março 19, 2004

A noção das proporções

Houve outros “acidentes de percurso”, como lhes chama: em Março (...) a polícia prendeu sessenta activistas sindicais (...) quando estes exigiam, à porta da sua residência oficial, a concretização de um pedido de audiência consigo (...); dois dias depois, cinquenta sindicalistas (...) foram igualmente detidos no mesmo local; e, em Outubro, a mesma PSP deteve (...) vinte e sete dirigentes sindicais e trabalhadores que lhe queriam entregar um documento sobre salários em atraso.
É lamentavelmente verdade. Mas as coisas têm a sua lógica e a sua explicação. Fui alvo de demasiadas provocações. Verifiquei que havia uma equipa de cerca de 200 manifestantes – sempre os mesmos – que andava de um lado para o outro, com bandeiras pretas, para me contestar e insultar. Onde quer que eu fosse eles apareciam. Eram profissionais. Apercebi-me disso porque um dia fui a Coimbra e, quando cheguei, reconheci as bandeiras pretas, as mesmas caras, as mesmas mulheres a chorarem, a falarem-me de fome e, naturalmente, homens também, a injuriarem-me! Passei muito perto deles, aí a uma distância de um metro do local onde se concentravam, a vociferar. Ao lado, estava um polícia, muito aprumado na sua farda, impassível. Interroguei-o:”Senhor guarda, que está aqui a fazer? Não ouve estes insultos?” O polícia ficou atrapalhado, mas agarrou no homem cujos insultos eram mais vernáculos e audíveis e prendeu-o. (...) Esta história não justifica as prisões, mas, de algum modo, explica-as.”

Desde quando é que (...) se opunha ao direito de as pessoas se manifestarem e livremente publicarem as suas críticas?
Claro que podiam manifestar-se e fazê-lo à porta de S. Bento, desde que a manifestação se realizasse nos termos da lei. O que não podiam era bloquear a porta da residência oficial, nem insultar os ministros que entravam e saíam.”

A solução era, entretanto, mandar prender sindicalistas? Não se incomodou com o facto?
Não, por mais estranho que lhe pareça. Nessa altura, não me incomodou nada. Antes pelo contrário. Já lhe disse várias vezes que sou uma pessoa contemporizadora e dialogante. Mas, quando tentam encostar-me à parede – era o caso -, não me deixo facilmente vergar e luto.”

Mandando prender?
Não insista nem especule. Fiz aquilo que a legalidade democrática me permitia fazer, nem mais nem menos. Essas pessoas – os manifestantes presos, como diz – foram chamadas à esquadra, identificadas, presentes a um juiz, em alguns casos, e, logo a seguir, saíram em liberdade. O que não aceitei foi ser permissivo. Nem timorato. Assumi as minhas responsabilidades e continuei em frente, como devia”

Estes trechos (que, contrariamente ao que pode parecer, não pertencem ao volume de memórias recentemente lançado pelo Prof. Cavaco Silva) foram retirados do volume “Democracia”, da autoria de Maria João Avilez, e que teve por base as suas entrevistas com o ex-Primeiro-Ministro e ex-Presidente da República, Dr. Mário Soares.

Exactamente a mesmíssima pessoa que, durante a apresentação do novo livro do Dr. Fernando Rosas, afirmava que é necessário “negociar” com os terroristas, e que “não se pode pensar que se combate o terrorismo só pelos métodos militares e à bruta; tem que se ter em conta o que é que se passa do outro lado, tem que se perceber o que é que é o outro lado, o que é que é aquilo, porque é que eles se mobilizam.”

Tiveram azar os activistas sindicais quando, em 1984, com bandeiras negras e impropérios, tentaram “encostar à parede” o então Primeiro-Ministro, Dr. Mário Soares.

Tivessem, em vez disso, optado pelo TNT ou pelo Semtex e, em lugar de atirados para o desconforto dos calabouços policiais teriam sido obsequiados com o usufruto do veludo dos cadeirões de S. Bento.

Porque, quando se trata de assassinos,”tem que se ter em conta o que é que se passa do outro lado” – enquanto que, quando se trata de sindicalistas, não se pode ser “permissivo nem timorato”.

Porque, quando se trata de criminosos, “tem que se perceber o que é que é o outro lado” – enquanto que, quando se trata de activistas, não se pode deixar de aplicar o que a “legalidade democrática” permite.

Porque, quando se trata de terroristas há que saber “o que é que é aquilo, porque é que eles se mobilizam” - enquanto que, quando se trata de manifestantes, basta mandar um polícia deter aqueles “cujos insultos sejam mais vernáculos e audíveis”.

É óbvio que estou a ser injusto.

Afinal, o terrorismo não se combate “à bruta”.

Porque, segundo o Dr. Mário Soares, esse método só deve ser utilizado contra os “profissionais”: aqueles que “onde quer que eu fosse apareciam.”

Com efeito, há que ter noção das proporções...

N. do A. – O regresso a este tema deve-se apenas à azia provocada pelas declarações do ex-Presidente da República não podendo, por isso, ser considerado como uma forma de “bater no ceguinho” – não só porque o Dr. Mário Soares “vê melhor a dormir do que eu acordado” mas, sobretudo, porque não quero correr o risco de que alguém me diga “cresça e apareça”.

Publicado por blog-notas em março 19, 2004 11:59 PM | TrackBack
Comentários

Dois pesos...

Afixado por: Rui em março 20, 2004 09:41 PM
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