizinhança.
N. do A. - O Ministro da Ciência e do Ensino Superior e o Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas, acusados de irregularidades visando a formação académica da formiga, foram demitidos antes do início da história.
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outubro 06, 2003
O google da ordinarice?
Desta vez o Gato Fedorento ultrapassa, clara e obviamente, os limites da infâmia e do mau gosto, ao insinuar que .A TERESA GUILHERME É O PIPI! .
Injusta, porque o Pipi é ordinário, insolente, picante como um camionista . e a Teresa Guilherme é delicada, meiga e suave como um motor afinado!
Grosseira porque o Pipi é apenas um blog genial . e a Teresa Guilherme uma blague boçal!
E depois, a Teresa Guilherme é muito, muito mais do que um motor de busca: é o Napster da javardice mental, o Kazaa da facúndia boçal, o Tucows da insinuação imunda.
Teresa Guilherme é, pois, um programa de partilha!
E o Pipi já quase não passa de uma janela de chat!
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outubro 04, 2003
Um animal em vias de extinção
Vivemos num País de bárbaros!
Ao pedir a demissão de mais um responsável político, a Oposição portou-se mais uma vez como uma qualquer Salomé que, despeitada com a falta de atenção que os detentores do Poder prestam aos coleantes movimentos das suas nádegas esquálidas, desatam a berrar pela cabeça do primeiro S. João Batista que lhes apareça pela frente.
Porque, à falta de melhor e perante uma certa dormência da opinião pública (que encara com resignada naturalidade que os ministros assinem despachos), pouco mais resta aos afastados do poleiro do que bramir pela queda dos que lá se encontram.
Não é fácil a vida para a Oposição . obrigada a aguar constantemente, quer por avidez de experimentar as difíceis e pungentes sinecuras do poder, quer por recordatório desgosto das prebendas doutros tempos.
Mas, não é igualmente fácil a vida de um ministro, de quem muito espera o País . e, mais ainda, o partido, os familiares e os amigos.
Porque, afinal, o que é um ministro?
Um ministro é mais do que um Secretário de Estado; é mais do que um recitador de discursos; mais do que um pregoeiro de reformas; mais do que um inaugurador de troços alcatroados; mais do que um sonolento presidente de fastidiosas sessões públicas; mais do que um condenado a enfrentar as protestantes nádegas estudantis; mais até do que o presidente do Clube de Futebol de Sassoeiros . embora bastante menos que o Presidente do Futebol Clube do Porto.
E, do mesmo modo que o capitão de um navio, o ministro também deve dispor de instrumentos que lhe permitam guiar, com mão firme e segura, a pesada nau da governação . permanentemente fustigada por opções de alto risco como a escolha de assessores e manobrando entre rochedos traiçoeiros como a criação de grupos de trabalho.
É por isso que, de um ministro, se espera que também assine despachos.
E que nomeie a família; os amigos; os conhecidos; os membros da secção do partido; os vizinhos do lado; os companheiros de caça; os primos da província; os adversários do bridge; os confrades; alguns parceiros da colectividade de bairro ou do clube desportivo.
Quando se vai a ministro, não se vai sozinho - leva-se a agenda telefónica; o rol das compras; a lista de destinos exóticos a visitar e de personalidades a conhecer; o guia Michelin de restaurantes; o catálogo da Mercedes, da Volvo e da BMW.
Na prática, a função executiva está, para o despacho do político, como a indústria farmacêutica para o receituário de alguns clínicos . já que, em ambas as situações, se pode descortinar o mesmo e estranho sortilégio pela venalidade.
A função não é, definitivamente, bem paga . mas funciona como os Certificados de Aforro: é uma aplicação financeira, necessita de pouco capital inicial, a taxa de rentabilidade, embora baixa, é garantida pelo Estado, existe um prémio de permanência e, last but not least, é resgatável quase de imediato e sem chatices.
Os uivos despeitados e a viscosa salivação com que a Oposição se atirou ao felídeo ministro são, pois, politicamente compreensíveis mas ecologicamente reprováveis.
Politicamente compreensíveis porque falar de ética e exigir demissões são as funções principais que se esperam de uma qualquer Oposição . enquanto não é Governo.
Ecologicamente reprováveis porque, tal como os seus primos da Malcata, este lince político também é um animal em extinção.
Porque, em boa verdade, os animais políticos não costumam sair sozinhos.
Regra geral, só mesmo quando são (muito) empurrados!
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outubro 03, 2003
Uma questão de lógica III
Coitado de Cavaco Silva!
Coitadinhos dos espanhóis!!!
Logo, Cavaco Silva é espanhol.
Logo, não pode ser candidato à Presidência da República.
O que abre o caminho a Pedro Santana Lopes!
Felizes dos lisboetas!!!
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Uma questão de lógica II
Público, 02-Out-2003:
O secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, considerou hoje que o Executivo de Durão Barroso "é o Governo mais à direita desde Marcelo Caetano".
O Executivo de António Guterres foi, também, o Governo mais-ao-lado de Portugal desde D. Afonso Henriques.
Mas, ao lado de Portugal, é a Espanha.
Logo, António Guterres foi o Presidente do Governo de Espanha.
Coitadinhos dos espanhóis!!!
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outubro 02, 2003
Uma questão de lógica
Público, 02-Out-2003:
O secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, considerou hoje que o Executivo de Durão Barroso "é o Governo mais à direita desde Marcelo Caetano".
O que coloca Cavaco Silva à esquerda de Durão Barroso.
Mas, à esquerda de Durão Barroso está Ferro Rodrigues.
Logo, Cavaco Silva é Ferro Rodrigues.
Coitado de Cavaco Silva!
Publicado por blog-notas às 11:58 PM | Comentários (1)
outubro 01, 2003
Portugal está a mudar
Portugal parece estar a perder, paulatinamente, as últimas réstias de auto estima e de consciência moral.
Atulhado num mar de incompetências, hipocrisias, desonestidades e populismos fáceis, o País afunda-se social e economicamente, sucumbindo ao lastro de uma classe política sem fôlego nem visão e de uma classe empresarial sem qualificação nem estratégia.
Passado o ciclo das especiarias da Índia, esgotado o filão do ouro do Brasil, perdidas as riquezas do Império, o xico-espertismo nacional de uma horda de políticos sem escrúpulos e de empresários sem princípios, aliados na cupidez néscia e no deslumbramento boçal esvaiu, em rotundas e Ferraris, os milhões cedidos por Bruxelas para a modernização da indústria, a competitividade do comércio e a formação dos trabalhadores.
O Produto Interno Bruto decresce, o rendimento disponível das famílias diminui, o desemprego aumenta . e o Estado, comportando-se como um predador insaciável, que tributa até a solidariedade, é tratado como um inimigo e um bandoleiro.
Perdeu-se o respeito pelas instituições, cujo funcionamento se questiona, e pelos homens públicos, de cuja honestidade se duvida.
O Parlamento vive de rituais; o Governo de expedientes; os Partidos de cambalhotas programáticas; as Autarquias de obras de fachada.
Os princípios sucumbem perante as mordomias; as ideologias curvam-se respeitosamente perante as conveniências do momento; as declarações de princípios ajoelham-se perante a imperiosa necessidade de satisfazer clientelas partidárias tão mais ávidas de benesses quão maior é o período de afastamento da malga do orçamento; da oposição . das oposições, aliás . só se ouvem uivos de desespero, não por questões de princípio mas pelo distanciamento das vitualhas, que só o Poder distribui.
No Parlamento, os deputados não se respeitam nem se dão ao respeito; uns fogem às responsabilidades a coberto da sombra protectora da imunidade parlamentar; outros, trocam as agruras de S. Bento pelo encanto da corte de S. James; a fraqueza e a tibieza das argumentações de todos só encontram paralelo na arrogância e na convicção da defesa de privilégios comuns; a maioria suspira por um lugar no Governo ou pela Administração de uma Empresa ou Instituto Público; a quase totalidade evidencia os princípios de Pavlov . salivando perante as conveniências do Partido, sempre que a sineta regimental os manda levantar.
O Governo não vive da competência mas dos equilíbrios de forças dentro dos partidos vitoriosos; discutem-se processos de nomeação das estruturas dirigentes, não pela necessidade de promover valores mas de satisfazer aparelhos partidários; busca-se, na facilidade demissória, a fuga óbvia às responsabilidades e a remissão das culpas; as demissões (quando efectivadas) não surgem por imperativo ético da tutela mas por opção táctica do tutelado; todos os subterfúgios são aceites para a manutenção dos privilégios.
Os autarcas convivem alegremente com formas obscuras de financiamento partidário; os que não se refugiam do outro lado do Atlântico, respaldam-se em S. Bento; as obras públicas custam sempre (muito) mais do que o orçamentado; gasta-se desmesuradamente para inaugurar estádios de futebol . mas fecham-se escolas.
O compadrio é generalizado, e floresce como cogumelos alimentados pelo rico húmus da política, da imprensa, do futebol, da construção, do financiamento dos partidos e da fuga ao fisco.
O que resta é a esmagadora maioria, .os outros. que somos quase todos nós e que, ao recusarmos esta perversa promiscuidade, nos comportamos como imigrantes no nosso próprio País.
Não querem lá ver que era a nós que o líder do CDS/PP se referia?
Publicado por blog-notas às 02:24 AM | Comentários (2)