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janeiro 27, 2004
O bom jornalismo
Para quem ainda pudesse ter dúvidas sobre o papel pedagógico das televisões, a confirmação aí está: captada em directo, a morte de um ser humano é transformada na mais sórdida e abjecta das .peças., mostrada com a mais repugnante das insistências, numa das mais infames e miseráveis manifestações de sensacionalismo e desrespeito pela dor alheia de que tenho memória.
Imersos na sofreguidão pela desgraça e na vertigem pelo sofrimento, os três principais canais de televisão demonstraram, cristalinamente, a existência de um factor comum que a todos une e que a todos alimenta: a sarjeta.
Poder-se-ia entender, a coberto das leis de mercado e das normas que garantem a liberdade de imprensa, que as televisões privadas . na sequência, aliás, do tipo de programação e de cobertura noticiosa que vêm privilegiando . não resistissem ao sortilégio de aumentar os shares, ainda que os valores percentuais fossem conquistados sobre o estertor da morte de um inocente jovem húngaro.
A atitude pode ser ignominiosa . mas já quase nem surpreende, integrada que está numa estratégia que trata o quotidiano e a desgraça com a mesma displicência com que um suíno chafurda no lamaçal da pocilga.
Mas, a RTP é do Estado, paga pelo dinheiro dos contribuintes, com uma Administração nomeada pelo Governo e tutelada por um Ministro.
E, mesmo que em Portugal esses factores não determinem qualquer rigor ético suplementar, não é aceitável que a televisão pública desça ao nível do abutre esfaimado, e se permita transmitir, incessante e desnecessariamente, os momentos finais de uma vida humana, numa manifestação do mais ostensivo desrespeito pela dignidade do jogador.
Há pouco mais de 6 meses, o senhor Ministro da Presidência insurgiu-se contra uma entrevista exclusiva que o canal televisivo fez à autarca . e o Director de Informação, Rodrigues dos Santos, terá, a esse respeito, comentado que .não há jornalismo público nem jornalismo privado; há bom e mau jornalismo. Para nós não há assuntos tabu, há sim formas tabu de tratar os assuntos..
Dr. Rodrigues dos Santos: o Ministro já sabemos que é mau mas... acha que esta é uma forma de .bom jornalismo.?
Publicado por blog-notas às janeiro 27, 2004 01:06 AM
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Comentários
Não posso estar mais de acordo. O sentido ético e a lucidez do costume.
Publicado por: Rui em janeiro 27, 2004 02:04 AM
Não conhecia ainda este Blog mas conto segui-lo.
Concordo em absoluto com este seu post, aliás, muito bem visto e escrito.
Mas quanto a -televisão pública descer ao nível do abutre esfaimado- é que já não posso entender e se, ao invés, não terá o abutre esfaimado, ascendido ao poderio dos meios que ora usa..
Parabéns.
Publicado por: Clara em janeiro 27, 2004 02:23 PM
Bom? Uma boa M....!
Um abração do
Zecatelhado
Publicado por: Zecatelhado em janeiro 27, 2004 08:25 PM
Muito bem. Tem todo o meu acordo.
O que entendo por mais grave, no que diz respeito às pessoas, não o ministro que é medíocre, mas o drector de informação que é professor universitário, é termos formadores que na prática desenvolvem processos menores.
Essa história do faz o que eu digo mas, não faças o que eu faço, não é digna de democracias.
Publicado por: manuel marques em janeiro 28, 2004 06:12 PM
Claramente abusivos, o "tempo de antena" e as escolhas cirúrgicas das notícias e do excessivo alardeamento das mesmas a entrar-me pela casa dentro. Eu pago esta RTP e a 2: porque não tenho escolha se quiser ver alguma boa televisão, mas não pedi para me imporem actualidades de gosto duvidoso e sensacionalista. Para isso há a TVI e é francamente imbatível. O Dr. Rodrigues dos Santos não está, nestes momentos, a prestar qualquer serviço ao país e se é com as audiências que está preocupado (logo, com o seu posto), então deveria mudar-se para um dos canais "privados", que nutrem o "show-off" como estandarte. Aí sim.
Publicado por: João Vaz em janeiro 29, 2004 10:10 AM