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outubro 04, 2003

Um animal em vias de extinção

Vivemos num País de bárbaros!

Ao pedir a demissão de mais um responsável político, a Oposição portou-se mais uma vez como uma qualquer Salomé que, despeitada com a falta de atenção que os detentores do Poder prestam aos coleantes movimentos das suas nádegas esquálidas, desatam a berrar pela cabeça do primeiro S. João Batista que lhes apareça pela frente.

Porque, à falta de melhor e perante uma certa dormência da opinião pública (que encara com resignada naturalidade que os ministros assinem despachos), pouco mais resta aos afastados do poleiro do que bramir pela queda dos que lá se encontram.

Não é fácil a vida para a Oposição . obrigada a aguar constantemente, quer por avidez de experimentar as difíceis e pungentes sinecuras do poder, quer por recordatório desgosto das prebendas doutros tempos.

Mas, não é igualmente fácil a vida de um ministro, de quem muito espera o País . e, mais ainda, o partido, os familiares e os amigos.

Porque, afinal, o que é um ministro?

Um ministro é mais do que um Secretário de Estado; é mais do que um recitador de discursos; mais do que um pregoeiro de reformas; mais do que um inaugurador de troços alcatroados; mais do que um sonolento presidente de fastidiosas sessões públicas; mais do que um condenado a enfrentar as protestantes nádegas estudantis; mais até do que o presidente do Clube de Futebol de Sassoeiros . embora bastante menos que o Presidente do Futebol Clube do Porto.

E, do mesmo modo que o capitão de um navio, o ministro também deve dispor de instrumentos que lhe permitam guiar, com mão firme e segura, a pesada nau da governação . permanentemente fustigada por opções de alto risco como a escolha de assessores e manobrando entre rochedos traiçoeiros como a criação de grupos de trabalho.

É por isso que, de um ministro, se espera que também assine despachos.

E que nomeie a família; os amigos; os conhecidos; os membros da secção do partido; os vizinhos do lado; os companheiros de caça; os primos da província; os adversários do bridge; os confrades; alguns parceiros da colectividade de bairro ou do clube desportivo.

Quando se vai a ministro, não se vai sozinho - leva-se a agenda telefónica; o rol das compras; a lista de destinos exóticos a visitar e de personalidades a conhecer; o guia Michelin de restaurantes; o catálogo da Mercedes, da Volvo e da BMW.

Na prática, a função executiva está, para o despacho do político, como a indústria farmacêutica para o receituário de alguns clínicos . já que, em ambas as situações, se pode descortinar o mesmo e estranho sortilégio pela venalidade.

A função não é, definitivamente, bem paga . mas funciona como os Certificados de Aforro: é uma aplicação financeira, necessita de pouco capital inicial, a taxa de rentabilidade, embora baixa, é garantida pelo Estado, existe um prémio de permanência e, last but not least, é resgatável quase de imediato e sem chatices.

Os uivos despeitados e a viscosa salivação com que a Oposição se atirou ao felídeo ministro são, pois, politicamente compreensíveis mas ecologicamente reprováveis.

Politicamente compreensíveis porque falar de ética e exigir demissões são as funções principais que se esperam de uma qualquer Oposição . enquanto não é Governo.

Ecologicamente reprováveis porque, tal como os seus primos da Malcata, este lince político também é um animal em extinção.

Porque, em boa verdade, os animais políticos não costumam sair sozinhos.

Regra geral, só mesmo quando são (muito) empurrados!

Publicado por blog-notas às outubro 4, 2003 09:57 PM

Comentários

oi muito informativo!

Publicado por: Silvia Giurtunica em fevereiro 28, 2004 11:47 PM

A sair saiam os dois.
Tão gatuno é o que rouba, como o que fica à porta!
Mas a ter de sair um, porque eram demais, então saiu o errado.
Sabia que ia embaraçar a estrutura do ministério do seu colega (até admito que nem supunha que ia chegar a ele), foi aconsenhado pelos seus serviços jurídicos a não o fazer, e mesmo assim não aconselhou a filha a não fazer uma coisa daquelas, se calhar até instigou!

Publicado por: nicles em outubro 5, 2003 05:54 PM

Não partilho da sua defesa ecológica pela espécie política do lince - mas concordo no aspecto que mais importa.

Não gosto de comentar (argh!) política doméstica. Mas por uma vez (sem exemplo,hein?!) estou do lado de um ministro. Demitir-se por causa disto é um atentado à política. Fazer-se um escarcéu todo o tamanho por causa do acto administrativo que permitiu a uma boa aluna continuar os estudos é algo que aos meus olhos diminui (bastante) a oposição. E o governo. Durão devia ter feito jus ao nome e aguentar Lynce. E olhem que eu nem gosto do Lynce! Mas um ministro tem o direito de ser julgado pelos seus actos - e não por mesquinhezes destas.

Publicado por: Paulo em outubro 4, 2003 10:37 PM