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fevereiro 05, 2004

Uma manhã no Cacém

Um indicador de cor amarela que começou, ontem, a acender-se no painel do meu carro, obrigou- me a uma deslocação ao Cacém que, a contragosto, encetei hoje de manhã.

Para além de maçadora, a experiência revelou-se, absoluta e assustadoramente, traumatizante.

O Cacém não é, de todo, uma zona urbana e, só por manifesta ignorância ou ostensivo abuso semântico é possível atribuir a este amontoado de construção . erigida sem gosto nem critério e atravessada por sulcos que só uma imaginação fértil pode chamar estradas ou passeios . uma denominação mais simpática do que .aldeia rupestre..

A incúria, o desleixo, a incompetência e a cupidez de sucessivos responsáveis autárquicos criaram - e alimentam - esta monstruosidade urbanística, que está, para a sociedade do pós -25 de Abril, como o Tarrafal esteve para o período anterior.

Talvez por isso, estou em crer que os cidadãos do Cacém nem deviam, sequer, depender da Câmara Municipal de Sintra - mas sim do Ministério da Justiça que, para além de ser a entidade que tutela as prisões, é igualmente a que superintende o Instituto de Reinserção Social e a Comissão de Protecção de Vítimas de Crimes.

Condenar alguém a viver no Cacém não sendo, decerto, nem moral nem socialmente aceitável num País que, há muito, aboliu a escravatura e a pena de morte exige, no mínimo, um acompanhamento especialmente cuidadoso quer durante a nefasta situação quer no horizonte temporal subsequente ao final da dolorosa provação.

Considero, inclusive, que a requalificação do Cacém não pode ser feita com o recurso a um eufemismo denominado de .programa Polis., porque aquela devastação urbanística não anseia por um projecto de planeamento mas sim por uma empresa de terraplanagens.

Ao longo de arruamentos lunares e de pseudo-passeios lamacentos que cruzam abominações edificadas, desci do designado .Centro Comercia Mercado. até à zona da estação da CP . numa pungente imitação de Dante perdido na .selva oscura. e verificando que, em termos de qualidade de vida, os habitantes do Cacém estarão, na melhor das hipóteses, ao nível dos doentes de hemorroidal.

Melhor do que um exército forte, uma marinha capaz ou uma força aérea poderosa, é nesta aberração urbana que reside o maior trunfo português contra qualquer veleidade de domínio espanhol: confrontada com esta lusa criação, a afoiteza do potencial oponente soçobrará aos pés deste esplendoroso exemplo do mau planeamento e da pior execução.

Se, como consta, George Bush descende de D. Urraca, quase arriscava o vaticínio de que, a avaliar pelo buraco onde foi encontrado, a árvore genealógica de Saddam Hussein entronca, algures, num ramo de portugueses condenados a expiar os seus pecados numa das ruas do Cacém.

Só me espanta que a esquerda que se diz moderna, inteligente e sofisticada, e que pugna com insistência a favor das causas minoritárias, não tenha ainda dedicado alguma da sua energia para, em bloco ou individualmente, lutar pela melhoria das condições desta população castigada pelos políticos e abandonada pelos deuses.

Estou em crer que, neste caso concreto, todos entenderiam se o Bloco de Esquerda optasse por ser mais racional e menos mediático - e fosse contra o .aborto..

Ao pé do qual Guantanamo até corre o risco de parecer o Clube Med!

Publicado por blog-notas às fevereiro 5, 2004 11:17 PM

Comentários

Destruir, criticar, dizer mal, é mais que o próprio futebol o desporto-rei neste país de tantos praticantes. É verdade nasci, cresci no cacém, por cá ando há quase 28 anos e ,pasmem-se... sei escrever, até sei o que é a Internet. Estudo,trabalho,tenho casa e família. Dispenso a sua pena e as suas lágrimas de horror pelo buraco onde vivem estes castigados do Juizo Divino. Não sei em que país vivem, mas é bom descerem de vez em quando ao Inferno para verem como não é fácil, mas temos pena que não estejam o tempo suficiente para ver o Cacém, conhecer o Cacém, é verdade também temos história, cultura e até ...incrível,.. locais e bairros bonitos e agradáveis de viver. Se eu for a Veneza posso valorizar a paisagem deslumbrante ou o terrível cheiro a esgoto, como bom portuga certamente que me deixaria incomodar pelo que está mau, graças a Deus que não o sou. Do mercado à estação até às bombas de gasolina é um local complicado como todas as "downtown" de qualquer cidade, grande ou pequena, bonita ou feia, mas a sério quando vier com tempo vai ver que isto é mau, é verdade, como o país em geral, mas comparar-nos a presos...
Para um dos senhores das respostas falando de acessos, de manhã em plena hora de ponta saio da minha empresa perto da estação do Cacém às 9 da manhã e chego a Lisboa, ao campus da Faculdade de Economia às 9 e 25. Conseguem melhor nesses sitios de óptimos acessos em que vivem?
Não é o sitio mas o modo como o vemos, não são os caminhos mas os que nós escolhemos e o modo como os percorremos....

Publicado por: Hook em março 15, 2004 05:52 PM

Nota máxima para o texto.

Publicado por: Rui em fevereiro 7, 2004 11:30 PM

Caro blog-notas, foi para resolver problemas como esse que a Al-Qaeda Portugal (http://al-qaeda-pt.weblog.com.pt) foi criada.
Por vezes, não à outra alternativa senão a demolição forçada: para que, dos escombros, surja uma nova ordem - ou pelo menos, ordenamento.

O Porta-Voz e Alto Representante para os AACI e Propaganda da Organização,

al-Fahace

Publicado por: Macumbé Falido al-Fahace em fevereiro 6, 2004 06:57 PM

Em tempos estive também ali pela zona das Mercês em visita a um conhecido e realmente partilho da sua opinião. É um crime o que foi feito em termos de planeamento urbano. As pessoas são metidas em caixas verticais sem qualquer tipo de preocupação. É dos últimos lugares onde era capaz de morar neste país... E os acessos? Ah, pois.. muito para contar também...

Publicado por: Fred em fevereiro 6, 2004 04:52 PM