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dezembro 11, 2003

O boião de cultura

A propósito da subsídio-dependência que caracteriza uma certa (mas numerosa) franja da intelectualidade artística nacional, o Crítico Musical insurgiu-se contra o texto onde os Jaquinzinhos desmontam a argumentação falaciosa utilizada pelos defensores .dessa abominável entidade que é o subsídio às actividades culturais..

O texto do Crítico Musical evidencia, desde logo, alguns aspectos fundamentais do seu autor . que, sendo Crítico, é inevitavelmente culto e, sendo culto, não é liberal (nem tão-pouco matarruano ou empresário).

O Crítico Musical é, por conseguinte, um dos nossos ilustres concidadãos que, a pretexto da defesa da Cultura, advoga a atribuição de subsídios para a realização de filmes que ninguém vê, a montagem de exposições que ninguém visita e o apoio a artistas cuja obra ninguém entende.

Para esta elite cultural, é ao Estado que compete garantir .o incentivo aos novos criadores (...) sobretudo em áreas onde não existe espaço para afirmação por falta de indústria privada..

Nesta lógica de sôfrego e despudorado parasitismo, o que está em causa não é a real qualidade dos autores ou o público reconhecimento dos trabalhos mas sim a obrigação de todos suportarem os delírios de alguns - até que, num futuro longínquo, e .depois de formado o público, trabalho de gerações., possa então haver espaço .para se irem acabando os financiamentos estatais..

Até lá, matarruanos, empresários, liberais, adeptos do ski, incultos ou cidadãos em geral temos a obrigação de nos orgulhar e o dever de subvencionar este escol de erudição - mas não nos compete questionar a qualidade das propostas culturais porque isso é um atributo das mentes superiores.

Que importa que uma exposição não seja visitada se, sobre o autor e a obra, há quem seja capaz de explicar que .não é irrelevante que o .object trouvé. se desligue da dimensão de acaso e incerteza semântica que lhe está em geral associado, prendendo-o a uma estranheza original que o acto criador do artista potencia, para, pelo contrário, transportar agora, sem ambiguidade, uma identidade funcional e uma autoria, ambas de matriz popular.?

A quem interessa que o espectáculo ingenuamente considerado como de (péssima) dança fosse, afinal, de (ainda pior) teatro se, a respeito do mesmo, se poderia escrever que .o resultado é sempre iminentemente instável, continuamente desestabilizado e desestabilizante; daí a necessidade da ilusão figurativa, impregnada pelo germe que foi buscá-la ao imprevisto, trazendo-a para um estado de constante iminência, que não permita que a ideia se consolide ou se mantenha na aparência e que a forma se feche ou acabe.?

A matriz de raciocínio destes .arautos da cultura. assenta, como se pode ver, num estilo de obscura verborreia, típico de uma sociedade onde os membros são cooptados, escrevem uns para os outros e se elogiam entre si.

É por isso, e apenas por isso, que Marco Paulo e Mónica Sintra estão, para a crítica, nos antípodas de um Carlos Nogueira ou de um José Pedro Croft.

Houvesse uma alma caridosa e erudita que dissesse, da lírica de Marco Paulo ou das prestações de Mónica Sintra qualquer coisa como .a transversalidade minimalista patenteada na discografia destes autores, evidencia um conceptualismo cuja estruturação é, poder-se-ia dizer, quase que semiótica, focada numa ambivalência de idiossincracia, cuja extemporaneidade se refracta na prolixidade melódica sem, no entanto, tergiversar quanto à substância nem obnubilar quanto ao fundamento. e, ambos os cantores, poderiam não vender um disco mas seriam, certamente, artistas de referência.

Assim, são apenas .músicos pimba.!

Pessoalmente, prefiro Mozart ou Puccini . mas reconheço a Marco Paulo e a Mónica Sintra o mérito de uma carreira que não precisou da bajulação a intelectuais para se afirmar!

Porque, o livre arbítrio e o mercado premeiam o trabalho e o esforço . mas castigam severamente a preguiça!

Publicado por blog-notas às dezembro 11, 2003 11:58 PM

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Comentários

MAIS DO MESMO:
Crítico Musical vs Jaquinzinhos (Parte II)
Parece que o Crítico Musical continua igual a ele próprio. É evidente que sem subsídio não há tacho e sem tacho não há Crítico.
A subsídio-dependência é, talvez, o melhor veículo para a pobreza cultural dum povo.
Mal de nós se as grandes criações artisticas tivessem dependido de subsídios... e de Críticos...

Publicado por: maizum em dezembro 12, 2003 01:23 AM

Blog-Notas, não é realmente admissível estar dependente de subsídios para criar arte (sobretudo quando o resultado é deplorável como tantos filmes portugueses), mas há casos em que só o estado ou outros ajudando ela sobrevive. Estou-me a lembrar, por exemplo, das companhias de teatro do Interior que demonstrem qualidade. Uma outra maneira de apoiar a arte de alto gabarito é a divulgação do mecenato. As grandes obras renascentistas italianas nasceram assim.
Um abraço.

Publicado por: Rui em dezembro 12, 2003 01:14 PM

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