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janeiro 31, 2004
O Miguel (edição comentada)
O texto é de ontem, só o li hoje, mas constitui (mais) uma brilhante análise do Jaquinzinhos, e intitula-se .O Miguel Desistiu. Life is too short..
Para além de ser português, empreendedor e honesto, parecem-me existir outras características do Miguel que podem, igualmente, justificar o fracasso deste homem.
Vejamos:
.O Miguel foi um dos miúdos mais inteligentes que conheci..
Se era inteligente devia ter optado por uma área de exigente especificidade . como a política ou a direcção de um clube desportivo.
.Desde muito novo, o que ele faz melhor que ninguém é tornar fácil o que parece complicado ao comum dos mortais..
Asneira; qualquer ideia de simplificação é, basicamente, subversiva, ao questionar a quantidade de postos de trabalho do laborioso funcionalismo público.
.O Miguel sabe juntar máquinas umas às outras(...). No seu quarto, ligava e desligava televisões, videos e telefones com o rato do computador(...). Coisas destas.
Deslize do autor do texto, que evidencia as características de .pirataria. do Miguel . e a quem, num país que não fosse de brandos costumes, a TV Cabo já teria processado 10 vezes.
.Quando acabou a licenciatura, o Miguel quis ser empresário(...). Queria simplesmente fazer coisas.
Erro crasso - ao acabar a licenciatura, porque contribuiu para a redução estatística do número de estudantes e para o aumento da taxa de desemprego, e ao ter a veleidade de contrariar o desígnio nacional, propondo-se .fazer coisas..
.Sem chefes e sem outras obrigações que não a de aplicar a sua capacidade com brio profissional.
Imagine-se o dislate!
.No fim do século passado, ainda estudante, fez um trabalho excepcional (....) Mas é muito complicado ser fornecedor de uma empresa sem ser ele próprio uma empresa. Por isso, sentiu-se obrigado a .legalizar-se..
De uma penada, o Miguel apoucou o Estado produzindo trabalho .excepcional. e aumentou as necessidades em recursos ao pretender .legalizar. a actividade . quando era muito mais fácil estar quietinho.
.Constituiu uma empresa. Ou no caso dele, duas. (...). O Miguel gastou quase todo o dinheiro que tinha e tentou poupar na contabilidade, com a ajuda de um conhecido..
Nota-se a ambição desmesurada, por querer logo .duas. . mas, nesta fase, reconhece-se igualmente uma aproximação da realidade, ao recorrer à figura tutelar do .conhecido., para .poupar na contabilidade.; prova-se, igualmente, que o Miguel é português.
.Após um período inicial calmo, a empresa do Miguel foi multada vezes sem conta (...) De tal modo que o lucro do primeiro ano foi quase todo para impostos. O Miguel deixou rapidamente de ser um excelente técnico para ser um péssimo burocrata. Foi obrigado a contratar 2 pessoas em part-time para o auxiliarem na burocracia. E para concorrer a um concurso público..
Bem feita!
.Em 2001 e 2002, tudo lhe correu mal. Um cliente atrasou os pagamentos. Um cliente chamado estado. (...) Mais as colectas mínimas.
Depois de ter sido limpo pelo estado de parte sensível dos rendimentos do seu trabalho, procurou ajuda numa empresa de contabilidade. (...) Ouviu a ministra explicar que o PEC era para evitar que os malandros fugissem ao fisco.(...).
E de que é que o Miguel estava à espera, depois de ter tratado tão mal o Estado?
"A burocracia custou-lhe mais de 2.500 contos em dinheiro e, pior ainda, mais de metade do seu activo mais valioso: o tempo. Sugou-lhe a energia que nele anteriormente transbordava."
Não foi a burocracia do Estado . foi a ingenuidade do Miguel. Se queria ser criativo e receber apoios do Estado, porque é que não se dedicou ao cinema? Ou à coreografia? Ou à crítica musical?
"Deixei de ouvir falar nele no Verão de 2003. A última vez que o tinha encontrado, estava a pensar ir dar aulas para uma universidade, como assistente. (...)Por fim, hoje, tive notícias(...). O Miguel foi convidado para trabalhar para um cliente para quem desenvolveu um projecto com sucesso."
Mais uma nota de portuguesismo . a tentativa de se .encaixar. no Estado como professor, e a emigração; qualquer dia volta, com um bruto carro e vai fazer uma .maison. lá na terra.
.Sobraram-lhe duas hipóteses de vida. Ser funcionário público ou emigrar. Escolheu criar riqueza noutro país. No nosso, é proibido.
Criar riqueza pode constituir um péssimo exemplo para o Estado, para os gestores e empresas públicas e para a classe político-sindical em geral; quer-me parecer que o Miguel é uma pessoa perigosa . ainda bem que emigrou.
E, já agora, só espero que o Estado, quando ele voltar, lhe embargue o projecto da .maison.!
Publicado por blog-notas às janeiro 31, 2004 12:00 AM
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Comentários
Bem visto!
Publicado por: Diabaólica em fevereiro 1, 2004 01:44 PM
Gostei de ler. Está bem escrito e traduz, com sabor amargo, a dura realidade. Pobre país que trata assim os seus filhos!
Publicado por: manuel marques em fevereiro 2, 2004 08:33 PM
Hilariante.
Publicado por: om em fevereiro 28, 2004 12:59 AM