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outubro 07, 2003
A CIGARRA E A FORMIGA
VERSÃO ANTIGA
A formiga trabalha arduamente, debaixo de um calor abrasador, durante todo o Verão, construindo a sua casa e armazenando provisões e mantimentos para aguentar o Inverno.
A cigarra pensa que a formiga é uma tola e ri, dança e brinca durante o Verão.
Chega o Inverno, e a formiga está confortável e bem alimentada.
A cigarra não tem comida nem abrigo e morre.
VERSÃO MODERNA E PORTUGUESA (em 18 capítulos)
I
A formiga trabalha arduamente, debaixo de um calor abrasador, durante todo o Verão, construindo a sua casa e armazenando provisões e mantimentos para aguentar o Inverno.
A cigarra pensa que a formiga é uma tola e ri, dança e brinca durante o Verão.
Chega o Inverno, e a enregelada cigarra convoca uma conferência de imprensa para denunciar a situação em que vive, pretendendo saber por que razão é permitido à formiga estar bem aquecida e alimentada enquanto outros sofrem com frio e fome.
II
RTP, SIC e TVI apresentam-se em força para transmitir imagens da pobre cigarra, completamente transfigurada pelo frio e pela fome, ao mesmo tempo que passam outras imagens da formiga na sua casa bem confortável e com a mesa cheia de boa comida.
O país está chocado perante este contraste.
Como é possível, nos dias que correm, uma pobre cigarra sofrer tanto?
Durante semanas não se fala de outra coisa.
III
O Primeiro-Ministro aparece num programa especial da RTP com um ar consternadíssimo, repetindo, vezes sem conta, que o Governo fará tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar a pobre cigarra, a qual, como toda a gente deverá entender, está a ser vítima da má política dos anteriores governos do PS.
IV
O Padre Vitor Melícias desdobra-se em esforços para angariar toda a ajuda possível, implementando um peditório, a nível nacional, para que a cigarra possa viver com alguma dignidade.
Simultaneamente, a CGD abre uma conta especial, onde qualquer pessoa pode efectuar um depósito, contribuindo, assim, para mais uma ajuda preciosa.
V
O secretário-geral do PCP, numa entrevista a Manuela Moura Guedes, comenta que a formiga enriqueceu à custa da cigarra, resultado de uma gestão danosa da política de direita, que sempre prejudicou os mais necessitados, e apela ao Primeiro-Ministro para que seja criado um aumento significativo do IRS, através de um escalão especial, por forma a que a formiga pague o valor justo em relação àquilo que ganhou.
VI
O Bloco de Esquerda exige a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a demissão do Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, do Ministro da Economia e do Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente.
VII
O líder do maior partido da oposição, acusa o Primeiro-Ministro de estar ausente e à margem da crise social evidenciada pela desgraça da cigarra, e exige a criação de outra Comissão Parlamentar de Inquérito, e a demissão da Ministra de Estado e das Finanças, do Ministro da Administração Interna e da Ministra da Justiça, bem como a reavaliação da Lei-Quadro do Rendimento Cigarral Mínimo.
VIII
Num movimento sem precedentes, o líder do CDS/PP aparece abraçado à cigarra, em todas as feiras e mercados, e chama a atenção para a necessidade de limitar a imigração de insectos (em particular de outras formigas).
IX
Tentando acompanhar a situação política, o Comité Central do PCP convoca uma conferência de imprensa para propor a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, e exigir a demissão do Ministro de Estado e da Defesa Nacional, do Ministro da Segurança Social e Trabalho e do Ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação.
X
A Câmara Municipal de Lisboa inunda a capital com cartazes onde se pode ler .Já viu que esta rua não tem formigas?.
XI
A CGTP e a UGT, preocupadas com a diminuição do poder de compra da cigarra, organizam marchas de protesto, apelam à Assembleia da República para que crie uma Comissão Parlamentar de Inquérito, e exigem do Primeiro-Ministro a imediata demissão do Ministro da Educação, do Ministro da Cultura e do Ministro da Saúde.
XII
Cedendo à imensa pressão nacional, o Governo cria uma Secretaria de Estado, dependente do Ministério das Finanças, e implementa um programa chamado "Igualdade Económica e Acções Anti-Formiga", com efeitos ao princípio do Verão, e que obriga a formiga a pagar os novos impostos com retroactivos.
Como a formiga não estava preparada para pagar, a sua casa foi confiscada pelo Governo.
XIII
O Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro, o Ministro da Presidência e o Ministro dos Assuntos Parlamentares convocam uma conferência de imprensa e, numa atitude inédita, lamentam que nenhuma força social tenha contestado a sua permanência no Governo, e informam o País que, por essa razão, apresentaram a demissão ao Primeiro-Ministro.
XIV
A firma de advogados de Vale e Azevedo, representando a cigarra, apresentou em tribunal um processo contra a formiga, por abuso e fuga aos impostos, tendo a formiga perdido a causa, sem qualquer hipótese de recurso.
A formiga desaparece e ninguém mais lhe põe a vista em cima.
XV
Em todos os canais da televisão, o Presidente da República, com o seu entusiasmo habitual, anuncia que foi feita justiça e que uma nova era de integridade e equidade nasceu em Portugal.
XVI
Lili Caneças, querendo tirar mais umas fotografias, organizou uma grande festa de beneficência, onde estiveram presentes todos os nomes conhecidos da política, artes, moda, teatro, cinema, música, desporto, etc.
Com o dinheiro que ganhou de todos estes movimentos nacionais de solidariedade, bem como da venda de grande parte da comida da formiga, a cigarra vive dias com que nunca sonhou.
Grandes festas, jantaradas, casinos, jogo, mais festas e mais jantaradas, oportunistas, más companhias, e o dinheiro desaparece depressa.
XVII
Entretanto, é noticiado em diversos órgãos da comunicação social internacional, o retumbante sucesso obtido pela a formiga portuguesa, no país desenvolvido para onde, entretanto, tinha emigrado . salientando-se, nomeadamente, os bons serviços e enormes mais-valias acrescentadas ao sector industrial e comercial resultantes da sua capacidade empreendedora.
XVIII
A história acaba com as imagens da cigarra a comer o último bocadinho de comida que a formiga tinha armazenado, dentro da casa que agora pertence ao Governo, mas que, por falta de verba para proceder à sua manutenção, se encontra completamente degradada.
Epílogo
A cigarra, entretanto, foi encontrada morta num beco, resultado de um incidente relacionado com drogas, e a casa, agora abandonada, é utilizada por um bando de delinquentes que vive aterrorizando o que, em tempos, era uma pacífica vizinhança.
N. do A. - O Ministro da Ciência e do Ensino Superior e o Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas, acusados de irregularidades visando a formação académica da formiga, foram demitidos antes do início da história.
Publicado por blog-notas às outubro 7, 2003 11:57 PM
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Comentários
Texto genial. O que mais assusta é a boa hipótese de vir a passar-se a curto prazo, para não dizer que pelo menos um dos capitulos acontece todos os dias...
Publicado por: gato preto em outubro 8, 2003 12:06 AM
Só uma palavra: FANTÁSTICO.
Ass. AC, um leitor-insectóide, profundo conhecedor deste maravilhoso blog-notas.
Publicado por: AC em outubro 11, 2003 12:20 AM
Já copiei pra ler à noite ao meu filho. Aguardo ansiosamente a do escorpião e da rã, da raposa e das uvas, etc.
Publicado por: LM em outubro 15, 2003 12:33 PM
É muito engraçado porque é uma satira do mundo em que vivemos. Mas não é só cá. Infelizmente a estupidez, a hipocrisia, a falta de coragem da desafiar o "politicamente correcto" invadem o mundo. E nós, que até nem sofriamos muito deste mal, como morremos de pavor de não ser "europeus", acabámos por nos deixar contagiar. Sabem do que é que tenho saudades? Tenho saudades de ir ao Ginjal ao Domingo, daquela altura em que nos Santos Populares quando a música não se ouvia música brasileira de décima quinta, e a sardinha era fresca, e os pais não violavam as filhas, nem os filhos, enfim... e o Manuel de Oliveira ainda só tinha feito o "Aniki Bóbó", e a gente ainda podia pensar que ele era um realizador. Bons tempos!
Publicado por: vanda leitão em outubro 15, 2003 04:26 PM