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abril 20, 2004
A (r)evolução viral
Trinta anos passados sobre o .25 de Abril., é confrangedor constatar que, aos invés de se centrar no futuro e na definição dos grandes objectivos nacionais, a mesquinhez tacanha da discussão político-partidária preferiu concentrar-se numa questão gramatical, induzida pela aférese de uma consoante . que, além do mais, ocupa apenas a 17ª posição no alfabeto português.
A guerra do Iraque, o controlo do défice, a remodelação governamental, as eleições europeias, o desemprego, os problemas da insegurança, a crise do Médio Oriente, a possibilidade de um português assumir a presidência da Comissão Europeia, o processo Casa Pia, a aquisição de submarinos, os problemas da Casa da Música, o centenário do Benfica, a saga do Diniz Maria Carrilho, a candidatura de Pedro Santana Lopes à Presidência da República, as vitórias do Futebol Clube do Porto, o Rock in Rio, o processo da ponte de Entre-os-Rios, a crise na Bombardier, a mudança de Governo em Espanha, o aparente desfalque na Câmara do Porto, o Euro-2004, e até as análises tautológicas de Luís Delgado tudo foi relegado para segundo plano, perante a crispação social gerada pela queda de um .R..
Num País demograficamente concentrado, economicamente depauperado, socialmente desequilibrado, tecnologicamente atrasado, industrialmente desfeito e politicamente afundado, é tão imbecil a pretensão governamental de associar o dinamismo da .Evolução. ao imobilismo dos seus actos quão néscia a atitude oposicionista de brandir a bandeira da .Revolução. para despertar resquícios de passadismo extremista.
Porque a História de um país é feita de factos, pode-se gostar mais ou menos de determinados períodos do passado comum, mas não é legítimo querer branquear uns nem saudável viver na ilusão de outros: a Revolução fez-se para que a Evolução se desse.
Fernando Rosas, que é historiador, sabe-o certamente bem melhor do que eu . pelo que, a opinião manifestada na coluna do .Público. do passado dia 14, deve ter sido ditada mais pela concepção política do que pelo rigor histórico.
Plagiando, descaradamente, o texto de Fernando Rosas, também eu poderia afirmar que .é curioso, e quase do domínio da psicanálise, como a esquerda (1) portuguesa, assessorada por algum historiador que se preste a dar a este propósito ideológico foros de pseudocientificidade, confunde os seus desejos com as realidades. Efectivamente, Abril não foi evolução porque as esquerdas (2) portuguesas foram historicamente incapazes de realizar um processo de transição, isto é, de levar a cabo, a partir do próprio regime, um processo endógeno e sustentado de reformas modernizantes, à semelhança do que se passou com o socialismo (3), em Espanha..
Não deve ser fácil, para um Governo sem chama nem vontade, conseguir mostrar mais do que uns outdoors a apregoar .Evolução..
Mas, deve ser bem mais difícil, para os partidários de um projecto que se diz de massas mas que não é acarinhado por estas, libertarem-se da pecha de uma visão passadista que faz, ao povo em geral, a injúria de o considerar hipotecado a uma visão puramente marxista-leninista da sociedade e do Estado.
Caramba, até os vírus evoluem...
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Notas:
(1) .direita., no original
(2) .direitas., no original
(3) .franquismo., no original
Publicado por blog-notas às abril 20, 2004 12:48 AM
Comentários
Boa tarde Caro Blog-notas. Antes de mais os meus cumprimentos e os parabéns pelas entradas que tem feito recentemente. Esta ultima sobre o 25 de Abril é excelente e já tem amis um subscritor.
Esta discussão é de facto confrangedora e também naome é indiferente. Como o blogue que edito - vistas na paisagem- não que cair na tentaçao de se debruçar sobre aspectos essecialmente politicos, alimento-mo do seu e de outros.
Aproveito para lhe deixar em primeira mao uma carta que vou enviar para a secçao do Publico sobre o "revolução, evoluçao e regressão". Isto se for publicada!
Um abraço e continuaçao de boas entradas!
joao Gomes (vistas na paisagem)
"Revoluçao, evoluçao e regressão"
Não deixa de ser caricato que enquanto boa parte da classe política, da direita à esquerda, se entretém a fazer psicanálise sobre o significado da palavra "evolução" na semana em que se comemora a revolução de Abril, os dois mais altos representantes deste país se entretenham a evidenciar que em matéria de qualidade dessa mesma classe política a expressão a utilizar não é outra que não "verdadeira e acelerada regressão".
No momento em que escrevo esta linhas, o Dr. Sampaio e o Dr. Durão Barroso, entretêm-se no palácio de Belém num agradável almoço com 30 jovens, supostamente representantes do melhor que o 25 de Abril produziu. Das largas centenas de milhares de cidadãos que nasceram na década de 70, e para as quais a fábula diz que foi feito o 25 de Abril, uma comissão de notáveis, todos nascidos antes de 1974, procurou os melhores dos melhores e seleccionou 30 estrelas em ascensão no firmamento deste país.
Qual natureza inclusiva do 25 De Abril e de um projecto de sociedade democrática e fraterna! Na altura da comemoração à classe política não ocorre nada melhor que, ao melhor estilo " ancien régime",almoçar com 30 juvenis criteriosamente seleccionados e bem comportados. Hoje com 30 juvenis, amanhã com 30 seniores no dia do idoso, com outros tantos no dia do deficiente, e assim por diante numa bonita iniciativa de dessacralização e aproximação do poder político da "sociedade civil".
Atentem nos perfis dos 30 seleccionados e observem como a ideia "25 de Abril" é hoje definitivamente letra morta: um dramaturgo, designers, músicos e desportistas vários. Até uma maestrina e um econometrista de cor para que a mesa fique mais ao estilo. Não há lá um pedreiro, não há lá um agricultor, não há lá um serralheiro, não há lá.... . Muito menos estão lá representantes dos deserdados socialmente e que têm tanto ou mais direito de sentir o 25 de Abril como deles. Não há lá um toxico dependente, não há lá uma puta, não há lá um desempregado.
Eu até estou à vontade para falar porque, tendo 30 anos, não sendo de esquerda e fazendo parte do grupo de privilegiados que teve a oportunidade de ter educação e pode descontar, sem muita alegria é certo, 35% do seu rendimento em IRS, não me considero de forma alguma representado neste grupo de queques. Mil vezes uma bifana e uma sagres com um concidadão deserdado numa rouloute do campo grande!
Mas mais, não só não me considero representado como acho que nenhum sector etário vivo deste país se pode considerar irmanado nesta festarola. Julgava eu que o 25 de Abril tinha sido feito para todos e não apenas por aqueles que agora rondam os 30 anos. Uma festa que se queria fraterna, já que a realidade ainda o não é, transforma-se assim num ritual de passagem/bênção de 30 juvenis pela classe politoco-partidária.
Eu já nem quero saber como o Dr. Sampaio e o Dr Barroso não percebem o significado dos seus actos. Acerca da sua qualidade e alcance já estamos conversados há algum tempo. Agora estou atarefado a tentar justificar os actos daqueles que aceitaram o convite e pelos quais ainda tenho alguma estima. Porque é que não lhe ocorreu que obviamente deveriam recusar de imediato?
Este almoço é de tal forma surreal que só espanta que ninguém se incomode com o facto. Nem a esquerda, diga-se. E é prova acabada de que esta classe política, da direita à esquerda, já interiorizou o 25 de Abril como mais uma comemoração histórica idêntica ao 5 de Outubro e 1 de Novembro. sem qualquer significado com futuro. Meus Amigos, quem ainda se emociona com o que aconteceu, com as novas possibilidades que o mesmo trouxe, que arrume a viola, caia na realidade e se faça à estrada.
Eu, por mim, estou esclarecido. Comemorei o meu ultimo 25 de Abril.
Publicado por: Joao Gomes em abril 21, 2004 02:13 PM
E de que maneira! Estão sempre a mutar...Para muitos nem há vacina possível.
Publicado por: Rui em abril 20, 2004 10:40 PM
O melhor de tudo está no fim...até os vírus evoluem...bravos./
Publicado por: nelsonperez em abril 20, 2004 05:09 AM