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janeiro 16, 2004
Na paragem, sem transportes
Sabendo-se que são sempre simpáticas, populares e oportunas as greves do sector dos transportes, a que os trabalhadores da Carris agendaram para hoje juntou, ao incómodo das deslocações a pé, o castigo das caminhadas à chuva.
Cientes do direito que têm de manifestar as suas opiniões, de lutar pelos valores em que acreditam, de não concordar com a estratégia da Administração da empresa e de exercer o direito constitucionalmente assegurado de fazer greve, os trabalhadores da Carris esquecem que também têm deveres . nomeadamente para com os utentes que, em larga medida, asseguram os seus vencimentos mensais.
Longe de ser um episódio fortuito, a forma de greve adoptada pelos trabalhadores da Carris não é mais do que um dos muitos sintomas que reflectem o absoluto laxismo que caracteriza a nossa sociedade . e onde as questões básicas do respeito, da solidariedade e da cidadania constituem, apenas, palavras ocas utilizadas em inúteis e pomposas cerimónias de Estado.
Aceitar que as prerrogativas e os privilégios profissionais de alguns se conquistem à custa do sacrifício e do desprezo pelos mais elementares direitos de muitos, não é apenas uma atitude egoísta . é, manifestamente, um comportamento abjecto.
Infelizmente, é cada vez mais essa a .forma de luta. adoptada pelas classes profissionais que, dependendo maioritariamente das contribuições do Estado, recorrem ao cidadão comum como arma para a satisfação de interesses e a obtenção de regalias . e, dos médicos aos trabalhadores da CP ou dos professores aos funcionários das autarquias todos encontram, na negação dos direitos dos outros, a afirmação dos seus objectivos.
De fora ficam, como é óbvio, todos aqueles de que o Poder só necessita para legitimar eleições, realizar receitas e custear benesses . os trabalhadores de entidades privadas, os reformados e os desempregados!
Espartilhados entre a histeria frenética da esquerda que apoia quaisquer manifestações de contestação social e a tibieza contumaz da direita que receia enfrentar os interesses instalados, a classe política que domina o Estado preocupa-se mais com a lógica simples de conquista e manutenção do Poder, do que com o exercício de uma função arbitral, isenta, rigorosa e verdadeira.
E que passaria, obviamente, pela imposição de um padrão ético minimamente aceitável às empresas como a Carris . que não podem limitar a sua prestação de serviços, aos intervalos entre as acções de protesto desenvolvidas pelos seus trabalhadores . obrigando-as, entre outras coisas, à devolução das verbas, indevida e antecipadamente recebidas, por um serviço que não prestaram.
E responsabilizando, clara e publicamente, a Administração e os trabalhadores dos serviços e das empresas como a Carris, pelos prejuízos . necessariamente não cobertos pelo Estado . que as respectivas decisões acarretassem.
Além de ser um acto da mais elementar justiça, a medida teria certamente um efeito pedagógico e de reforço da solidariedade nacional indiscutível . permitindo aos trabalhadores da Carris e de serviços e empresas similares sentir, no bolso e na pele, o mesmo tipo de sofrimento que aflige tantos dos nossos compatriotas, vítimas de salários em atraso e de desemprego.
E a quem resta procurar, com perseverança, por uma alternativa de emprego.
E aguardar, com resignação e à chuva, por um autocarro que não chega!
Publicado por blog-notas às janeiro 16, 2004 01:43 AM
Comentários
Parabéns pelo top. Merecidíssimo!
Um abração do
Zecatelhado
Publicado por: Zecatelhado em janeiro 20, 2004 12:24 AM