novembro 28, 2003

O apagão

Tem-se falado e escrito muito sobre a necessidade do País dispor de uma “Oposição forte” – esquecendo que, mais do que isso, o que Portugal necessita é de um Governo capaz.

Contudo, e parafraseando o dito popular, “nem temos Sol na eira... nem chuva no nabal”!

Vive-se, aliás, a circunstância, peculiar e confrangedora, de ter um Governo e uma Oposição que vivem como irmãos siameses: se aquele é mau e hesitante esta é péssima e titubeante.

Incapaz de arrojo na estratégia e ambição nos projectos, o Governo comporta-se como o mais plácido e lânguido dos caracóis – e só põe os cornos de fora para apreciar o Sol e apregoar sucessos.

Não se regateia ao Governo o direito legítimo de anunciar êxitos e vitórias – mas exige-se-lhe que assuma, corajosa e inequivocamente, os erros e as derrotas.

Um Governo que ignora, ostensivamente, as queixas do País que dirige não é, apenas, um Governo mau – é, sobretudo, um Governo insolente.

Um Governo que tem medo de declarar princípios e receio de enfrentar desafios não é, apenas, um Governo mau – é, sobretudo, um Governo frouxo.

Um Governo que apregoa a temperança e permite o esbanjamento não é, apenas, um Governo mau – é, sobretudo, um Governo embusteiro.

Um Governo que não presta contas dos seus actos não é, apenas, um Governo mau – é, sobretudo, um Governo cobarde.

Porque o exercício do Governo é, antes do mais, uma prática de serviço à comunidade, aos Governantes não se exige apenas que dêem o exemplo – exige-se que tenham estatura moral.

A lealdade para com os cidadãos é, por isso mesmo, um imperativo de quem se arroga o direito de decidir em nome destes.

As denúncias dos gravíssimos problemas na saúde, as preocupações expressas por elementos da PSP quanto ao Euro-2004, a contestação generalizada dos estudantes do Ensino Superior Público, as dúvidas suscitadas pela Ordem dos Médicos, as questões levantadas com a preparação da missão da GNR no Iraque, as denúncias expressas pelo ex-Presidente do SNBPC, as opções políticas do défice nacional e estrangeiro, etc, são questões de importância nacional – e as questões de importância nacional explicam-se aos cidadãos, com clareza e frontalidade, em horário nobre, e em linguagem acessível.

Os mínimos de decência moral exigíveis a um qualquer cidadão devem ser, igualmente, cumpridos pelos Governantes – que não podem ignorar as críticas e eximir-se às explicações nem procurar, nas soluções demissórias, a saída fácil para a escusa de responsabilidades.

Perante o clima de crise generalizada que se vive no nosso País, os portugueses não podem continuar a procurar, nos analistas e nos comentários, as explicações básicas que o Governo, por inépcia, hipocrisia ou receio, persiste em negar-lhes.

Anunciado, pomposamente, como sendo "de combate", deste Governo nem sequer se pode dizer que “perdeu a chama” - quando muito, que sofre da “síndrome da cegonha”.

Foi vítima de um imenso “apagão”.

Publicado por blog-notas em novembro 28, 2003 11:58 PM | TrackBack
Comentários

Mais um post de grande nível. Como de costume, aliás. Se a blogosfera fosse medida do país este era muito mais interessante ler jornais.

Afixado por: Irreflexões em dezembro 2, 2003 07:27 PM

Eu diria mesmo que estamos entregues a um país de cegonhas...

Afixado por: Fred em novembro 29, 2003 03:33 PM

Mais uma bela alegoria.

Afixado por: Rui em novembro 29, 2003 12:14 AM
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