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setembro 21, 2004

Crónica de um fiasco anunciado (II)

(continuação)

Aliás, se houvesse o mais leve indício de desleixo por parte deste altos responsáveis, já de há muito que o País teria sido confrontado com as atitudes enérgicas do Bloco de Esquerda, da FENPROF, da CGTP-IN e do Partido Socialista referidas nos parágrafos anteriores - às quais se juntariam, obviamente, as exigências de revisão do sistema salarial e de progressão nas carreiras dos diferentes sindicatos da Função Pública.

Tentar imputar as culpas por este processo anedótico à COMPTA, empresa responsável pelo programa informático, seria, igualmente, ignomioso porque, para além do problema já se arrastar desde Maio (onde pontificava um Governo totalmente diferente), iria contribuir para um intolerável aumento do clima de crispação social onde, à irredutibilidade das posições já definidas anteriormente pelo Bloco de Esquerda, pela FENPROF, pela CGTP-IN, Pelo Partido Socialista e pela Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública se iriam contrapor os protestos da Associação Industrial Portuguesa e da Associação Empresarial de Portugal que ameaçariam com a elaboração de manifestos contra um ataque tão soez à iniciativa privada e com a formalização de queixas junto do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias.

Obviamente que as culpas de uma tão caricata situação não podem, igualmente, ser assacadas aos professores porque, para além do problema já se arrastar desde Maio (onde pontificava um Governo totalmente diferente), estes não podem ser responsabilizados por eventuais erros no preenchimento dos formulários porque, a ser assim, à posição já assumida pelas diferentes forças políticas e parceiros sociais já anteriormente referidos - o Bloco de Esquerda, a FENPROF, a CGTP-IN, o Partido Socialista, a FNSFP, a AIP e a AEP - ter-se-ia também juntado, num dos pretéritos domingos, a voz abalizada do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, a cujo escrupuloso escrutínio prévio não teriam passado, certamente, eventuais falhas na elaboração dos modelos de concurso.

Chegados aqui, parece oportuno interrogar: então, mas não haverá ninguém para cima de quem se possam sacudir as culpas por uma situação que tem tanto de dramático quanto de ridículo?

Claro que há - e, parafraseando o presidente do Sporting, poder-se-á dizer que, na educação como no futebol, "a culpa é do sistema".

Do sistema que, permissivamente, permite a bandos de cidadãos progenitores que, em vez de se preocuparem com as grandes questões socio-políticas do momento, se entreguem aos prazeres da carne, e procriem incessantemente, lançando nos braços do Estado carradas de ignaras criancinhas.

Do sistema que, generosamente, se vê forçado a dispender, em maternidades e cuidados pré-natais, as verbas indispensáveis à manutenção de estruturas estatais adequadas à definição, estudo, concepção, avaliação, redefinição, correcção, análise, implementação e validação de um eficaz (e presume-se que, universalmente, único) processo de colocação de professores.

Do sistema que, magnanimamente, gasta na construção de infantários e na manutenção de escolas, os recursos financeiros tão necessários à criação dos grupos de trabalho, departamentos de avaliação, gabinetes de estudo, organismos de coordenação, comissões de acompanhamento e unidades de missão essenciais para uma conveniente articulação das políticas sectoriais visando um eficaz (e presume-se que, universalmente, único) processo de colocação de professores.

Do sistema que, de modo tão pródigo quão infame, se permite tributar os proventos do trabalho mas não os frutos da luxúria...

E nega, grosseiramente, as tão apregoadas virtualidades do princípio do "utilizador-pagador"!

Publicado por blog-notas às setembro 21, 2004 04:09 PM

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