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agosto 31, 2003

Big Brother is back again

Está a começar mais um Big Brother!

No além, Orwell deve estar de novo a vomitar!

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agosto 30, 2003

Fim de férias - parte II

"É controlando a despesa pública que libertamos mais recursos."
Durão Barroso, 2003-08-30

Em 9 de Agosto escrevi um texto em que quase esgotei a adjectivação relativamente ao Estado - que, resumidamente, qualificara de "obsceno".

Ouvindo as palavras do Primeiro-Ministro e líder do PSD, constato que olvidei um atributo: redundante.

Aqui fica a correcção possível!

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agosto 29, 2003

DIREITO DE RESPOSTA

"Necessity is the plea for every infringement of human freedom. It is the argument of tyrants; it is the creed of slaves."
William Pitt


Dado que a polémica parece estar para durar - sobretudo depois do abrupto "early morning blog" que ontem referi - permito-me transcrever a resposta do "abruptamente indignado" autor daquele que parece ser o mais famoso dos blogs oportugueses do momento:

"E porque não sou criminoso, nem gosto de indignar ou ofender, em breve colocarei apenas perguntas no Blog. Cem perguntas.
Mas não acreditem nelas; sou muito mentiroso.
"

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agosto 28, 2003

Blogs anónimos

O EARLY MORNING BLOGS 34 aborda hoje a utilização dos blogs como instrumento de .típica operação criminosa., no que presume ser o primeiro .crime, um crime cometido na blogosfera..

A análise, até pela equiparação feita com as .cartas anónimas., recordou-me a leitura de dois recentes textos onde, a propósito do anonimato dos blogs, se referem alguns aspectos que, para além de reforçarem os comentários de Abrupto, constituem um interessante contributo para a compreensão da blogosfera.

Recomendando aos mais interessados no fenómeno a leitura integral dos textos, permiti-me a selecção dos seguintes excertos:

"Many anonymous bloggers are anonymous only so that they can, under the relative protection of anonymity, lie as much as they want, denounce other people, verbally attack anybody without having to base their writring on facts, and generally just write any crap they wish without having to answer for it.(.) I suspect that most of them would never have the guts to post under their real names because they know they'd instantly lose their credibility in the real world if somebody reads what they're writing. If you have your name on your website, you have to think before posting. You have to check and double-check your sources for credibility. You can't just use any term to attack somebody; instead, you have to think about whether the term you're using is adequate and to what degree it is justified.
(.)
Actually, it takes some guts to put your name under a piece of writing where you're not really 100 per cent sure if it's correct because you're not an expert and you haven't had the time or the means to do the proper research. And it takes even more guts to admit that you were wrong. Anonymous blogs never admitthat they were wrong because they don't have to.
"
Horst Prillinger, Junho 2003

"I must say that I come and go on the question of whether or not anonymous blogs are a good thing. Mostly I try to stay neutral, because there are genuine reasons for maintaining anonymity, but I must say that there is something annoying and maybe dishonest about people who will tip a bucket all over you, emblazoning your name all over their blog, and calling you for everything under the sun, while they stay safely cocooned behind their false identity."
Tim Dunlop, Janeiro 2003

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agosto 27, 2003

Descubra as diferenças (II)

Portugal, Agosto de 2003
"Figueiredo Lopes afirmou que o Governo esteve 'onde era preciso' e 'não perdeu tempo'.
'É natural que existam críticas. Mas há uma que não posso aceitar: que o Governo tenha demorado a reagir ou que esteve ausente', afirmou, considerando que esta acusação como 'a mais injusta de todas'
."
Publico, 2003-08-14 - 17h18:00

França, Agosto de 2003
"Pour Hubert Falco, secrétaire d'Etat aux personnes âgées, 'notre société n'était pas préparée' à cette canicule. 'Nous n'avions pas pris conscience de l'ensemble des problèmes posés par la longévité de nos concitoyens', ajoute le ministre."
Le Monde, 2003-08-21

Portugal, Agosto de 2003
"A Liga dos Bombeiros Profissionais queixa-se de que Gil Martins 'está a passar um atestado de incompetência' às escolas nacionais de bombeiros profissionais e de sapadores de bombeiros, 'onde é dada formação no combate a incêndios florestais'.
No combate aos fogos que está a ser efectuado no terreno, a ANBP denuncia a 'descoordenação total'. O coordenador nacional, que nos últimos anos tem supervisionado os combates, 'já demonstrou claramente a sua incapacidade para administrar uma situação de crise', refere o responsável.
'O ministro da Administração Interna devia mandar calar o coordenador nacional' de Operações de Socorro, remata o presidente da ANBP.
"
Publico, 2003-08-08

França, Agosto de 2003
"Publiquement mis en cause par le ministre de la santé, Jean-François Mattei, le professeur Abenhaïm, qui était en fonction depuis 1999, a expliqué son départ, lundi 18 août en début d'après-midi, par la volonté de 'pouvoir expliquer sereinement l'action des services' qu'il dirigeait 'devant les polémiques actuelles sur la gestion de l'épidémie' liée à la vague de chaleur."
Le Monde, 2003-08-19
Le professeur Abenhaïm: "La gravité de la situation mérite des explications, mais à partir du moment où le ministre de la santé a mis en cause la DGS et l'Institut de veille sanitaire (INVS), il n'était plus possible de s'expliquer calmement et d'avoir une attitude sereine sans démissionner. Autrement, j'aurais donné l'impression de vouloir sauver mon poste."
Le Monde, 2003-08-19

Portugal, Agosto de 2003
"O número de óbitos foi 'seguramente minimizado' pela adopção imediata de medidas desencadeadas pelo Ministério da Saúde na sequência dos grandes incêndios florestais que assolaram o país e da onda de calor que se verificou nos primeiros dias de Agosto, refere a nota do gabinete do ministro Luís Filipe Pereira."
Publico, 2003-08-20

França, Agosto de 2003
"Jacques Chirac ne s'est toutefois pas appesanti sur ce chapitre et a aussitôt indiqué qu'il avait demandé au gouvernement que 'toutes les causes des drames' liés à la canicule 'soient analysées en profondeur dans la plus totale transparence' et que 'toutes les conséquences' en soient 'tirées afin de prévenir le retour de telles situations'.
'Pour éviter ces drames à l'avenir, notre système de prévention, de vigilance et d'alerte sera revu afin d'assurer une plus grande efficacité', a dit M. Chirac. 'Tout sera fait pour remédier aux insuffisances que nous avons constatées dans notre organisation sanitaire', a-t-il ajouté.
"
Le Monde, 2003-08-21

Portugal . cerca de 10 000 000 de habitantes e mais de 1 300 mortos em resultado da vaga de calor

França . cerca de 56 000 000 de habitantes e mais de 10 000 mortos em resultado da vaga de calor

Descobriu alguma diferença???

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agosto 26, 2003

Descubra as diferenças

Nos finais de 2002, em Portugal, para apurar as circunstâncias que envolveram a demissão de quadros superiores da Polícia Judiciária, foi criada a .Comissão de Inquérito Parlamentar às demissões da Polícia Judiciária..

Em 2003, no Reino Unido, as circunstâncias que envolveram a morte do Dr. David Kelly, estão a ser investigadas no âmbito do denominado .Hutton Inquiry..

Nos finais de 2002, em Portugal, os deputados consideravam que .a natureza sigilosa das matérias objecto de discussão, averiguação e dilucidação nesta Comissão, que importa sobremaneira preservar. impunha .que as reuniões e diligências da Comissão não sejam públicas, nos termos do que permite o plasmado no artigo 15.º, n.º 1, do Regime Jurídico dos Inquéritos Parlamentares. (acta da reunião de 29 de Outubro)

Em 2003, no Reino Unido, as sessões são públicas, e os depoimentos e muitos dos documentos oficiais estão on-line.

Nos finais de 2002, em Portugal, os elementos da Comissão de Inquérito .juraram, pela sua honra, respeitar a confidencialidade absoluta e o segredo de justiça, respeitante a todos os actos do processo de inquérito a que a Comissão está a proceder. . mas garantiram ao País o acompanhamento dos depoimentos através dos jornais.

Em 2003, no Reino Unido, a publicitação imediata das provas e dos testemunhos evita, pelo menos, que os .juramentos de honra. sejam tão infame e vergonhosamente aviltados.

Nos finais de 2002, em Portugal, estava em causa a audição de uma Ministra e de quadros superiores da Polícia Judiciária.

Em 2003, no Reino Unido, um senhor chamado Tony Blair . que por acaso exerce as funções de Primeiro-Ministro - vai prestar declarações em 28 de Agosto.

Descobriu alguma diferença???

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agosto 25, 2003

Dos blogs à Comissão Nacional de Protecção de Dados

Li, ontem, no extracto de um e-mail enviado a Santa Ignorância, que "os blogues estão para os portugueses na exacta medida que as bolas de futebol está para os brasileiros, os touros para os espanhóis, a cerveja para os alemães, doze paus de dinamite e um bom fio condutor para os palestinianos, um presidente burro para os americanos: são o veículo ideal para aquilo que realmente eles sabem e se sentem bem a fazer. No nosso caso, a arte de OPINAR."
(...)
Por toda a parte, se estiveres minimamente atento, encontras as pessoas mais insuspeitas deste mundo a dizer as maiores barbaridades deste mundo como se de um dogma se tratasse. E, atenção, é isto que eu condeno. Agrada-me muito a discussão e estimulam-me os pontos de vista diametralmente opostos. Mas odeio, odeio, odeio, quem fala sem ter conhecimento de causa, quem acha que tem obrigatoriamente de ter opinião sobre tudo de tudo, mesmo que não saiba nada de nada..
(...)
.Mas voltando aos blogues. Acho honestamente que se trata da invenção da década (pelo menos) para todos aqueles que diariamente sempre sonharam em ser .opinion-makers. de estampa.
"

Possa-se embora concordar com algumas das considerações referidas, não deixa de ser questionável a generalização - nem todos os palestinianos serão versados em engenhos explosivos improvisados e acredito que uma parte significativa dos cidadãos americanos não se revê nos comportamentos da Administração Bush.

Além do mais, num país como Portugal, parece pelo menos duvidoso que os blogs sejam .um veículo ideal para opinar. para a maioria . tendo em conta que os indicadores de 2000 ainda referiam que mais de 66% dos portugueses nunca tinham usado a internet.

Verifica-se, no entanto, que o fenómeno dos blogs, que já havia sido alvo de uma também .brilhante. apreciação de Luís Delgado . comentada, em tempo, nas silhuetas e nas irreflexões e, na passada madrugada, num texto lançado pel.o vento lá fora . parece, cada vez mais, constituir-se como óbvio desabafo para uns e evidente engulho para outros.

Empurrados para a condição de simples e periódicos eleitores, parece óbvia a necessidade que os portugueses têm de dar voz ao que lhes vai na alma . quer seja ao balcão do café da aldeia, na conversa na sala de espera do centro de saúde ou através da sofisticada (mas pouco democrática) tecnologia do blog - tanto mais que muitos não se revêem num sistema que só os acarinha e cumula de atenções nas campanhas eleitorais (60% dos abstencionistas em 2002 justificam a atitude com base em causas de natureza puramente político-partidária).

Impedidos (até por deficiente formação e informação) de participar activamente nos problemas do seu quotidiano, ignorados por uma Administração prepotente e despersonalizada, descrentes na eficácia dos serviços públicos, esgotados por combates desiguais, sedentos de uma justiça que tarda, como hão-de os portugueses fazer ouvir a sua voz?

Esgotando a sua participação cívica nos cortes de estrada? Nos bloqueios das linhas férreas? Organizando buzinões? Insultando as forças da ordem? Pagando as portagens com moedas de cêntimo? Ou permitindo aos .opinion makers. do costume a responsabilidade de se arvorarem em voz do povo e consciência crítica do sistema?

Não se sentindo devidamente representados pelos políticos (que sempre podem invocar a legitimidade decorrente do voto popular), porque haveriam os portugueses de se submeter à representação de jornalistas e comentadores?

Fala-se .sem ter conhecimento de causa.? E depois? Que se pretende então?

Que não se critique o seleccionador nacional se não se for jogador de futebol? Que não se conteste o serviço de saúde se não se for médico? Que não se lamente a lentidão da justiça se não se for juiz? Que não se discuta a criminalidade se não se for polícia? Que não se refile contra a inflação se não se for economista? Que não se comente os incêndios se não se for bombeiro?

E a cor do carro? Poderemos discuti-la com o vendedor.... ou apenas se formos pintores?

Este raciocínio algo redutor, parece esquecer que, na sua essência, os blogs são apenas considerandos pessoais em forma pública . e, como tal, sujeitos apenas à vontade do seu autor, ainda que acessíveis a quem os procure mas recatados para quem os ignore.

Não fossem os blogs, e eu não poderia ter lido, n.o-teste-de-Turing que .existe um projecto para vigilância florestal da Universidade do Minho, o Vigilia, que não está a ser utilizado por problemas de legislação no que toca à privacidade das pessoas!..

A citação é de uma notícia de 21 de Julho de 2003, onde se refere que .a aplicação prática do sistema - VIGÍLia - depende da aprovação de legislação pela Assembleia da República, uma vez que as máquinas fotográficas que o integram permitem identificar pessoas."O sistema ainda não está activo porque a comissão de protecção de acesso a dados pessoais não permite a sua operação. Estamos à espera que a Assembleia da República aprove legislação para começarmos a operar", afirmou Silva Costa, presidente do Instituto de Conservação da Natureza (ICN), em declarações à Lusa..

Em Portugal, país onde aparentemente todos falamos sobre tudo mas onde o Estado não actua sobre nada, a fazer fé nas notícias publicadas por aí, constatamos que:

.Cinco pessoas, quatro das quais seguranças da discoteca Kremlin, foram baleadas esta manhã na Avenida 24 de Julho por barrarem a entrada a um grupo de clientes no local, já perto das 08h00 de hoje. O grupo fugiu, depois de ter baleado um porteiro da discoteca duas vezes na cabeça (...) A identificação dos autores dos disparos deve ser facilitada pela existência de câmaras de vigilância na entrada da discoteca."
Publico, 2001-03-17 - 09h19:00

.A Carris apresentou, esta manhã, o novo sistema de video-vigilância dos seus autocarros, que passarão a contar agora com um videogravador e três ou quatro câmaras de vídeo que transmitem as imagens simultaneamente para a Central de Comando de Tráfego da Carris e para o Centro de Comando e Controlo da PSP, permitindo uma actuação mais eficaz da polícia em caso de incidente."
Publico, 2001-06-22 - 16h15:00

.O Parque Natural da Arrábida e a Reserva Natural do Estuário do Sado vão beneficiar de um projecto de televigilância, 24 horas por dia, para ajudar a tarefa dos vigilantes destas áreas protegidas. A direcção das áreas vai apresentar o projecto hoje à tarde e definir a calendarização.
Tirando a exclusividade aos programas de televisão, a direcção do Parque Natural da Arrábida e da Reserva Natural do Estuário do Sado vai poder vigiar, de dia e de noite, tudo o que se passa na sua "casa", através da instalação de câmaras que fazem chegar à central imagens em directo.
.
Publico, 2001-03-12 - 13h18:00

Se, de facto, a Comissão Nacional de Protecção de Dados ainda não se pronunciou sobre a legalidade do sistema VIGÍLia, resta-nos concluir que:

a) Parece ser mais grave o registo de um casal de adolescentes a beijar-se debaixo de um carvalho, do que o de um marido eufórico a entrar na discoteca da moda de mão dada com a cabeleireira da mulher;
b) Apresenta aspectos de constitucionalidade mais duvidosa o registo de um campista norueguês a defecar atrás de um sobreiro, do que o da deslocação de um turista escocês no autocarro 43;
c) Não é atentatório da liberdade dos cidadãos a filmagem de uma soneca no parque natural da Arrábida . mas constitui grave irregularidade a recolha de imagens quando num matagal em Oleiros.

Sobre a incongruência das decisões e a lerdice da Comissão não vale a pena escrever mais . bastando apenas voltar ao artigo inicial para referir que .o aparente desinteresse das autoridades portuguesas por este sistema pode implicar que ele venha a ser aplicado no estrangeiro antes de ser usado em território nacional..

Por muito que seja .odiado, odiado, odiado. não posso calar a minha indignação.

Se outros a subscrevem....só me apraz saber que não estou só!!!

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agosto 23, 2003

Fim de férias

Com o comício do Partido Socialista em Portimão, a classe política assinala o regresso à actividade (ou verborreia fútil).

Para o cidadão comum, a data significa o final de um curto período em que se pôde ver televisão sem que os fácies (aliás de péssima concepção estética!) dos políticos nos invadissem a tranquilidade do lar, com lamúrias monótonas e promessas repetitivas.

Setembro verá, mais uma vez, o renascer da mediocridade... como se já não chegasse o arranque de mais um Big Brother!!!

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agosto 22, 2003

Back to John Hiler

Embora já com um atraso significativo, apraz-me registar o destaque que foi dado, nalguns blogs, ao texto de John Hiler que reproduzi em 15 de Agosto . há rumores no blog do fragmento e no laborioso formigueiro (a cuja colónia, aliás, aproveito para agradecer os elogios, simpáticos mas excessivos, feitos a este humilde blog).

Embora escrito em Maio de 2002, o assunto focado em "Blogosphere: the emerging Media Ecosystem", mantém uma evidente actualidade . e é imensamente reconfortante constatar que os interesses e a interactividade da blogosfera não se esgotam na discussão estéril, na picardia barata ou, como se diz com Mau Feitio! no .pedantismo e pseudo-intelectualismo..

Pode ser que, com o contributo da blogosfera despretensiosa, seja possível contrariar o pessimismo de Marcuse, quando dizia que .the sickness of the individual is ultimately caused by and sustained by the sickness of his civilization."

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agosto 21, 2003

Da insanidade à amizade

"As pessoas não querem ouvir-me fazer comentários de carácter social . e muito menos a Ti. Este é um livro sobre Deus. Não é suposto que Deus tenha opiniões sobre as questões sociais da actualidade.

Sobre a vida real, queres tu dizer?

Estou a referir-me especificamente às questões de carácter político e social. As pessoas esperam que Deus se limite às questões espirituais. E esperam outro tanto de mim.

Haverá questão mais espiritual do que impedir as crianças de se matarem umas às outras? De que mais precisam as pessoas para compreenderem que têm um verdadeiro problema entre mãos?

Sabemos perfeitamente que temos um problema. Não sabemos é como resolvê-lo.

Sabem sim. A simples verdade é que ainda não conseguiram convocar a vontade necessária para o fazer.
Em primeiro lugar, terão de passar mais tempo com os vossos filhos. Hoje em dia as crianças ficam praticamente por sua conta a partir dos onze anos. Terão de participar mais na vida deles, de manter essa proximidade. Conversem com os professores deles. Façam amizade com os amigos deles. Exerçam influência. Os pais devem ser uma presença activa na vida dos filhos, devem acompanhá-los a par e passo.
Em segundo lugar terão de assumir uma posição activa contra a violência e os modelos de violência presentes na vida dos vossos filhos. As imagens .ensinam.. De facto, as imagens ensinam mais rapidamente, e marcam mais profundamente, do que as palavras. É necessário pressionar os responsáveis pela reformulação da vossa história cultural (realizadores de cinema, produtores de televisão, fabricantes de jogos de vídeo e outros produtores de imagens, desde os livros de banda desenhada às colecções de cromos) para que criem uma nova história cultural, guiada por uma nova ética . a ética da .não-violência.. Em terceiro lugar terão de se certificar de que os instrumentos de violência não estão ao alcance dos vossos filhos. Impeçam o fácil acesso a todo o género de armas. Mais importante que tudo, eliminem a violência das vossas vidas. Os pais são os principais modelos dos filhos. Se os primeiros utilizam a violência, os segundos imitá-los-ão.

Quer dizer que não devemos bater nos nossos filhos?

Não conseguem imaginar outra forma de educar aqueles que afirmam amar profundamente? Não conseguem conceber outros métodos de instrução que não envolvam intimidá-los, assustá-los ou magoá-los?
A vossa cultura há muito que recorre à dor física como meio de punir comportamentos indesejáveis, não só nas crianças, como também nos adultos. Chega-se mesmo a matar pessoas para as impedir de matar.
É uma insanidade tentar resolver um problema por meio da energia que o gerou.
É uma insanidade tentar impedir um tipo de comportamento recorrendo à repetição desse mesmo comportamento.
É uma insanidade encorajar, em todos os sectores da vossa sociedade, modelos de comportamento que não desejem que os vossos filhos imitem.
E a maior insanidade de todas é fingir que nada disto está a acontecer e depois perguntar .porque razão os vossos filhos se comportam de um modo tão violento..

Estás a dizer que somos todos loucos?

Estou a definir a insanidade. Cabe-vos a vocês decidirem quem são e o que são. De facto, estão a decidi-lo todos os dias.
Cada um dos vossos actos é um acto de autodefinição.

Estás a usar palavras bastante fortes...

É para isso que os amigos servem. Queres saber como é uma amizade com Deus?
É exactamente assim. Os amigos dizem-te a verdade. Os amigos são francos e directos. Os amigos não te mentem, nem te dizem aquilo que julgam que queres ouvir. Contudo, os amigos não se limitam a dizer-te a verdade, abandonando-te depois para lidares com o problema sozinho.
Os amigos estão sempre disponíveis para ti, oferecendo-te apoio constante, solidariedade e amor incondicional.
É isso que Deus faz. É isso que define este diálogo em processo contínuo.
"

Neale Donald Walsch, Amizade com Deus

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agosto 20, 2003

Décimas de desalento

.O défice orçamental do sub-sector Estado ultrapassou, nos primeiros sete meses de 2003, o valor previsto pelo Governo para o total do ano. Os últimos valores da Direcção-Geral do Orçamento (DGO) revelam que, entre Janeiro e Julho deste ano, o défice do Estado fixou-se em 4869,9 milhões de euros, ao passo que no OE estão previstos 4538,7 milhões de saldo negativo. No exercício orçamental de 2002 . também caracterizado por idênticas dificuldades ., uma situação semelhante só aconteceu em Novembro, passados onze meses de execução, e por um montante inferior (62,1 milhões de euros em 2002, contra 331,2 milhões este ano).., Diário Económico, 19Ago2003

Mas, afinal, onde cortou o Estado?


De nada serve o lamento,
De pouco valem os .ais!.:
O Estado esbanja demais,
e não cumpre o Orçamento!

A fazer fé no que leio,
nas notícias publicadas,
ainda o ano vai a meio,
e as contas já estão erradas!
Um descontrolo tão feio,
Tão avultado em milhões,
Vai aumentar o tormento,
De quem já conta os tostões!
Mas, para um Estado sem tento,
De nada serve o lamento.

Que aconteceu afinal?
Quem explica o que se passa?
Se o Estado se portou mal,
e aumentou a desgraça,
que se assuma como tal,
não se mostre admirado,
esquecendo que gasta a mais!
Para nós, é triste o fado,
porque ao cidadão, coitado,
De pouco valem os .ais!..

Os gastos sobem em flecha,
sem contenção, sem critério,
qual chama a correr na mecha!
Mas que tristeza, que pecha,
é a deste ministério,
das Finanças, de seu nome!
Mas com erros capitais,
não há gasto que se dome,
toda a riqueza se some!
O Estado esbanja demais!

Mas já se sabe quem paga
a factura desta conta,
porque o final desta saga,
é, como sempre, uma afronta
a quem os impostos esmaga!
É prepotente e cruento,
mas uma fraude, este Estado:
a cobrar é desatento,
no gastar é desleixado,
e não cumpre o orçamento!

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agosto 19, 2003

O major e o ministro

No passado dia 11, o jornal .Público. imprimiu uma carta aberta, da autoria de um oficial superior do Exército Português, e endereçada ao Ministro de Estado e da Defesa Nacional.

A crítica é, no mínimo, temerária . dado que parte de um militar no activo e, como tal, limitado ao exercício de declarações públicas .desde que as mesmas não incidam sobre a condução da política de defesa nacional, não ponham em risco a coesão e a disciplina das Forças Armadas nem desrespeitem o dever de isenção política e sindical ou o apartidarismo dos seus elementos. (Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas).

Quanto às afirmações subscritas pelo senhor major, não lhes questiono a validade nem a pertinência . mas lamento-as pela verídica crueza dos factos que retratam

Lamento-as, por evidenciarem uma dolorosa realidade social assente em .ideias estereotipadas e pouco abonatórias sobre o nível de inteligência e o perfil psicológico que a maioria dos cidadãos dedica a quem escolheu esta forma de vida..

Lamento-as, pela confrangedora confissão de lealdade à hierarquia, ainda que .levando terceiros a interpretar a submissão a estes valores como aceitação acrítica, genética e patética, do princípio da autoridade."

Lamento-as, pelo reconhecimento implícito de que o fulgor das estrelas pode ofuscar o imperativo de .manter o respeito por si próprios e ganhar o dos outros..

Lamento-as, pela constatação fria e inexorável de que .é já público que foram ultrapassados os limiares razoáveis do comportamento que se pode tolerar a um Ministro da Defesa..

Lamento-as, finalmente, pelo que representam em termos da degradação de uma instituição que, ainda que .esclerosada., merecerá sempre muito mais do que um chefe que .não reúne as condições mínimas necessárias para liderar uma instituição que se obriga a respeitar princípios que o próprio desrespeita..

Eventualmente, o actual ministro de Estado e da Defesa Nacional, já esqueceu a sua recente afirmação de que .a crise na autoridade instala a dúvida na obediência. . pelo que, e por maioria de razão, já não terá memória do que escreveu em Outubro de 1990, na revista K (e que cito, com a devida vénia, do post de 12 de Agosto de Contra a Corrente): .Devo a Vasco Gonçalves o facto de ser uma criatura irremediavelmente de direita. Olhei para ele e fiquei contra-revolucionário. Daí para a frente, passei a desconfiar dos militares e a detestar o comunismo. Quanto aos militares, façam lá o que fizerem as fardas oficiais, quero-os longe."

Treze anos atrás, o autor deste texto não previa, certamente, chegar a responsável pela pasta que agora detém . tanto mais que, mais à frente, afirmava peremptório: .Devo a Sá Carneiro duas coisas: ser democrata e não gostar de política..

Diz bem, o senhor major, quando refere que .o Ministro não tem de ser perfeito. . sobretudo este, agora político e rodeado de militares, mas detentor de uma autoridade .simplesmente de natureza formal, a que corresponde um respeito de etiqueta, também meramente formal, dirigido à figura do Ministro da Defesa mas não de quem desempenha o cargo."

Entende-se a indignação do militar, que grita bem alto o seu .desprezo visceral pelo ministro da tutela. . mas não se aceita a ofensa do oficial que faz, às Forças Armadas que jurou servir, a injúria de as considerar passíveis de ser tuteladas por alguém que .nem precisa de ser um homem sério a tempo inteiro..

Doutro modo, de que serviria a carta que escreveu?

Publicado por blog-notas às 03:26 AM | Comentários (2) | TrackBack

agosto 15, 2003

Like any ecosystem

.Like any ecosystem, the Blogosphere demonstrates all the classic ecological patterns: predators and prey, evolution and emergence, natural selection and adaptation. I've often thought that anthropologists were best equipped to deconstruct the emerging blogging sub-culture, but now I'm convinced I got it wrong: the greater mysteries of the Blogosphere will be unlocked instead by evolutionary biologists..

.Like any ecosystem, the Blogosphere has a life of its own, one that's more than the sum of its weblogs. You can't understand a jungle by studying a single jaguar, and in the same way you can't understand the Blogosphere by studying a single weblog. Surfing the Blogosphere you can see evolutionary forces play out in real time, as weblogs vie for niche status, establish communities of like-minded sites, and jostle for links to their site..

John Hiler, Blogosphere: the emerging Media Ecosystem

O texto original, donde foram retirados estes dois parágrafos, é de Maio de 2002 e aborda a relação complexa entre os bloggers e os jornalistas . mas, continua tão actual que não resisti a copiá-lo...

Quem sabe não aproveitará a alguém?

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agosto 14, 2003

A propósito de um comentário

Num fenómeno que não está circunscrito à blogosfera nacional, os cidadãos denominados .de esquerda. têm, com um misto de preocupação e desalento, manifestado o seu desassossego pela existência de blogs rotulados .de direita..

A importância que atribuo ao assunto (equivalente à de saber se os vizinhos do 1º A preferem iscas à portuguesa ou pataniscas de bacalhau) não justificaria qualquer texto, não fosse a existência de um comentário que, a propósito de .Um Estado obsceno., foi feito por .Eu. . e que me levou a uma breve pesquisa sobre a .obsessão dos rótulos..

O apanhado, que transcrevo de seguida, parece-me suficientemente elucidativo:

.Um blog interessante e, coisa rara, de esquerda. Aleluia, aleluia, aleluia. Na blogosfera, por muitos "canhotos" que surjam, seremos sempre poucos.., BLOG DE ESQUERDA, 4Jun2003

.Blog de Esquerda. está cada vez mais ocupado pelos itálicos de serviço, que só se lêem com um enorme bocejo e imensa boa vontade. Deixou de reagir, logo agora que a blogosfera está, mais que nunca, tomada de assalto pela direita bem pensante., SATYRICON, 30Jun2003

.eu sou parte da "blogosfera", mas recuso-me terminantemente a ser definido por chavões como "de direita" ou "de esquerda". Esse tipo de generalizações cegas é que transformaram a política nacional na palhaçada que é .., MY LIFE (IF I HAD ONE), 10Jun2003

.aos autistas do blog-de-esquerda, que desconhecem as boas práticas, não hiperligam ninguém, têm da blogosfera uma visão umbiguista, redutora e míope., Comentário de pTd a texto de ENE COISAS, 16Jun2003

.Prende-se isto com a saloia divisão da blogosfera entre esquerda e direita, fiéis e infiéis, bons e maus, sendo uns ou outros bons ou maus, inteligentes ou boçais.., Cerco do Porto, 17Jul2003

.essa coisa da "direita", "esquerda", "não-direita" e "não-esquerda" não passa de um resquício a que se agarram, desesperados, os excluídos da nova ordem mundial: a anárquica internet.., HUUUUU.... O VENTO LÁ FORA, 10Jun2003

A constatação parece óbvia; enquanto muitos, lúcida e inteligentemente, rejeitam liminarmente a lógica destra vs sinistra (curiosa palavra esta!), os blogs denominados .de esquerda. mostram-se mais interessados em carpir mágoas e destilar invejas do que em entender que não são, como diz Richard Poe,.excluídos da blogosfera por um campo de forças invísivel mas, tão só, porque a debilidade das suas vozes e a tacanhez dos seus argumentos se afogam no clamor da multidão..

É fundamentalmente por isto, meu caro .Eu., que o seu comentário, além de mesquinho... é injusto!

.Um Estado obsceno. é, apenas, uma apreciação genérica . e não um libelo acusatório contra o actual Governo que, sendo embora culpado dos seus próprios erros, não pode ser responsabilizado pela incúria criminosa e pelo desleixo absurdo de sucessivos Gabinetes.

Além do mais, estimado .Eu., no panorama contemporâneo nacional, a obscenidade do Estado é como, no dizer de muitos, o dinheiro: não tem cor!!!

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agosto 11, 2003

E em Portugal?

O canal Euronews acaba de passar, a propósito da vaga de calor que também assola Paris, imagens de um qualquer serviço de um qualquer hospital onde, em cima do balcão de atendimento, se encontram muitas garrafas de água e copos de plástico com a improvisada legenda "servez-vous".

E em Portugal?

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agosto 09, 2003

Um Estado obsceno

A vaga de incêndios que assolou o País durante os últimos dias, ceifando vidas, arrasando sonhos e destruindo haveres, encontrou, mais uma vez, nas campanhas de solidariedade já lançadas (e independentemente de quaisquer considerações que, sobre a respectiva natureza e fins, possam ser feitas), a resposta da denominada .sociedade civil. ao imobilismo grosseiro da actuação do Estado.

Da tragédia das chamas, não restam apenas as cinzas das árvores e os escombros fumegantes, testemunhos negros de um património consumido pela impetuosidade ávida das labaredas; na gigantesca braseira dos pinheiros, eucaliptos e sobreiros foi também imolada a credibilidade do Estado, incapaz de cumprir cabalmente as tarefas fundamentais que lhe são cometidas pela Constituição.

Um Estado incompetente, injusto, desleixado, sôfrego de impostos mas avaro na generosidade, obstinado na contenção mas incauto na selecção, lerdo na avaliação, frouxo na decisão, demorado na actuação, que despreza os cidadãos que devia proteger, que não assume as suas limitações, que foge às suas responsabilidades, que se escuda atrás da inclemência das intempéries com a mesma desfaçatez com que avoca a protecção divina.

Um Estado que não é solidário, que sangra os cidadãos cumpridores, que esbanja na ostentação barata o que sonega nos direitos elementares, que fraqueja nas adversidades, que não tem arrojo nem audácia, que mendiga em Bruxelas mas exige em Lisboa, que expia com esmolas as culpas que não assume, que é prepotente com os fracos e servil com os poderosos, que premeia a submissão e castiga a discordância

Um Estado que pactua com a incompetência e protege a corrupção, que perpetua o sistema, que paga a traidores, que não se respeita nem se dá ao respeito, que é tacanho e obtuso, que faz da tibieza o seu hino e da cedência a sua bandeira, que não tem estratégia nem projecto, que não se revê no passado, não se afirma no presente nem se prepara para o futuro.

Portugal, definitivamente, merecia melhor!


P.S. - Tinha prometido a mim mesmo que (pelo menos tão depressa) não voltaria a desabafar sobre este assunto - mas, a desolação que hoje verifiquei in loco fez-me quebrar a promessa...

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agosto 06, 2003

Carta aberta ao Zé Manel

Meu caro Zé:

Desculpará, por certo, que me dirija de modo tão informal a uma pessoa com o seu estatuto mas, afinal, escrever num blog não é mais do que um modo tecnologicamente evoluído de escrever nas folhas de um diário pessoal . e, como tal, constituindo-se apenas como registo e/ou desabafo.

E, meu caro amigo, é apenas de um desabafo que tratam estas linhas - já que não lhe vou pedir .um tacho., nem que subscreva a minha proposta de filiação no Partido, nem sequer que me empreste dinheiro para liquidar o PEC.

Embora correndo o risco de parecer presunçoso, limito-me a tecer algumas considerações sobre a tragédia que tem assolado o País nestes últimos dias.

Já se sabe que, sendo Portugal um país mediterrâneo, é do ponto de vista climático caracterizado por Verões quentes e secos, antecedidos de Invernos frios e chuvosos.

Sabemos, de igual modo, que a conjugação deste cenário climático com a existência de áreas de topografia acidentada cobertas por vegetação pirofítica torna-o bastante susceptível à ocorrência de fogos florestais, tendência essa que tem vindo a ser reforçada por mudanças demográficas e socio-económicas prevalecentes nas zonas rurais, durante as últimas décadas.

É também por isso que os incêndios florestais são, na época do Verão, uma calamidade que destrói grande parte da floresta de Portugal, tendo por causas fundamentais o descuido (30%), o crime (25%), naturais (10%) e desconhecidas (35%).

E, sendo estas as causas da calamidade que contribui para que a capacidade produtiva da fileira florestal diminua consideravelmente todos os anos, parece necessário intervir fortemente em campanhas de sensibilização, na vertente da prevenção e na detecção.

A inércia, o desleixo e a anarquia florestal, tornam essencial esta prevenção bem como o desenvolvimento dos meios e infra - estruturas, num momento em que a .Coisa Pública. exige e reclama economia e contenção.

Aliás, aos prejuízos verificados em material lenhoso, há que associar os custos de combate e de posterior reflorestação, para além dos custos indirectos de difícil contabilização, como sejam as perdas em biodiversidade e de solo por erosão, os acréscimos de CO2 na atmosfera e consequentes perturbações ao nível da camada de ozono, para além dos prejuízos de ordem sócio-económica.

Face a este cenário, importa inverter esta tendência através de uma acção concertada, ao nível da prevenção, nas vertentes de uma sensibilização dirigida aos principais agentes causais e de uma silvicultura preventiva adequada, e ao nível do combate, através de uma melhor organização da coordenação dos meios e da sua capacidade de antecipação e rapidez de actuação

Por isso, e sabendo-se que não serão fáceis os próximos tempos, face à situação a que chegámos e aos resultados verificados nas últimas épocas, é necessário que, no que se refere à prevenção, seja exigida uma outra atitude, inconformista e de inovação.

Porque, se queremos um futuro com melhores dias e dias mais seguros, o sucesso passa por ir em frente com objectivos bem definidos e tendo os instrumentos de acção que permitam atingir esses fins, fazer escolhas e acompanhar o desenrolar da concretização, evitando actuações sem critério e sem avaliação prévia das consequências.

Nada é mais pernicioso do que não ter ideias e conceitos acerca do que se quer ou, tendo-as, fazer o contrário do que faz sentido.

É claro que um Governo não faz só as coisas certas; tem de as fazer no tempo certo e ao ritmo mais ajustado, interpretando o sentido da evolução das coisas e introduzindo as mudanças que critérios de eficácia e racionalização aconselham.

Mas, uma nova atitude política é igualmente indispensável.

Que traga clareza no discurso, verdade na acção, convicção e coragem na decisão, espírito de combate e não sentimento de resignação, capacidade para mobilizar energias e elevar a auto-estima nacional, vontade de inovar, de empreender e de reformar.

É fundamental que os cidadãos tenham confiança nas Instituições e não se vejam frequentemente confrontados com a impotência do Estado na resolução dos graves problemas que nos afectam.

Aliás, só com Instituições bem organizadas, competentes e prestigiadas, será mais fácil garantir a intervenção mobilizada de todos, quando for preciso apelar para a prática efectiva dos valores da solidariedade e da entreajuda perante a urgência de socorrer quem carece de protecção.

É este carácter de urgência no socorro que não é compatível com a existência de organismos convergindo na mesma área de serviço público, sabendo-se que isso origina, tantas vezes, situações de sobreposição e de duplicação e constitui, habitualmente, fonte de descoordenação, de falta de eficácia e de desperdício de meios . e que contribuem, no terreno, para a morosidade nas respostas a situações de emergência concretas, para as quais os cidadãos e o interesse público exigem medidas de socorro imediatas ou atempadas

Julgo até que em situações com a gravidade daquelas que atingiram o País nos últimos dias, se tornava indispensável assegurar:
- uma eficaz coordenação dos meios e estruturas postos à disposição da Protecção Civil;
- a programação, com a necessária antecedência, de um conjunto de medidas de prevenção dos fogos florestais;
- o apetrechamento dos bombeiros com equipamentos adequados e a garantia da sua articulação com as Forças Armadas, com o recurso aos meios de combate aos fogos florestais.

Meu caro Zé, embora eu seja apenas um humilde e anónimo cidadão, sei que não deixará de fazer a justiça de reconhecer que há muito de verdade naquilo que atrás escrevi . sobretudo tendo em atenção que, a partir do quarto parágrafo inclusive, me limitei a transcrever trechos de documentos oficiais e de discursos de membros do seu Gabinete, recolhidos no site do Governo.

Não estivesse ainda .em construção. o site do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil e, quiçá eu pudesse, aqui e agora, colmatar o vexame da inépcia evidenciada pelo representante deste serviço no debate .Especial Informação: Maré de Chamas. (RTP-1, 5 de Agosto) e informá-lo, a si e a ele, do número exacto de bombeiros que aquele serviço superintende.

Um abraço de amizade,


Referências:
Programa do governo
Discurso do Ministro da Administração Interna, 2 Abril 2003
Discursos do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Interna, 29 Junho 2002, 29 Setembro 2002 e 31 Janeiro 2003
Incêndios Florestais.2002, Maio de 2003

Publicado por blog-notas às 04:14 AM | Comentários (2) | TrackBack

agosto 05, 2003

Uma declaração programática

"No âmbito da Protecção Civil e Bombeiros, o Governo considera necessário assegurar:
- uma eficaz coordenação dos meios e estruturas postos à disposição da Protecção Civil;
- a programação, com a necessária antecedência, de um conjunto de medidas de prevenção dos fogos florestais;
- o apetrechamento dos bombeiros com equipamentos adequados e a garantia da sua articulação com as Forças Armadas, com o recurso aos meios de combate aos fogos florestais."
Programa do XV Governo Constitucional

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agosto 04, 2003

Meu desgraçado Portugal...

Era para escrever este pequeno apontamento, com uma ponta de ironia, recorrendo para o efeito ao confronto entre a vanidade palavrosa dos discursos dos responsáveis políticos com a crueza fria dos números dos relatórios oficiais.

Mas, perante a brutalidade das imagens que a televisão atira para o conforto da minha casa, em directo de Madeirã, onde os bombeiros não conseguem sequer abastecer-se de água, tornam-se inúteis e desnecessários quaisquer comentários.

Portugal está a arder e dez pessoas já pagaram com a vida a incúria e a incompetência criminosa que, qual manto de cinza, nos cobre de vergonha.

Daqui, deste lugar anónimo perdido na blogosfera, só me resta deixar o registo da tristeza que me invade a alma, e curvar-me respeitosamente perante a memória das vítimas desta desgraça natural - mas agravada pela cupidez e pela incúria dos homens.

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agosto 02, 2003

A actualidade do Padre António Vieira

"Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. . Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? . Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres."

"Aquele que tem obrigação de impedir que se não furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes, que por sua culpa deixarem crescer os ladrões, são obrigados à restituição, porquanto as rendas, com que os povos os servem e assistem, são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham em justiça. . É tão natural e tão clara esta teologia, que até Agamenão, rei gentio, a conheceu, quando disse: Qui non vetat peccare, cum possit, jubet."(Quem, podendo, não impede o pecado, ordena-o).

Padre António Vieira, Sermão do Bom Ladrão

Que tristeza constatar que, de 1665 até 2003, apenas os vocábulos evoluíram...!

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agosto 01, 2003

Uma perspectiva diferente

É intensa a canícula neste primeiro dia de Agosto de 2003, a fazer subir o mercúrio dos termómetros para valores pouco habituais (às 21H00, segundo informação do Instituto de Meteorologia, a temperatura em Lisboa ainda era de 34,6 º).

Durante o dia, só ouvi conversas oscilando entre os lamentos de desespero .como é que se pode trabalhar com este calor?" e as observações de inveja .os que estão de férias é que têm sorte!".

Como sou um citadino, cultura média, com acesso à internet, frequentador de ambientes com ar condicionado e senhor de um seguro de saúde . manifestei a minha concordância, e sublinhei o facto regulando o botão do ar condicionado para uma maior potência e estiraçando as pernas, em prazenteira preguiça.

Enquanto isso, cidadãos como eu lutavam contra as chamas que devoram árvores e haveres, desesperavam na fila do Centro de Saúde ou na urgência do hospital, trabalhavam a terra sob um Sol abrasador...

Que dirão eles de mim?

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