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março 23, 2004

O público e os subsídios

No passado domingo assisti, mais uma vez, à exibição dos Tocarufar, executada no âmbito da Festa da Primavera do Centro Cultural de Belém.

Foi, como das outras vezes, uma actuação agradável, simples, despretensiosa e imaginativa . e onde a cativante alegria dos jovens que o constituem se transmite igualmente ao público que, além de não regatear aplausos, os submete, no ritmo e na intensidade, às ordens do decidido .maestro..

A felicidade dos intérpretes e o júbilo do público trouxe-me à memória um outro espectáculo a que assisti há um mês, também no CCB mas desta feita no Pequeno Auditório, levado à cena pelos .Artistas Unidos. e intitulado .Ruínas..

E, se a diferença entre os dois espectáculos é abismal, tal não se deve essencialmente à natureza intrínseca de cada um, ou ao flagrante contraste entre a singeleza do primeiro e a afectação pomposa do segundo mas, sobretudo, aos destinatários de cada uma das interpretações.

Porque, enquanto o rufar dos tambores se destina ao público, a representação cénica tem por objectivo primordial os amigos, os críticos e, naturalmente, os subsídios.

Que, como se sabe, parecem obedecer às leis de Newton, na medida em que variam na razão directa dos encómios críticos e inversa do quadrado das assistências.

Razão tinha João César Monteiro, que se estava .a cagar para o público. e afirmava que .como é meu velho costume não tenho nada a dizer sobre este filme que aliás, neste preciso momento ainda não se encontra concluído. E como é sabido, estas coisas de cinema só se sabem no fim..

O que, não justificará totalmente, mas ajuda a compreender porque é que, enquanto no Caminho Pedonal se acotovelavam largas dezenas de pessoas para ouvir tambores, numa sala com mais de trezentos lugares apenas pouco mais de quarenta se encontravam ocupados para assistir às .Ruínas..

E porque é que os Artistas Unidos se lamentam da falta de apoios oficiais . e os Tocarufar acreditam no apoio do público.

Mas onde é que eu terei ido buscar esta ideia peregrina de que as manifestações artísticas se destinam ao público?

Parafraseando o Jaquinzinhos, também eu "continuo sem saber quem subsidia os Stomp."

Publicado por blog-notas às março 23, 2004 11:57 PM