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março 02, 2004

E o mundo, o que faz?

Num comentário ao post debaixo, o Bisturi deixa no ar uma terrível e dolorosa pergunta: .E o mundo, o que faz?.

Do ponto de vista prático, meu caro, faz pouco, muito pouco mesmo . mas, do ponto de vista das declarações de intenção, dos votos de protesto, das moções, dos abaixo assinados e de tudo aquilo que significa pouco, fará qualquer coisa mais.

E, sobretudo, apelará aos sentimentos altruístas dos cidadãos anónimos e à generosidade das Organizações Humanitárias.

Especialmente recorrendo a sucessivas campanhas de angariação de fundos, como aquela que, visando Angola, é actualmente patrocinada pelo Banco Totta e Açores e decorre a favor da AMI.

Não pondo em causa a bondade da causa nem o mérito da atitude, não posso deixar de considerar que, embora politicamente correctas, estas campanhas também são socialmente injustas.

Podem ajudar a expiar os complexos de culpa de alguns . mas contrastam flagrantemente com os problemas diários de muitos.

Num País onde o desemprego atinge já atinge muitas dezenas de milhar de portugueses, onde fábricas encerram a um ritmo constante, onde se obrigam crianças a percorrer quilómetros para ir à escola, onde as escolas fecham e funcionam sem condições, onde a saúde não é um direito de todos mas apenas o privilégio de alguns, onde o Estado não cuida de situações de verdadeira monstruosidade social, accionar campanhas de solidariedade para ajudar países onde apenas a corrupção é responsável pela agonia de um povo pode ser um acto bonito . mas é, igualmente, hipócrita e insultuoso.

Hipócrita ao esquecer o papel determinante da classe política angolana, e da teia de subornos e de nepotismo que rodeiam os biliões do petróleo; insultuoso ao esquecer que, cá como lá, também existem crianças desprezadas pelo Estado e ignoradas pela sociedade.

Uma sociedade que se preze não pode, obviamente, ser egoísta . mas não tem, necessariamente, que ser estúpida.

E, infelizmente, é isso que este acto parece . ao angariar para terceiros aquilo que não conseguimos assegurar para os que nos estão próximos.

Sobretudo quando as verbas recolhidas não se destinam a minimizar os efeitos de uma catástrofe natural ou de uma qualquer crise humanitária incontrolável mas, tão somente, a superar a vergonhosa e ostensiva apropriação, por alguns, dos milhões proporcionados pelas riquezas naturais que pertencem a todos . ante a complacência bacoca ou a cumplicidade sabuja de muitos.

Uma apropriação tão vergonhosa e ostensiva que não se inibe de organizar principescas festas de casamento, encomendadas pelo Chefe de um Estado que é dos mais corruptos do mundo mas que tem a desfaçatez de dar corpo a uma Fundação que visa afastar .a ideia segundo a qual o património serve apenas para satisfazer o egoísmo humano de acumular riquezas para usufruto individual".

Aquilo porque Angola clama desesperadamente é, mais do que pelo mediatismo de medicamentos e cobertores, pela denúncia corajosa dos crimes da classe dirigente angolana e do nepotismo de um regime de cleptómanos descarados.

Abrir uma conta no BTA e, através dela, contribuir com alguns cêntimos .para ajudar a tirar 10.000 crianças do estado de subnutrição. é um acto solidário . tanto mais que parte de uma entidade cuja missão principal, não é, naturalmente, filantrópica.

Não obstante, não vou abrir uma conta no BTA - pelo menos enquanto houver, aqui, mesmo ao meu lado, tantas crianças portuguesas, angolanas, timorenses ou croatas a passar fome.

Sobretudo porque o problema de Angola passa, antes do mais, pela redistribuição das riquezas existentes naquele País . e roubadas ao seu povo por uma corja de energúmenos, tolerados pelos políticos e apaparicados pelos banqueiros (só entre 1997 e 2002 cerca de 3,1 mil milhões de euros de rendimentos do petróleo desapareceram, segundo a Human Rights Watch).

Enquanto que, aqui, ao meu lado, embora a miséria também passe pela existência de energúmenos tolerados pela política e apaparicados pela banca, já nem existem recursos naturais para distribuir.

A não ser a solidariedade . que, sendo um bem escasso, reservo para aqueles que agonizam aos meus pés.

Ou, para aqueles que são vítimas inocentes da natureza.

Como, tão recentemente, aconteceu em Marrocos.

Publicado por blog-notas às março 2, 2004 12:00 AM

Comentários

Aprecio muito os seus pontos de vista elucidados.

Publicado por: Rui em março 3, 2004 01:25 AM

Tocou o dedo na ferida. É pena que neste país se continua com a política de dar apenas esmola ao pobrezinho como uma espécie de descargo de consciência.

Publicado por: Fred em março 2, 2004 12:00 PM