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junho 03, 2004

Uma campanha inominável

Com o País a sofrer os primeiros efeitos de uma canícula antecipada, pouco resta a esta campanha eleitoral para o Parlamento Europeu do que o mérito de evidenciar a qualidade intelectual e a elevação moral dos políticos que, estalado o verniz, se mostram no seu melhor.

Incapazes de apresentar ideias, zurzem-se mutuamente com insultos; inábeis a esgrimir argumentos, preferem distribuir cotoveladas; conscientes da indiferença nacional, mantêm a verbosidade enquanto vão, com uma agressividade directamente proporcional à incompetência, mordendo as canelas dos adversários.

Enquanto a elegância se dissolve como um torrão de açúcar mergulhado numa chávena de chá quente, a classe política que temos . e que evidencia uma óbvia carência desta bebida . esgatanha-se num combate reles, onde as ideias deram a vez à injúria, as propostas à infâmia e os objectivos cederam o seu lugar à mesquinhez.

Trocando a discussão pela afronta e a dialéctica pela dentadura, os candidatos esquecem a Europa a que concorrem e concentram-se apenas nas questões domésticas, rebaixando o debate político ao nível de um combate de .wrestling na lama., e onde o mérito das propostas se reduz à chafurdice no lodaçal.

A política tem, de facto, destas coisas; incapazes de conquistar o interesse dos eleitores com base em propostas claras, ideias objectivas e soluções imaginativas, aos políticos não resta outra solução do que tentarem aproximar-se dos cidadãos com recurso aos modelos reles dos programas televisivos de grande audiência.

Nesta linha, os debates políticos não se deviam, aliás, realizar à volta de uma mesa, com a moderação de jornalistas . mas numa arena a preceito, propiciando que a interactividade dos debates passasse do mero insulto verbal para a fogosidade sonora dos estalos.

Quer como cidadãos quer com eleitores, os portugueses não ficariam certamente a perder se, em vez de Judite de Sousa, esta nova forma de peleja fosse moderada por Teresa Guilherme . na certeza de que aquilo que a campanha não consegue conquistar em interesse político seria certamente superado pelas mais-valias em motivação lúdica.

Esta campanha é, por isso mesmo, uma .campanha triste., feita nos mesmos moldes de sempre, com beijinhos nos mercados, distribuição de canetas e sacos de plástico, cartazes agressivos para a paisagem, caravanas automóveis incómodas e comícios despovoados . onde, nem o apelo da música pimba ou o aroma das febras e das sardinhas conseguem atrair as multidões de antanho.

No Portugal de 2004 não são os portugueses que estão mais afastados da política . mas os políticos que estão mais afastados do País.

Bem pode o Presidente da República afirmar a particular importância .destas eleições para o Parlamento Europeu. e lembrar que .os representantes que para ele elegermos gozarão naturalmente de tanta maior representatividade e capacidade de intervenção quanto maior for o grau de participação eleitoral no nosso país..

Com o debate colocado ao nível do redil, grande parte dos portugueses preferirá, por certo, trocar os salpicos de lama por um banho de praia.

O que, convenhamos, além de mais agradável é, igualmente, muito mais higiénico!

Publicado por blog-notas às junho 3, 2004 09:09 PM