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maio 29, 2004
Uma questão de estilo
Apostada no que parece ser, também, uma guerra de audiências, a classe política tem vindo a transformar a arenga parlamentar numa versão reles de um .reality show., onde os discursos têm - há que o reconhecer publicamente . tanto de fino recorte literário quanto de elevação e bom-gosto, ombreando com uma linguagem que mais depressa se identifica com o léxico habitual numa tasca popular do que com a pose exibida por um órgão de soberania.
Na câmara que consubstancia o Poder Legislativo, a atitude dos parlamentares afasta-se cada vez mais do papel de responsáveis políticos, com objectivos definidos e contas a prestar a quem lhes sustenta os vícios e lhes atura os dislates . convergindo, de forma assustadora, para o domínio até agora quase exclusivamente reservado à brejeirice requentada do Herman José, à ordinarice patética de Teresa Guilherme ou à chalaça ordinária de Fernando Rocha.
Sendo certo que não é justo exigir aos eleitos do Povo que ultrapassem muito o nível de escolaridade indispensável para assinalar o nome no Livro de Presenças, era suposto esperar dos parlamentares o decoro e a postura indispensáveis à satisfação mínima do orgulho dos eleitores . que, certamente, se sentem defraudados perante o espectáculo propiciado pelo Canal Parlamento e retransmitido pelos telejornais.
Porque aos deputados pode-se desculpar que não trabalhem, que faltem às sessões, que se estejam .nas tintas. para os eleitores, que troquem S. Bento por um estádio de futebol, que comprem bilhetes de 1ª e viajem em económica e até que não tenham opiniões próprias . mas não que transformem o vetusto salão de S. Bento numa sala do "Big Brother", onde o palitar dos dentes de um concorrente concorra, mediaticamente, com a sonoridade néscia dos arrotos dos restantes.
Empenhado em cortar dos canais de sinal aberto a pornografia que, durante tanto tempo, estava disponível no Canal 18, o Governo devia igualmente limitar a audiência do Canal Parlamento a maiores de dezoito anos, e avisar previamente que as imagens transmitidas podem chocar as pessoas mais sensíveis . nomeadamente aquelas que ainda têm, da política, a noção de que o respectivo exercício exige um mínimo de decoro no trato e de decência na fala.
Ao apelidar o deputado socialista de .ignorante. e a questionar o direito deste ao vencimento que aufere pelo exercício destas funções, a Ministra de Estado e das Finanças colocou-se, também, ao nível da incorrecção e da ordinarice que tem sublinhado os exercícios de retórica parlamentar.
Não se pode exigir aos ministros que controlem totalmente a sua intrínseca natureza humana . mas nem por isso se lhes pode desculpar que recorram, ainda que no hemiciclo, ao tipo de afirmações desabridas dos poucos deputados que, não sendo de .cu sentado., vêm mostrando, cada vez com mais insistência, que são de .boca grande..
Chamar .ignorante. a um deputado poderá até não passar de uma obvia constatação - mas afirmar que .o senhor tinha obrigação de mostrar perante os seus eleitores que merecia o ordenado que recebe. porque .o senhor não merece o ordenado que recebe. já pode até parecer um acto de auto-crítica.
Não só porque antes de ser Ministra a oradora foi, igualmente, eleita como deputada mas também porque, no que se refere ao mérito dos vencimentos auferidos, a Ministra de Estado e das Finança até devia ser mais comedida.
Porque, como se sabe, a senhora não é possuídora de uma .mente brilhante..
Porque, se o fosse, estaria certamente a desempenhar outro tipo de funções e, como tal, também a auferir um outro nível de vencimento.
E, em vez de Ministra seria, por exemplo, Directora-Geral dos Impostos.
Publicado por blog-notas às maio 29, 2004 12:00 AM
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