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agosto 25, 2003
Dos blogs à Comissão Nacional de Protecção de Dados
Li, ontem, no extracto de um e-mail enviado a Santa Ignorância, que "os blogues estão para os portugueses na exacta medida que as bolas de futebol está para os brasileiros, os touros para os espanhóis, a cerveja para os alemães, doze paus de dinamite e um bom fio condutor para os palestinianos, um presidente burro para os americanos: são o veículo ideal para aquilo que realmente eles sabem e se sentem bem a fazer. No nosso caso, a arte de OPINAR."
(...)
Por toda a parte, se estiveres minimamente atento, encontras as pessoas mais insuspeitas deste mundo a dizer as maiores barbaridades deste mundo como se de um dogma se tratasse. E, atenção, é isto que eu condeno. Agrada-me muito a discussão e estimulam-me os pontos de vista diametralmente opostos. Mas odeio, odeio, odeio, quem fala sem ter conhecimento de causa, quem acha que tem obrigatoriamente de ter opinião sobre tudo de tudo, mesmo que não saiba nada de nada..
(...)
.Mas voltando aos blogues. Acho honestamente que se trata da invenção da década (pelo menos) para todos aqueles que diariamente sempre sonharam em ser .opinion-makers. de estampa."
Possa-se embora concordar com algumas das considerações referidas, não deixa de ser questionável a generalização - nem todos os palestinianos serão versados em engenhos explosivos improvisados e acredito que uma parte significativa dos cidadãos americanos não se revê nos comportamentos da Administração Bush.
Além do mais, num país como Portugal, parece pelo menos duvidoso que os blogs sejam .um veículo ideal para opinar. para a maioria . tendo em conta que os indicadores de 2000 ainda referiam que mais de 66% dos portugueses nunca tinham usado a internet.
Verifica-se, no entanto, que o fenómeno dos blogs, que já havia sido alvo de uma também .brilhante. apreciação de Luís Delgado . comentada, em tempo, nas silhuetas e nas irreflexões e, na passada madrugada, num texto lançado pel.o vento lá fora . parece, cada vez mais, constituir-se como óbvio desabafo para uns e evidente engulho para outros.
Empurrados para a condição de simples e periódicos eleitores, parece óbvia a necessidade que os portugueses têm de dar voz ao que lhes vai na alma . quer seja ao balcão do café da aldeia, na conversa na sala de espera do centro de saúde ou através da sofisticada (mas pouco democrática) tecnologia do blog - tanto mais que muitos não se revêem num sistema que só os acarinha e cumula de atenções nas campanhas eleitorais (60% dos abstencionistas em 2002 justificam a atitude com base em causas de natureza puramente político-partidária).
Impedidos (até por deficiente formação e informação) de participar activamente nos problemas do seu quotidiano, ignorados por uma Administração prepotente e despersonalizada, descrentes na eficácia dos serviços públicos, esgotados por combates desiguais, sedentos de uma justiça que tarda, como hão-de os portugueses fazer ouvir a sua voz?
Esgotando a sua participação cívica nos cortes de estrada? Nos bloqueios das linhas férreas? Organizando buzinões? Insultando as forças da ordem? Pagando as portagens com moedas de cêntimo? Ou permitindo aos .opinion makers. do costume a responsabilidade de se arvorarem em voz do povo e consciência crítica do sistema?
Não se sentindo devidamente representados pelos políticos (que sempre podem invocar a legitimidade decorrente do voto popular), porque haveriam os portugueses de se submeter à representação de jornalistas e comentadores?
Fala-se .sem ter conhecimento de causa.? E depois? Que se pretende então?
Que não se critique o seleccionador nacional se não se for jogador de futebol? Que não se conteste o serviço de saúde se não se for médico? Que não se lamente a lentidão da justiça se não se for juiz? Que não se discuta a criminalidade se não se for polícia? Que não se refile contra a inflação se não se for economista? Que não se comente os incêndios se não se for bombeiro?
E a cor do carro? Poderemos discuti-la com o vendedor.... ou apenas se formos pintores?
Este raciocínio algo redutor, parece esquecer que, na sua essência, os blogs são apenas considerandos pessoais em forma pública . e, como tal, sujeitos apenas à vontade do seu autor, ainda que acessíveis a quem os procure mas recatados para quem os ignore.
Não fossem os blogs, e eu não poderia ter lido, n.o-teste-de-Turing que .existe um projecto para vigilância florestal da Universidade do Minho, o Vigilia, que não está a ser utilizado por problemas de legislação no que toca à privacidade das pessoas!..
A citação é de uma notícia de 21 de Julho de 2003, onde se refere que .a aplicação prática do sistema - VIGÍLia - depende da aprovação de legislação pela Assembleia da República, uma vez que as máquinas fotográficas que o integram permitem identificar pessoas."O sistema ainda não está activo porque a comissão de protecção de acesso a dados pessoais não permite a sua operação. Estamos à espera que a Assembleia da República aprove legislação para começarmos a operar", afirmou Silva Costa, presidente do Instituto de Conservação da Natureza (ICN), em declarações à Lusa..
Em Portugal, país onde aparentemente todos falamos sobre tudo mas onde o Estado não actua sobre nada, a fazer fé nas notícias publicadas por aí, constatamos que:
.Cinco pessoas, quatro das quais seguranças da discoteca Kremlin, foram baleadas esta manhã na Avenida 24 de Julho por barrarem a entrada a um grupo de clientes no local, já perto das 08h00 de hoje. O grupo fugiu, depois de ter baleado um porteiro da discoteca duas vezes na cabeça (...) A identificação dos autores dos disparos deve ser facilitada pela existência de câmaras de vigilância na entrada da discoteca."
Publico, 2001-03-17 - 09h19:00
.A Carris apresentou, esta manhã, o novo sistema de video-vigilância dos seus autocarros, que passarão a contar agora com um videogravador e três ou quatro câmaras de vídeo que transmitem as imagens simultaneamente para a Central de Comando de Tráfego da Carris e para o Centro de Comando e Controlo da PSP, permitindo uma actuação mais eficaz da polícia em caso de incidente."
Publico, 2001-06-22 - 16h15:00
.O Parque Natural da Arrábida e a Reserva Natural do Estuário do Sado vão beneficiar de um projecto de televigilância, 24 horas por dia, para ajudar a tarefa dos vigilantes destas áreas protegidas. A direcção das áreas vai apresentar o projecto hoje à tarde e definir a calendarização.
Tirando a exclusividade aos programas de televisão, a direcção do Parque Natural da Arrábida e da Reserva Natural do Estuário do Sado vai poder vigiar, de dia e de noite, tudo o que se passa na sua "casa", através da instalação de câmaras que fazem chegar à central imagens em directo..
Publico, 2001-03-12 - 13h18:00
Se, de facto, a Comissão Nacional de Protecção de Dados ainda não se pronunciou sobre a legalidade do sistema VIGÍLia, resta-nos concluir que:
a) Parece ser mais grave o registo de um casal de adolescentes a beijar-se debaixo de um carvalho, do que o de um marido eufórico a entrar na discoteca da moda de mão dada com a cabeleireira da mulher;
b) Apresenta aspectos de constitucionalidade mais duvidosa o registo de um campista norueguês a defecar atrás de um sobreiro, do que o da deslocação de um turista escocês no autocarro 43;
c) Não é atentatório da liberdade dos cidadãos a filmagem de uma soneca no parque natural da Arrábida . mas constitui grave irregularidade a recolha de imagens quando num matagal em Oleiros.
Sobre a incongruência das decisões e a lerdice da Comissão não vale a pena escrever mais . bastando apenas voltar ao artigo inicial para referir que .o aparente desinteresse das autoridades portuguesas por este sistema pode implicar que ele venha a ser aplicado no estrangeiro antes de ser usado em território nacional..
Por muito que seja .odiado, odiado, odiado. não posso calar a minha indignação.
Se outros a subscrevem....só me apraz saber que não estou só!!!
Publicado por blog-notas às agosto 25, 2003 11:50 PM
Comentários
Parece que a comissão de dados está mais interessada em árvores do que no tráfico de bases de dados....
Publicado por: Mário em agosto 31, 2003 11:34 AM
Porque só algumas pessoas, que pouco mais que conhecem que a Lisboa almofadada e a universidade privada que frequentaram, terão toda a legitimidade de expressar as suas opiniões, enquanto os outros não?
Publicado por: Rui em agosto 30, 2003 05:23 PM
Caríssimo,
Obrigado pela visita ao Templo da Ignorância. Naturalmente que concordo consigo sobre a liberdade natural de cada um, através do seu blog, dizer e opinar sobre o que quer que seja, aliás é exactamente isso que fazemos no Santa Ignorância, bem como o direito de cada um usar as "armas" ao seu dispor para criticar aqueles que elege. Só gostava de dar a entender (ainda que ache que também percebeu)que o sentido do mail que citou não era o de uma crítica aos blogues, apenas uma análise ao fenómeno por parte de quem ainda está fora da comunidade. Aliás se reparar eu transcrevo o mail dizendo que aquilo era o que o Eduardo Prado Coelho gostaria de ter dito quando escreveu sobre os nossos cantos de opinião.
A crítica que o autor do mail pretendia fazer, depreendo, era precisamente aos que opinam em espaços onde a nossa liberdade de os visionar não é total. Explicando-me. Na Internet eu venho ao seu blog. Descubro-o, leio-o, adiciono-o aos favoritos ou desapareço. Na televisão, no jornal eu também tenho direito de ler ou não ler, de ver ou não ver, mas "implicitamente" acabamos sempre por ler ou ouvir quem achamos que está lá apenas a dizer bacoradas como se de um grande entendido se tratasse. Exactamente por esses meios serem escassos (a TV e a Imprensa) deveria haver outro cuidado quanto aos entendidos que se escolhem.
Um abraço,
Publicado por: adeodato em agosto 26, 2003 05:32 PM
Subscrevo com muito gosto o seu post.É transparente e mostra quanto e qual o valor dos blogs. Duvido que este seu texto fosse publicado na íntegra em qualquer jornal comercial.
Parece-me que começa a desenvolver-se uma corrente, julgo que potenciada por jornalistas sem coragem,para fazer crer que os blogs são uma manifestação de narcisismo e sobretudo permitindo aos "ignorantes" que atirem "bocas"! A esses senhores eu tenho de dizer que os "ignorantes" são os utentes, os que pagam impostos para que a sociedade sobreviva e que sabem muito bem o que os incomoda. Não sou médico, mas sei onde falha o serviço de saúde; não sou jurista, mas sei que a justiça é morosa e quando se manifesta já não faz justiça; não sou economista, sou licenciado em economia, mas sei que o problema do défice não se resolve com as medidas ditas "férreas" da ministra. E muito mais eu poderia dizer, porque me encaixo naquele grupo de "ignorantes" que têm o seu blog e que opinam.
Já vai longo o comentário e vou aproveitar o tema para opinar no meu blog.
Publicado por: manuel marques em agosto 26, 2003 04:06 PM