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agosto 09, 2003

Um Estado obsceno

A vaga de incêndios que assolou o País durante os últimos dias, ceifando vidas, arrasando sonhos e destruindo haveres, encontrou, mais uma vez, nas campanhas de solidariedade já lançadas (e independentemente de quaisquer considerações que, sobre a respectiva natureza e fins, possam ser feitas), a resposta da denominada .sociedade civil. ao imobilismo grosseiro da actuação do Estado.

Da tragédia das chamas, não restam apenas as cinzas das árvores e os escombros fumegantes, testemunhos negros de um património consumido pela impetuosidade ávida das labaredas; na gigantesca braseira dos pinheiros, eucaliptos e sobreiros foi também imolada a credibilidade do Estado, incapaz de cumprir cabalmente as tarefas fundamentais que lhe são cometidas pela Constituição.

Um Estado incompetente, injusto, desleixado, sôfrego de impostos mas avaro na generosidade, obstinado na contenção mas incauto na selecção, lerdo na avaliação, frouxo na decisão, demorado na actuação, que despreza os cidadãos que devia proteger, que não assume as suas limitações, que foge às suas responsabilidades, que se escuda atrás da inclemência das intempéries com a mesma desfaçatez com que avoca a protecção divina.

Um Estado que não é solidário, que sangra os cidadãos cumpridores, que esbanja na ostentação barata o que sonega nos direitos elementares, que fraqueja nas adversidades, que não tem arrojo nem audácia, que mendiga em Bruxelas mas exige em Lisboa, que expia com esmolas as culpas que não assume, que é prepotente com os fracos e servil com os poderosos, que premeia a submissão e castiga a discordância

Um Estado que pactua com a incompetência e protege a corrupção, que perpetua o sistema, que paga a traidores, que não se respeita nem se dá ao respeito, que é tacanho e obtuso, que faz da tibieza o seu hino e da cedência a sua bandeira, que não tem estratégia nem projecto, que não se revê no passado, não se afirma no presente nem se prepara para o futuro.

Portugal, definitivamente, merecia melhor!


P.S. - Tinha prometido a mim mesmo que (pelo menos tão depressa) não voltaria a desabafar sobre este assunto - mas, a desolação que hoje verifiquei in loco fez-me quebrar a promessa...

Publicado por blog-notas às agosto 9, 2003 03:52 AM

Comentários

Realço a criteriosa utilização do vocábulo "obsceno". Recordo-me sempre que a ouço de um texto de Marcuse que dizia não ser obsceno um corpo nu mas sim um general carregado de medalhas ganhas numa guerra sem sentido. Marcuse à parte, eis uma palavra que ganharia em ser colocada nesse contexto: contrário à moral;
desonesto.

Publicado por: Luis Ene em agosto 20, 2003 03:42 PM

até parece que a esquerda não tem culpa de nada!
nem sei porque é que põe o Blog de Esquerda no lixo: lá é que os seus textos parece que ficavam bem

Publicado por: Eu em agosto 13, 2003 01:11 PM

Estes gajos do Governo são uns palhaços!
Onde esteve o nosso 1º qdo precisamos dele?
Pq nao demite esses palhaços que so dizem asneiras como o Ministro do Ambiente, o tipo da Proteccao Civil e aquele alarve que é o presidente da bancada parlamentar do PPD ?

Publicado por: fueg0 em agosto 12, 2003 09:09 PM

Peço-lhe encarecidamente que continue com os seus posts seguindo a orientação que vem determinando aos seus escritos. É necessário que os cidadãos se façam ouvir e que todos se consciencializem sobre o seu Portugal. O que agora aconteceu com os fogos florestais, amanhã acontecerá com outra qualquer catástrofe, seja ela qual fôr -rural ou urbana-.
Nós não temos referências, os dirigentes não sabem dirigir e os executantes não sabem executar simplesmente porque, uns não foram ensinados e outros não foram comandados.

Publicado por: Manuel Marques em agosto 11, 2003 01:26 AM