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julho 21, 2004

Crónica de uma tomada de posse anunciada

Preocupado em arranjar um bom lugar na sala, não propriamente para ver a cerimónia mas, fundamentalmente, para ser visto, resolvi chegar cedo à Ajuda.

De pouco me serviu, afinal, porque, às 15H30, já era imensa a multidão que se acotovelava no átrio.

Constatei logo que, para o Governo, já não conseguia a nomeação . mesmo que, ao contrário do que afirmara, o Primeiro-Ministro viesse a decidir criar mais umas largas dezenas de Secretarias de Estado.

O frenesim era imenso e, não fosse o aspecto degradado e sujo que tão bem caracteriza o denominado Palácio Nacional da Ajuda, até poderia imaginar que estava à porta do IKEA no dia da abertura ao público.

Olhei em volta e, como já receava, as centenas de pedintes do Poder que aguardavam o início da cerimónia espelhavam, nas faces risonhas, o olhar de sôfrega mas bajuladora cupidez que caracteriza a ávida criancinha ao contemplar a montra da pastelaria.

Solidário com a multidão expectante, também eu verificava, amiúde, o telemóvel . não fosse passar despercebido o toque de convite para a mesa do lauto banquete e das mordomias tão generosamente cedidas pelo estado à cúpula dos seus servidores.

Obstinado, permaneceu numa insolente mudez, que ainda dura.

Finalmente, e com a entrada das estrelas da tarde, teve início o momento mais aguardado, a denominada .tomada de posse..

A designação, embora eufemística é, em si mesmo, reveladora.

Com efeito, é através deste ritual que, um circunspecto cidadão outorga a outros o direito de, em nome de todos e à custa de muitos, esbanjarem o património para satisfação das vaidades de poucos e da venalidade de alguns.

Numa sala repleta de passados, presentes e futuros dependentes das prebendas do Poder, ouviram-se os discursos da praxe, proferidos em tom monocórdico e numa atmosfera abafada e quente.

Alguns dos assistentes, ou já desenganados ou mais experientes, escolheram o conforto dos locais junto às colunas e paredes, e aproveitavam para dormitar.

Sufocado entre uma empoada e balzaquiana matrona e um macilento e imberbe jovem quadro partidário, aguentei a pé firme a sucessiva sucessão de sucessivos compromissos de honra enquanto tentava (em vão, reconheço agora) sorrir para as ministeriais figuras.

Terminada a solenidade do acto, e iniciados os cumprimentos da praxe, sucederam-se os encontrões, as pisadelas e as cotoveladas, constituindo a última provação antes de, finalmente, a turba desvairada conseguir cumprimentar os ministros e depositar, na bochecha suada das ministras, o ósculo que sela o requerimento para uma assessoria ou um lugar de destaque na máquina da Administração Pública.

Eram perto das oito da noite quando, finalmente, se aproximava a minha vez de iniciar a série de abraços e beijinhos mas, até aqui, tive azar.

Quando, entre mim e o Primeiro-Ministro, já só se encontravam dois arranjos de flores (já) murchas, três loiras estrídulas, dois jovens oficiais subalternos e uma rotunda personagem que me lembrou vagamente o tio de um taxista muito conhecido, eis que oiço o toque porque há tanto tempo ansiava.

Delicadamente, afastei-me da fila para atender o telemóvel e responder ao convite que, certamente, me estava a ser endereçado por um gabinete governamental.

Não encontrei o aparelho . certamente espezinhado pelos pés da multidão ululante ou, quiçá!, palmado por alguma alma ainda mais desesperada do que a minha.

De qualquer modo, de pouco me servia tê-lo atendido.

O toque era, apenas, o do despertador!!!

Publicado por blog-notas às julho 21, 2004 01:20 AM

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Comentários

Excelente este post. Parabéns por isso, não deixando de lamentar que a expectativa (em tom de gracejo óbviamente) se tenha dissipado pelo facto do telemóvel não ter tocado e do outro lado da linha estivesse, mesmo em cima da hora, o 1º. ministro a convidá-lo para ser o 35º. secretário de estado.

Publicado por: congeminações em julho 21, 2004 09:02 PM

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