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julho 24, 2003
A culpa dos outros
«O Estado gasta milhões de euros a fazer estradas mal feitas e nós é que as pagamos». Este será o slogan da campanha de prevenção rodoviária que a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M) irá lançar em Agosto.
Diário de Notícias, 24Jul2003
O slogan merece todo o meu apoio . que peca por redundante; afinal, os milhões de euros que o Estado gasta são sempre pagos por nós, quer se trate de estradas mal feitas ou de equipamentos desportivos destruídos.
Mas, nem por isso deixa de ser um apelo crucial, notória como é uma certa incúria com que as entidades oficiais têm encarado os problemas relacionados com o trânsito e as estruturas rodoviárias . desde a sinalização anedótica (vejam-se algumas .pérolas. em .Portugal no seu melhor.) até ao mais confrangedor abandono a que estão condenadas muitas das vias de circulação.
Então, e enquanto condutores? Não temos culpa?
É óbvio que não!
Nesta, como em muitas outras facetas, a culpa é sempre dos outros . porque são os outros quem conduz pela esquerda, são os outros quem não assinala a mudança de direcção, são os outros que desrespeitam o traço contínuo, são os outros que excedem largamente os limites (sensatos, que não só os legais) de velocidade, são os outros que passam os sinais vermelhos, são os outros que se distraem a falar ao telemóvel...
Qual simplória Cinderela transformada em reluzente Princesa por acção da Fada-Madrinha, também o humilde peão, tocado pelo misterioso sortilégio do volante, se transforma num expedito e temerário condutor.
E, quer encafuado numa modesta e utilitária abóbora ou refastelado num exuberante e luxuoso coche, o luso automobilista parte à conquista da estrada com o mesmo ímpeto audacioso com que os seus egrégios avós demandaram, na ditosa e distante era de quinhentos, o reino mítico do Prestes João.
É através do volante que o status social, as qualificações académicas e o nível económico se diluem, garantindo aos condutores lusitanos a fusão numa imensa e colectiva irmandade, liberta pela buzinadela autoritária, igualada pela ultrapassagem furiosa, fraterna no palavrão obsceno.
E é assim, quer se trate da menina Sónia Vanessa ao volante do seu Fiat Uno, do Engº João Bom-Sucesso no seu BMW série 5, da Gugu Pillim a conduzir o Mercedes SLK, ou do Zé Brutamontes sentado no alto da cabine do seu imenso Volvo.
Mais do que aos ideais apregoados pela Revolução Francesa e à revolta dos .capitães de Abril., o País tem que estar grato a Joaquim Ferreira do Amaral, o cavaquista ministro que, tendo como arma o cimento, iniciou o movimento de libertação do povo.
Contrariamente ao que possa parecer, este desabafo não deve ser entendido como um anátema sobre a iniciativa da ACA-M . mas não era curial deixar de referir que o incivismo de alguns também contribui para o sofrimento de todos.
Numa sociedade tristemente conformada com a arrogância e a prepotência das entidades públicas, a iniciativa da ACA-M tem, desde já, o mérito de demonstrar que o espírito de cidadania dos automobilistas não se esgota nos protestos contra os preços das portagens . e que, de uma vez por todas, as entidades públicas têm de assumir a sua evidente quota-parte de responsabilidade pelo alarmante número de vidas humanas que, dia a dia, se perdem nas estradas.
Só que, infelizmente, os ministros, os deputados e os edis também têm, na arrevesada rede que constitui o seu genoma, aquele pequeno e travesso cromossoma que nos distingue como povo.
Para eles, a culpa também é dos outros!
Publicado por blog-notas às julho 24, 2003 08:57 PM