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novembro 11, 2004

Carta aberta (e angustiada) ao Senhor Ministro da Saúde

Senhor Ministro:

Como membro do XVI Governo Constitucional e primeiro responsável pelo Ministério da Saúde, Vossa Excelência não desconhece, e certamente subscreve, as afirmações de princípio que constituem o Programa do Governo a que pertence, nomeadamente a garantia de que “a saúde é um bem e um direito de todos os cidadãos” e que, como tal, visa fundamentalmente “garantir às pessoas um atendimento de qualidade, em tempo útil, com eficácia e com humanidade, através de um Sistema de Saúde centrado no cidadão e orientado para a prestação de cuidados de saúde a quem precisa e não para a satisfação das necessidades internas do próprio sistema.”

Ao endereçar esta angustiante missiva ao decisor político não posso esquecer que, por detrás deste, se encontra igualmente uma pessoa - razão pela qual, podendo aceitar que a sua leitura não surpreenda o ministro, não acredito que o seu teor não envergonhe o homem.

A minha mãe é uma senhora com graves problemas de saúde e a avançada idade de 85 anos.

Ontem, dia 10 de Novembro, cerca das 19H45, sofreu o que me pareceu ser um Acidente Vascular Cerebral quando, amparada por mim, se dirigia à casa de banho.

Depois de a recolocar na cama, liguei – cerca das 19H50 - para o Número Nacional de Emergência (112) a solicitar que a mesma fosse assistida e transportada para o Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa – não só porque o respectivo médico assistente presta lá serviço, mas também por ser conhecedor de que, no hospital da minha área de residência (Hospital Dr. Fernando da Fonseca, vulgo Amadora-Sintra), decorria uma greve de médicos.

Transmitidas as indicações clínicas relevantes, fui informado que os serviços do Instituto Nacional de Emergência Médica não poderiam fazer o transporte da enferma para aquele hospital pelo que, deveria manter a doente deitada de lado e contactar os Bombeiros de Queluz.

O que, naturalmente, fiz cerca das 19H55, tendo a respectiva ambulância chegado à minha residência cerca das 20H15.

Perante a situação e a necessidade imperiosa de uma rápida actuação, a tripulação da ambulância demoveu-me da minha intenção inicial, lembrando-me que os cerca de 10 minutos de diferença entre a deslocação até ao Hospital Amadora-Sintra e o transporte até ao Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa poderiam ser decisivos no tratamento do AVC.

Acedi, obviamente, à preocupação dos bombeiros – e, pelas 20H42, foi registada a entrada de minha mãe no serviço de urgência do Hospital Dr. Fernando da Fonseca.

Na triagem, lá expliquei à enfermeira que a doente teria sofrido um AVC e que, para além de duas situações similares anos atrás, sofria igualmente de grave insuficiência cardíaca, com fibrilhação auricular e padrão de bloqueio completo do ramo esquerdo, tinha estado há cerca de 15 dias atrás hospitalizada com uma infecção pulmonar e estava com uma prescrição médica de oxigenoterapia.

Sujeitos a uma desagradável e violenta corrente de ar, aguardámos pela conclusão da triagem e ganhámos, ela e eu, uma etiqueta autocolante com uma bolinha cor de laranja – que garantia, segundo fui informado, um atendimento prioritário.

Terminada esta fase, acompanhei a maca até uma sala onde, com etiquetas e bolinhas similares, já se encontravam cerca de dez outros doentes e respectivos acompanhantes aguardando que, uma voz com fortíssimo sotaque estrangeiro chamasse, pelo sistema de som, os doentes.

Constatei então que, no Hospital Dr. Fernando da Fonseca, “a gestão atempada e humanizada dos Serviços de Urgência” passava, igualmente, pela utilização dos acompanhantes para procederem ao transporte das macas até ás salas de observação.

Cerca de 30 minutos após o registo da minha mãe, voltei à triagem para perguntar se, perante o respectivo quadro clínico, a espera se ia prolongar, sobretudo porque a mesma apresentava já algumas dificuldades respiratórias – obtendo, como resposta, que “a doente tem atendimento prioritário mas não é possível dizer quando vai ser observada”.

Confirmei, angustiado, a preocupação governamental de “aumentar a eficácia dos sistemas de triagem nos Serviços de Urgência Hospitalares, que permitam o tratamento prioritário das situações mais urgentes”.

Voltei para junto da minha mãe e tentei – em vão, é certo, porque se mantinha a agitação e o estado de inconsciência – acalmá-la.

Perto das 21H45 (isto é, uma hora após a entrada) interpelei uma auxiliar e pedi-lhe que me dissesse de que forma é que poderia contactar um médico, de modo a obter autorização para, perante o agravar da situação e a demora no atendimento, a transportar para o Hospital da Cruz Vermelha.

Após muita insistência consegui contactar com uma médica a quem, depois de voltar a explicar as indicações transmitidas na triagem, manifestei o meu interesse em, rapidamente, remover a doente para outro hospital.

A mãe foi então chamada e vista por esta médica – que se prontificou a prescrever análises mas a quem voltei, então, a manifestar a vontade de a transportar para outro hospital.

Recebi então a informação de que, sendo essa a minha vontade, o poderia fazer quando quisesse.

Cerca das 22H05 entrei em contacto com os Bombeiros Voluntários da Amadora, e solicitei uma ambulância para fazer o transporte da doente, com destino ao Hospital da CVP.

Enquanto aguardava pela chegada da viatura, voltei a contactar a médica (e, posteriormente, uma enfermeira), para saber se havia alguma formalidade a cumprir para poder transportar a minha mãe.

Não”, foi a resposta de ambas, “pode levá-la quando quiser”.

Estranhei o procedimento mas, obviamente, acatei-o.

Pelas 22H30, a minha mãe e eu, ambos ostentando ainda as etiquetas de registo do hospital com as prioritárias “bolinhas cor de laranja” – e perante a perplexidade da tripulação dos Bombeiros da Amadora - deixámos, sem qualquer controlo e/ou verificação, o serviço de urgência do hospital Dr. Fernando da Fonseca rumo a Benfica e ao Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa onde a mãe deu entrada cerca das 22H45, ou seja, três horas depois do AVC, e onde ainda se encontra.

Senhor Ministro:

São, neste momento, cerca de 4H25 de dia 11 de Novembro de 2004.

Há cerca de 15 minutos atrás, liguei para o Hospital Dr. Fernando da Fonseca e pedi para ser informado sobre o estado da doente, identificando-a pelo nome, obviamente.

Obtive, como resposta, que a doente terá “tido alta, cerca da 1H00 da manhã, mas contra a opinião médica pelo que, certamente, terá sido assinada um termo de responsabilidade”.

Não me surpreendeu a informação.

Afinal, o sistema que Vossa Excelência gere, “continuará a ter um papel na gestão das estruturas da saúde” – e, infelizmente, é sobejamente conhecida a forma responsável, escrupulosa e respeitadora com que o Estado trata os cidadãos, nesta como em muitas outras áreas.

Não sei, Senhor Ministro, se Vossa Excelência terá, algum dia, oportunidade e tempo para ler esta carta, ditada mais pela dor de um filho do que pela mágoa de um cidadão – nem se, fazendo-o, tal facto possa contribuir, ainda que de modo quase insignificante, para manter viva a chama da solidariedade humana.

Pela inevitável lei da vida, à minha mãe pouco mais tempo restará – mas, para muitas outras mães, era importante que elas soubessem e que os filhos acreditassem que, de facto, “o importante não é quem faz a saúde; o importante é a quem ela se destina.”

Como homem, também Vossa Excelência tem (ou, pelo menos, teve) igualmente uma mãe; por isso mesmo, estou certo que não fará, a um filho com o coração em ferida, a injustiça de não compreender as razões deste lamento - e que, infelizmente, ainda é comum a tantos dos nossos concidadãos.

Massamá, 11 de Novembro de 2004,


Mário Alexandre Maciel

Publicado por blog-notas às novembro 11, 2004 05:06 AM

Comentários

Exmo. Sr.

Espero que contribua para a melhoria do SNS, através do seu testemunho, infelizmente também do seu desconsolo e a custas da saúde de mais uma pessoa, neste caso sua mãe, perante concidadãos um tanto ou quanto confusos quanto ao valor que deve ter a sua saúde e a dos seus, perante as alarvidades e o desinvestimento sucessivos que se têm verificado no país.

Perante o sistema de triagem de Manchester (o que é usado no estabelecimento em causa), a sua mãe deveria ter sido atendida num máximo de 5 minutos desde o momento que foi triada. Isso foi o que o teste que aqueles senhores inventaram demonstrou. Questione porque demorou tanto tempo a ser atendida. Havia falta de médicos? Questione também se existe alguma aferição a essa triagem, ou se ninguém está a estudar o método, à boa maneira portuguesa, e porquê.
Questione ainda porque demorou tanto tempo a fazer/saber o resultado da TAC e das análises (a "urgência laranja" não se esgota no atendimento, tem consequência depois na prioridade perante todos os demais actos diagnósticos). Não havia técnicos de radiologia? de laboratório? Neuro-radiologistas para relatarem atempadamente a TAC?

Não existem enfermeiros suficientes? Há tantos no desemprego, ou com emprego precário à espera de vínculo... e não me estou a referir a estrangeiros. Idem aspas para médicos, ao contrário do que se procura "vender" à população. Já para não falar das profissões indiferenciadas, que obviamente só estão carenciadas por opção política, que é uma e só uma: poupar!

Poupar com a saúde. Desta vez, poupámos todos um pouco às custas da saúde da sua mãe. Amanhã será às custas de um familiar ou amigo nosso.

É bom que comecemos a pensar seriamente se é isso que queremos todos no futuro, porque é mesmo isso que vamos ter: a sorte da sua mãe, ou seja, a falta dela.

Publicado por: Alfredo Vieira em dezembro 20, 2004 02:36 AM

Esse é infelizmente, o estado a que os cuidados de saúde chegaram neste Portugal.
Não só no Amadora Sintra, para mal dos pacientes.
E o amigo não se admire, se um dia destes, lhe enviarem a continha, do Amadora Sintra para regularização.

Publicado por: jgonçalves em dezembro 19, 2004 06:34 PM

Infelizmente, eu e os meus irmãos passamos por uma situação extremamente triste há precisamente 2 meses atrás no Hospital Amadora-Sintra. Aquela "espelunca" a quem denominam de hospital, é da maior crueldade que pode haver.
A minha mãe deu entrada nesse "hospital" no dia 6 de Outubro com suspeita de AVC, eu, estupidamente, em vez de a levar para o Hospital da Cruz Vermelha (como inicialmente pensei) levei-a para ali porque achava que os meios e recursos seriam maiores. O que é certo é que a minha mãe já não saiu de lá com vida, teve um atendimento pessimo, frio e indiferente.
No dia 6 de Outubro entramos no hospital às 18.30h, foi a famosa triagem, e ao fim de 45 minutos chamaram a minha mãe pra ser vista porque tanto eu como a minha irmã mais velha começamos a protestar pela ausência de atendimento. Depois de ser inicialmente vista, foram prescristos exames (análises e uma TAC). Escusado será dizer que estivemos desde as 19.30 às 2h da manhã em espera pelos corredores, a minha mãe numa maca, semi-inconsciente, e eu junto dela a empurrar a maca para onde havia espaço e diziam para ir. Para fazer a TAC esperamos mais de 1 hora, sozinhas, à porta da sala, sem ninguem nos dizer absolutamente nada, numa zona terminal do hospital de onde eu jamais conseguiria sair mesmo que o quisesse fazer.
Por volta da meia-noite, depois de regressarmos da TAC fizeram as análises e mais espera.....entretanto a médica diz que a minha mãe precisa de levar oxigénio e soro por estar ali há tantas horas e devido ao estado dela (que piorava a cada hora que passava)...mas nada de porem o soro e o oxigénio. Entretanto peço para lhe mudarem a fralda e a resposta que levo de uma auxiliar é: ....Só se me ajudar!!!" Impressionante!!!!
Por tudo o que passamos lá, não há palavras suficientes pra descrever. O que mais me custa é pela minha mãe.....como me arrependo de não a ter levado para o Hospital da Cruz Vermelha e me ter deixado enganar e a ter levado pra lá.... dos filhos eu fui quem mais foi massacrada naquele hospital porque fui quem mais a acompanhou. O tratamento dos doentes é frio e dos acompanhantes totalmente cruel....nem imaginam como me comunicavam o estado da minha mãe, a frieza com que diziam que ela tinha piorado....friamente um médico dizia "....que mais quer que lhe diga....isto é um quadro com um final triste...".
Para culminar tudo o que passamos lá, após p falecimento da minha mãe, que ainda por cima só comunicaram 12 horas após ter decorrido, quando fomos à casa mortuária buscá-la tivemos problemas porque na certidão de óbito tinha escrito "Sexo Indefinido"....a uma pessoa de 72 anos, mulher, aliás uma GRANDE MULHER, que não levantava quelquer dúvida quanto ao sexo.
Perante isto só tenho a dizer que aquela espelunca que chamam Hospital Fernando da Fonseca, vulgo Amadora-Sintra, é um antro que não tem qualquer respeito pelas pessoas, vivas ou mortas. Antes morrer sem assistência a ir para aquela "coisa".

Publicado por: P em dezembro 9, 2004 03:03 PM

Infelizmente este Hospital de gestão privada tem-se revelado de uma eficácia no tratamento dos doentes que recorrem aos seus serviços de urgência impressionante. Eu também tive com a minha filha mais nova um episódio que me deixou com uma excelente impressão do funcionamento daquele Hospital e sobretudo dos profissionais que lá trabalham. Após duas deslocações ao dito serviço por razões de fortes cólicas renais, só à
segunda vez é que conseguiram definir o diagnóstico. Desejo que a sua mãe tenha entretanto melhorado.

Publicado por: congeminações em novembro 11, 2004 07:55 PM