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junho 30, 2004
Uma laranja ácida
Com a felicidade estampada no rosto, embrulhados nas cores nacionais, e com a voz rouca de gritar .Portugal. e entoar o Hino Nacional, os portugueses saem mais uma vez à rua, a comemorar a vitória da Selecção Nacional, desta feita sobre a Holanda.
Empurrados por décadas de provincianismo retrógrado e por trinta anos de iluminismo bacoco para um dos mais baixos grau de auto-estima nacional, é no futebol - e pelo apelo de um brasileiro - que os portugueses voltam a ter orgulho nas suas cores.
O País real pode, até, estar apreensivo com o futuro de Portugal, e preocupado com o impasse político que se avizinha . mas, habituado a sobreviver numa luta incessante contra um Estado autista e uma classe política que faz da ganância a sua bandeira e da tacanhez o seu cachecol, preferem exprimir na rua a sua felicidade do que discutir em casa as opiniões das .personalidades..
Ironia do destino: a onda de optimismo que varre o país de norte a sul corre o risco de se despedaçar, inerte, no areal sujo dos jogos de poder, vencida pela inabilidade da direita, pela sofreguidão da esquerda e, pior que tudo, pela absoluta ausência de princípios e de respeito pelo interesse nacional que, à saciedade, toda a classe política tem vindo a manifestar.
A saída de Durão Barroso para um lugar na Comissão Europeia terá, para o comum dos portugueses, o mesmo grau de importância que a quantidade de calorias ingeridas diariamente pela rainha de Inglaterra . sendo certo que, em Inglaterra, as crises políticas (mesmo que envolvam eleições) se resolvem com uma rapidez e um pragmatismo tal que, a entrada de um novo Primeiro-Ministro na porta principal de Downing Street é feita quase em simultâneo com a saída do cessante pela porta das traseiras.
Portugal não pode, por culpa da tibieza, da angústia e da ambição desmedida dos responsáveis políticos, ser atirado para uma situação de .governo de gestão., que se arrastará, penosamente, durante os meses necessários ao cumprimento de um prazo, desmesuradamente grande e constitucionalmente estúpido.
O que se exige dos políticos, agora mais do que nunca, é que esqueçam a angústia da maioria e a histeria da oposição e sejam capazes de, pelo menos uma vez na vida, .vestirem a camisola. do interesse nacional.
A humildade da sujeição do protagonismo ao interesse comum, a coragem das decisões rápidas e a obtenção de resultados eficazes não pode, apenas, ser exigida à Selecção Nacional.
Que, pelo menos, já obteve um feito histórico.
Quantos políticos portugueses se poderão orgulhar do mesmo?
Publicado por blog-notas às junho 30, 2004 11:37 PM
Comentários
Parabéns pelo excelente post. Estou incondicionalmente de acordo e subscrevo-o.
Publicado por: congeminações em julho 1, 2004 10:49 PM
Apoiado!!
Publicado por: Sónia em julho 1, 2004 05:42 PM