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setembro 07, 2004

Em terra de cegos...

A comunicação social referiu-se, abundantemente, aos dados do Instituto Nacional de Estatística evidenciando que, em pleno século XXI, quase um milhão de portugueses é, ainda, analfabeto.

Estão de parabéns gerações de sucessivos Governos e governantes que, entre projectos, estudos e reformas, se limitam a delapidar cada vez mais fundos, condenando os professores à incúria e os alunos à ignorância.

A situação envergonha-nos e diminui-nos – e, afasta inevitavelmente os portugueses do pleno exercício da cidadania, que deveria caracterizar uma sociedade saudavelmente participada e participativa.

Sacrificados ao altar das estatísticas, regras, programas e avaliações são, paulatinamente, torpedeados pelos mentores dos sucessivos sistemas gerados (e abortados) na Av. 5 de Outubro, de modo a colorir com a capa do êxito um dos mais rotundos e monstruosos fracassos de que se pode orgulhar a classe política das últimas décadas.

E, mesmo assim, os artifícios criados para diminuir a taxa de analfabetismo não escondem, neste País desgraçado, os elevadíssimos níveis de iliteracia que, a todos os níveis, corroem a sociedade portuguesa.

E que, naturalmente, se sublimam no fino recorte literário das intervenções dos responsáveis políticos, na facilidade interpretativa das normas legislativas, na simplicidade dos impressos paridos pela Administração Pública e, last but not least, na indiscutível capacidade elucidativa sempre presente na generalidade dos funcionários da Administração Pública.

O mal do País não assenta, sobretudo, no jargão político da moda – competitividade, défice, reformas estruturais, globalidade – mas, fundamentalmente, na incapacidade que tantos portugueses têm de ler e muitos mais têm de entender.

O que, em boa medida, explica o drama de tantos – obrigados a procurar, na peleja dos aparelhos partidários e na carnificina das instituições desportivas, as sinecuras que o mérito e os conhecimentos dificilmente lhes outorgariam.

Um povo ignorante é, por maioria de razão, um povo cordato – e, um povo cordato é, por certo, um instrumento dócil na perpetuação dos sistemas e dos seus defensores.

Um povo cordato é, aliás, o ideal de qualquer sistema político que se preze – porque paga impostos mas é mal servido, porque paga transportes e recebe greves, porque subsidia a saúde e não tem médicos, porque gasta em justiça mas desespera pelas sentenças, porque custeia a educação mas não vê proveitos...

E, sobretudo, porque um povo cordato até nem questiona a dignidade inerente ao exercício de funções em órgãos de soberania – e aceita que um deputado viaje no porão desde que, com a diferença para 1ª classe, se possa fazer acompanhar da mulher, da amante ou da concubina.

Cinco séculos depois da Epopeia dos Descobrimentos, solidificamos o nosso lugar na História Contemporânea, ensinado aos vindouros que, o sistema político ideal não é a democracia – mas a iliteracia.

Suprema ironia do destino, depois de vergados ao poder futebolístico dos gregos, desforramo-nos com este superior conceito de vivência socio-política, que deita por terra o propalado sistema democrático de origem helénica.

Diz o povo, na sua infinita sabedoria, que “em terra de cegos quem tem olho é Rei”... e que “o mais cego é aquele que não quer ver”!

Já temos um Estado que nos defrauda as esperanças, nos limpa os bolsos, nos afronta a dignidade, nos queima as energias, nos trata com desprezo, nos atola em escândalos, nos deslustra o orgulho, nos envergonha a História e nos delapida o património.

Que, ao menos, não nos cegue...

O que resta do País agradece, penhorado!

Publicado por blog-notas às setembro 7, 2004 10:58 PM

Comentários

Mas a responsabilidade neste particular à partilhada por todos os partidos políticos, nomeadamente por aqueles que foram governo nos 30
anos após a implantação da democracia. Todavia este executivo com a política cega que tem seguido de encerramento de vários estabelecimentos de ensino, sobretudo do básico,
vai contribuir para que as populações rurais com menos recursos não mandem os seus filhos estudarem para fora da área da sua residência,

Publicado por: congeminações em setembro 9, 2004 12:06 AM

Sou professor já nos primeiros anos de aposentação.
No meu percurso passei por todos os níveis de ensino.
Assisti à cada vez menor exigência de conhecimentos aos alunos e ao desprezo pela função de professor.
Não me pesa a consciência, saí com orgulho do meu trabalho e os resultados são disso prova.
Mas dói ver o que se passa.

Como diz e muito bem é a incompetência dos governos, o abandono do professor, o igualar por baixo, a estatística, o faz-de-conta, um proceesso de entrada na faculdade errado, o desconhecimento do que é avaliar, e muito mais que tem levado a esta situação.
Só quando os pais tomarem consciência que bom professor não é o que passa todos mas o que exige e trabalha isto poderá mudar de rumo. Quanto a governos vamos continuar no eleitoralismo fácil na propaganda da imagem.

Publicado por: João Norte em setembro 8, 2004 12:23 PM