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agosto 06, 2003

Carta aberta ao Zé Manel

Meu caro Zé:

Desculpará, por certo, que me dirija de modo tão informal a uma pessoa com o seu estatuto mas, afinal, escrever num blog não é mais do que um modo tecnologicamente evoluído de escrever nas folhas de um diário pessoal . e, como tal, constituindo-se apenas como registo e/ou desabafo.

E, meu caro amigo, é apenas de um desabafo que tratam estas linhas - já que não lhe vou pedir .um tacho., nem que subscreva a minha proposta de filiação no Partido, nem sequer que me empreste dinheiro para liquidar o PEC.

Embora correndo o risco de parecer presunçoso, limito-me a tecer algumas considerações sobre a tragédia que tem assolado o País nestes últimos dias.

Já se sabe que, sendo Portugal um país mediterrâneo, é do ponto de vista climático caracterizado por Verões quentes e secos, antecedidos de Invernos frios e chuvosos.

Sabemos, de igual modo, que a conjugação deste cenário climático com a existência de áreas de topografia acidentada cobertas por vegetação pirofítica torna-o bastante susceptível à ocorrência de fogos florestais, tendência essa que tem vindo a ser reforçada por mudanças demográficas e socio-económicas prevalecentes nas zonas rurais, durante as últimas décadas.

É também por isso que os incêndios florestais são, na época do Verão, uma calamidade que destrói grande parte da floresta de Portugal, tendo por causas fundamentais o descuido (30%), o crime (25%), naturais (10%) e desconhecidas (35%).

E, sendo estas as causas da calamidade que contribui para que a capacidade produtiva da fileira florestal diminua consideravelmente todos os anos, parece necessário intervir fortemente em campanhas de sensibilização, na vertente da prevenção e na detecção.

A inércia, o desleixo e a anarquia florestal, tornam essencial esta prevenção bem como o desenvolvimento dos meios e infra - estruturas, num momento em que a .Coisa Pública. exige e reclama economia e contenção.

Aliás, aos prejuízos verificados em material lenhoso, há que associar os custos de combate e de posterior reflorestação, para além dos custos indirectos de difícil contabilização, como sejam as perdas em biodiversidade e de solo por erosão, os acréscimos de CO2 na atmosfera e consequentes perturbações ao nível da camada de ozono, para além dos prejuízos de ordem sócio-económica.

Face a este cenário, importa inverter esta tendência através de uma acção concertada, ao nível da prevenção, nas vertentes de uma sensibilização dirigida aos principais agentes causais e de uma silvicultura preventiva adequada, e ao nível do combate, através de uma melhor organização da coordenação dos meios e da sua capacidade de antecipação e rapidez de actuação

Por isso, e sabendo-se que não serão fáceis os próximos tempos, face à situação a que chegámos e aos resultados verificados nas últimas épocas, é necessário que, no que se refere à prevenção, seja exigida uma outra atitude, inconformista e de inovação.

Porque, se queremos um futuro com melhores dias e dias mais seguros, o sucesso passa por ir em frente com objectivos bem definidos e tendo os instrumentos de acção que permitam atingir esses fins, fazer escolhas e acompanhar o desenrolar da concretização, evitando actuações sem critério e sem avaliação prévia das consequências.

Nada é mais pernicioso do que não ter ideias e conceitos acerca do que se quer ou, tendo-as, fazer o contrário do que faz sentido.

É claro que um Governo não faz só as coisas certas; tem de as fazer no tempo certo e ao ritmo mais ajustado, interpretando o sentido da evolução das coisas e introduzindo as mudanças que critérios de eficácia e racionalização aconselham.

Mas, uma nova atitude política é igualmente indispensável.

Que traga clareza no discurso, verdade na acção, convicção e coragem na decisão, espírito de combate e não sentimento de resignação, capacidade para mobilizar energias e elevar a auto-estima nacional, vontade de inovar, de empreender e de reformar.

É fundamental que os cidadãos tenham confiança nas Instituições e não se vejam frequentemente confrontados com a impotência do Estado na resolução dos graves problemas que nos afectam.

Aliás, só com Instituições bem organizadas, competentes e prestigiadas, será mais fácil garantir a intervenção mobilizada de todos, quando for preciso apelar para a prática efectiva dos valores da solidariedade e da entreajuda perante a urgência de socorrer quem carece de protecção.

É este carácter de urgência no socorro que não é compatível com a existência de organismos convergindo na mesma área de serviço público, sabendo-se que isso origina, tantas vezes, situações de sobreposição e de duplicação e constitui, habitualmente, fonte de descoordenação, de falta de eficácia e de desperdício de meios . e que contribuem, no terreno, para a morosidade nas respostas a situações de emergência concretas, para as quais os cidadãos e o interesse público exigem medidas de socorro imediatas ou atempadas

Julgo até que em situações com a gravidade daquelas que atingiram o País nos últimos dias, se tornava indispensável assegurar:
- uma eficaz coordenação dos meios e estruturas postos à disposição da Protecção Civil;
- a programação, com a necessária antecedência, de um conjunto de medidas de prevenção dos fogos florestais;
- o apetrechamento dos bombeiros com equipamentos adequados e a garantia da sua articulação com as Forças Armadas, com o recurso aos meios de combate aos fogos florestais.

Meu caro Zé, embora eu seja apenas um humilde e anónimo cidadão, sei que não deixará de fazer a justiça de reconhecer que há muito de verdade naquilo que atrás escrevi . sobretudo tendo em atenção que, a partir do quarto parágrafo inclusive, me limitei a transcrever trechos de documentos oficiais e de discursos de membros do seu Gabinete, recolhidos no site do Governo.

Não estivesse ainda .em construção. o site do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil e, quiçá eu pudesse, aqui e agora, colmatar o vexame da inépcia evidenciada pelo representante deste serviço no debate .Especial Informação: Maré de Chamas. (RTP-1, 5 de Agosto) e informá-lo, a si e a ele, do número exacto de bombeiros que aquele serviço superintende.

Um abraço de amizade,


Referências:
Programa do governo
Discurso do Ministro da Administração Interna, 2 Abril 2003
Discursos do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Interna, 29 Junho 2002, 29 Setembro 2002 e 31 Janeiro 2003
Incêndios Florestais.2002, Maio de 2003

Publicado por blog-notas às agosto 6, 2003 04:14 AM

Comentários

Clap! Clap! Clap! :)

Publicado por: A. em agosto 12, 2003 12:11 PM

Que pena que eu tenho que o Zé Manel esteja ocupado a puxar as orelhas dos seus Ministros e Deputados e não tenha tempo de ler esta carta.
É claro que os puxxões de orelhas nada têm a ver com a ineficácia deste desgoverno, mas sim com as baboseiras e enormidades que uns e outros têm dito.

Publicado por: Maria Ribeiro em agosto 7, 2003 07:58 PM