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dezembro 29, 2003

Um vómito de esquerda

Sob o título .Música pimba. o sr. Daniel Oliveira assina, no Barnabé, uma curta prosa que, pese embora o distanciamento temporal (foi publicado em 23 de Dezembro) nem por isso deixa de justificar um comentário.

Na simplicidade concisa do texto (que não é apenas chocante, como refere o autor num comentário que faz), consegue-se vislumbrar um pouco do quadro mental do seu autor, que patenteia uma pacóvia obsessão em dividir o mundo em .esquerda. e .direita. . alojando naquela os bons e os civilizados e enquadrando nesta última os maus e os incultos.

Para o sr. Daniel Oliveira, toda a riqueza da civilização humana se pode reduzir, pois, à definição do conceito da ambidextria, ficando o contributo nacional para este património civilizacional reduzido à manifestação gastronómica que constitui o caldo verde.

Circunscritos à mediocridade civilizacional assente na Crucífera espécie vegetal, Portugal deveria adoptar como brasão um talher cruzado, como bandeira um pano de loiça e como hino um arroto . ou, quiçá, a conhecida melodia .Bacalhau à portuguesa., imortalizada por Quim Barreiros.

O Hino Nacional poderá, como tantos hinos em tantos outros países, apelar a sentimentos de culto pátrio e de valores históricos que não têm qualquer significado nos dias de hoje, quer para o sr. Daniel Oliveira quer para tantos cidadãos em tantos outros países.

Como sou tolerante respeito, naturalmente, a opinião . muito embora discorde dela.

Até porque um povo é, necessariamente, feito de .muitas e desvairadas gentes. . e, não é por o sr. Daniel Oliveira cultivar o gosto de chegar atrasado, que todos temos que perfilhar a má educação e ostentar a arrogância de atitudes, manifestadas nesta forma elementar de desprezo pelos outros.

Entende igualmente o sr. Daniel Oliveira, que a nossa identidade cultural se firma mais .no apoio à criação de obras culturais portuguesas. do que numa História comum, esse arcaísmo tão absurdo como o conceito de Estado-Nação . cujo único mérito poderá ser o de ter ainda .alguma coisa a dar..

Porque, para o sr. Daniel Oliveira, é essa a suprema função do Estado: dar!

O Estado existe apenas para, num misto de Midas e de Isabel de Portugal, transformar em ouro tudo aquilo em que toca . e dar, dar sem cessar.

De preferência, para subsidiar .obras culturais. de prestígio.

Do tipo daquelas .que quem adora os simbolos pátrios chama de subsidiodependência. . filmes sem espectadores, representações sem público, exposições sem visitantes.

Se muitos portugueses odeiam .ver filmes feitos por portugueses. é essencialmente por se recusarem a pagar para ver obras medíocres, dirigidas por realizadores sem talento, e interpretadas por actores sem expressão . e não por serem de direita.

Fosse o número de espectadores a escala de sondagem das opções políticas do país, e a esquerda de que o sr. Daniel Oliveira tão orgulhosamente se assume, caberia à vontade numa das salas do Amoreiras . embora esteja em crer que, para albergar todo o conjunto de pseudo-artistas incompreendidos, houvesse que recorrer aos préstimos do estádio do Benfica.

É óbvio que há excepções . mas dessas, encarrega-se o público, que as sabe reconhecer e acarinhar, do mesmo modo simples mas verdadeiro com que, ainda hoje, assiste repetidamente a momentos de magistral representação, imortalizados no ecrã por Vasco Santana, António Silva ou Maria Matos.

Não desprezamos, como faz o sr. Daniel Oliveira, aquilo que é nacional . mas assiste-nos o direito de escolher.

Nem sempre teremos escolhido bem é um facto . mas, nem por isso, temos que nos envergonhar da nossa História, dos nossos valores ou dos nossos símbolos.

Bem sei que, para o sr. Daniel Oliveira, num Estado perfeito não haveria a preocupação de explicar às crianças .quem foi D. Urraca, antes de saberem quem foi Galileu. ou de ensinar .mais cedo a ideia de pátria do que a ideia de Mundo..

Infelizmente, não vivemos ainda numa sociedade perfeita . e acredito até que, será talvez por isso, que nas nossas escolas ainda vão existir muitas crianças a saber quem foi Fernando Pessoa antes de conhecerem Daniel Oliveira.

Que, como pessoa, tem todo o direito de expressar as suas opiniões, e até mesmo o de se recusar a .cantar o mesmo hino que canta Paulo Portas ou os militantes do PRN e da ND. - mas que também é cantado por muitos outros milhares de portugueses que, ao contrário do sr. Daniel Oliveira, não insultam a memória comum a pretexto de desprezarem um político efémero.

O texto do sr. Daniel Oliveira podia, até, pretender ser um libelo contra a direita e os valores tradicionais mas não passou, apenas, de um imenso e pútrido vómito sobre a esquerda.

Não sendo intransigente (nem suicida), não posso optar pelo estoicismo de recusar a inspiração do mesmo ar que oxigena as cavidades pulmonares do sr. Daniel Oliveira . pelo que, perante o fedor da prosa, resta-me torcer o nariz e seguir em frente!

Publicado por blog-notas às dezembro 29, 2003 11:58 PM

Comentários

No meio de tudo isto o melhor post foi o de um comentário, de David Cardoso. "Quer a esquerda quer à direita, o sentimento do nacionalismo e do patriotismo nada mais trouxe que guerra, sangue, orgulho e crime".
Completamente verdade e não há~hipótese de contradizer...
Tenho 17 anos e sinto já que o hino nada me diz. Felizmente que nada me diz, infelizmente que alguém o cante...

Publicado por: Fábio Salgado em janeiro 25, 2004 12:08 AM

Tenho vindo a reparar que o tamanho médio dos posts é inversamente proporcional ao interesse do seu conteúdo.
A ausência de sentido de humor neste enorme post, aumenta a minha suspeita.O seu tom coloquial e desproporcionado confirma-a.

Publicado por: eclipses em janeiro 3, 2004 01:44 AM

Bravo?!

Porquê? Então agora as conversas de encher pneus também merecem aclamação? Se as preocupações de Daniel Oliveira não fazem sentido, porque há tanta chatice para resolver, que dizer deste blog-notas?
Finíssimo gosto, sim senhor.
Infelizmente, não vivemos ainda numa sociedade perfeita? Ainda bem, porque se a amostra é dada por si, não muito obrigado. Terra de parolos.

Publicado por: Jacinto José Carlos em janeiro 1, 2004 05:10 PM

Concordo plenamente com a sua opnião. Já tinha comentado essa ridícula situaçõ no meu blog, neste post http://nemoscasnemosquitos.blogspot.com/2003_12_01_nemoscasnemosquitos_archive.html#107222538722258767 .
Continuação de bom trabalho!

Publicado por: IML em dezembro 31, 2003 06:15 PM

Quer a esquerda quer à direita, o sentimento do nacionalismo e do patriotismo nada mais trouxe que guerra, sangue, orgulho e crime. Nada de bom, no meu ponto de vista. E o hino português "contra os canhões marchar marchar"??!! Marchem lá vocês, cambada de suicidas! Assim como assim, ninguém em Portugal (nem os jogadores de futebol) sabe o hino. Acabe-se lá com o patriotismo e dê-se valor à humanidade e aos valores universalmente bons... se existirem.

Publicado por: David Cardoso em dezembro 31, 2003 12:08 PM

Bravo!

Publicado por: AB em dezembro 30, 2003 10:04 PM