outubro 23, 2003

A cobardia saloia

Embora integrados na Europa dos ricos, não perdemos ainda uma certa ancestralidade rústica e alcoviteira que busca, no parapeito da janela, o motivo para a conversa mesquinha à soleira da porta.

Mas, embora o progresso económico, tenha atirado para as brumas da memória o generalizado e cosmopolita hábito de ir a Badajoz comprar caramelos, nem por isso se perdeu a genuína matriz social que faz de nós, ainda hoje, um país de saloios – e onde pontifica, muitas vezes, aquela forma ardilosa de vida que a sabedoria popular tão bem baptizou de “esperteza saloia”.

Somos, de facto, um país saloio – o que, não sendo necessariamente uma injúria, não é, obviamente, um predicado.

O folhetim da divulgação das escutas telefónicas envolvendo figuras de relevo no meio político e social português é pois, mais do que uma mera figura de contorno jurídico, um reflexo óbvio desta mentalidade saloia, agravada agora pelo ambiente de degradação moral que já caracteriza a nossa sociedade e incessantemente amplificada pela estridência da comunicação social.

Aos motivos tradicionais de satisfação da curiosidade pacóvia – da pudica devassa da intimidade doméstica do vizinho ao deleite com o escândalozinho do bairro, da apetência pelo ajuntamento espontâneo junto ao automóvel acidentado até à excursão organizada ao local de uma qualquer tragédia – os portugueses vêem agora juntar-se as delícias dos segredos dos processos judiciais.

Dia a dia, ao ritmo e ao jeito de uma novela totalmente portuguesa, o País assiste, no conforto do lar ou na tertúlia do café, ao esgravatar da vida, das conversas e dos desabafos dos famosos - e delicia-se com a transcrição dos pormenores escabrosos e das expressões brejeiras, trazidas ao conhecimento de todos pela actuação cobarde de alguns.

Que não é só cobarde – mas também indigna e ilegal.

E que, como tal, devia ser investigada, identificada e punida – quer se trate de magistrados, de funcionários judiciais ou de agentes de investigação.

Mas, infelizmente, é sabido que, além de saloio, Portugal também se mostra, muitas vezes, como um País de cobardes.

Como, infelizmente, se pode constatar a respeito do hediondo crime de Ermesinde onde, só após a detenção dos presumíveis culpados, surgem frente às câmaras de televisão, os vizinhos e conhecidos que “já se tinham apercebido de qualquer coisa” ou “já tinham suspeitado” – mas que, até então, haviam preferido o conforto do anonimato à coragem da denúncia.

Em Ermesinde perdeu-se mais uma vida inocente, sacrificada no altar do desleixo hipócrita de uns e da cobardia abjecta de outros.

Enquanto isso, em Portugal perde-se a confiança na hombridade da justiça e dos seus responsáveis – e, com ela, mais um bocado da auto estima de um País que, com oito séculos de História, merecia um bocadinho mais de respeito.

Publicado por blog-notas em outubro 23, 2003 11:57 PM | TrackBack
Comentários

Mais uma crónica excelsa com que nos habituaste.

Afixado por: Rui em outubro 24, 2003 01:06 PM
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