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maio 08, 2004
"Sou muito mentiroso": o regresso???
.Um concurso em condições como eu nunca vi, porque o banco do Estado, sob instruções do Governo, participa e apoia um dos consórcios; aliás, dá-se o caso que a Caixa Geral de Depósitos financia o grupo Carlyle que é um dos concorrentes. Portanto, o grupo Carlyle, a maior empresa de capital especulativo mundial, vai comprar uma parte do Estado na Galp com dinheiro dado pelo Estado. Martins da Cruz, um mês depois de ter saído do seu Governo tornou-se o homem da Carlyle em Portugal e eu gostava que me explicasse se é por amizade com Martins da Cruz, se é por acordo com a família George Bush, se é por respeito pela família Bin Laden ou porque razão é que quer que a Caixa Geral de Depósitos apoie a pretensão do grupo Carlyle nesta negociata..
Francisco Louçã, Assembleia da República, 30-04-2004
As afirmações de Francisco Louçã foram proferidas no hemiciclo e na sua qualidade de deputado.
Francisco Louçã, como deputado .não responde civil, criminal ou disciplinarmente pelos votos e opiniões que emite no exercício das suas funções. (artº 157º, nº 1 da Constitução).
Francisco Louçã pode, nessas circunstâncias e por isso mesmo, proferir afirmações, emitir juízos, exalar disparates, expelir insinuações e perorar sobre qualquer assunto com a garantia de total imunidade . e o privilégio adicional de saber que, impressas no papel ou transformadas em bytes, as suas palavras ficarão para sempre a fazer parte da história.
Esta formulação democrática, que permite aos vindouros apreciar toda a dialéctica parlamentar, contém em si um elemento claramente perverso, ao destacar de igual forma quer a beleza argumentativa das intervenções de Francisco Louçã quer a fealdade rústica das palavras de Manuela Ferreira Leite.
(Crê-se, aliás, que esta sinistra equidiferença resulta, nitidamente, do cariz neo-liberal das democracias ocidentais . que, como se sabe e até Churchil referiu, .é o pior sistema político... com excepção de todos os outros..)
Sendo tão profundamente de esquerda e tão categoricamente moderno, esperava-se de Francisco Louçã um comportamento que, no mínimo, evidenciasse a sua afirmação peremptória de que .entre a direita reaccionária de sempre e a esquerda que a ela sempre se opôs, há uma cultura que nos separa. (1) . e que se mostrasse profundamente claro e categoricamente documentado.
As afirmações feitas podem até ser verdadeiras . mas, porque não objectiva e inequivocamente provadas, constituem apenas mais um trecho de vã retórica parlamentar, que não dignifica quem as profere nem satisfaz quem as ouve.
Na sua ânsia de se querer afirmar como paladino do rigor e da justiça, Francisco Loução podia, pelo menos, utilizar uma argumentação diferente daquela que acusa os seus oponentes de praticar . começando, desde logo, por sustentar em provas irrefutáveis, a coerência das suas afirmações.
É claro que uma tal actuação podia não merecer o mesmo tipo de cobertura mediática nem granjear mais votos à corrente partidária em que se integra . mas, pelo menos, não deixaria de constituir um motivo de respeito pelas convicções que defende.
.O Bloco quer transformar a esquerda em profundidade, o que exige um longo processo de aprendizagem, de convergência e de confrontação clarificadora, para a dotar da capacidade de se afirmar como alternativa contra a direita.. (2)
Que tal iniciar esse .longo processo de aprendizagem. pela definição de .honestidade.?
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(1) Intervenção do deputado Francisco Louçã, Diário da Assembleia da República, 1-10-2003
(2) Teses Políticas aprovadas na III Convenção do Bloco de Esquerda, Maio de 2003
Publicado por blog-notas às maio 8, 2004 01:40 AM
Comentários
Mesmo que Louçã não tenha provas, é pouco provável que a CGD se metesse num negócio de tal envergadura sem o conhecimento do governo. (Acho eu).
Publicado por: Fernando em maio 8, 2004 02:55 AM