« Os animais são nossos amigos | Entrada | A RTP, a ginástica e o serviço público »
julho 21, 2003
Carta aberta
A caixa de correio, entendida como um receptáculo destinado apenas ao depósito daquele, quase que já podia ser sugerida como um .objecto em extinção. para a coluna do Abrupto.
Com efeito, da sua função primária, passou a servir de depósito forçado de prospectos de mini, super e hipermercados, anúncios de astrólogos e canalizadores, declarações de carácter político e partidário e folhetos de divulgação para creches e cabeleireiros, violentamente encafuados num espaço diminuto, por mãos ignorantes da lei física que refere a .impossibilidade de dois corpos ocuparem simultaneamente o mesmo espaço..
Insociável, mau feitio, com mau hálito e a cheirar mal dos pés, julgo estar algo afastado do modelo de sex-symbol idolatrado por legiões de fãs e admiradores; como tal, no receptáculo da minha correspondência, a boa vontade dos CTT não consegue mais do que depositar uma ou outra carta, regra geral a exigir o pagamento de impostos ou a lembrar que é o 3º aviso para o pagamento da conta do gás.
Imagine-se pois a grata e surpreendente surpresa que tive hoje quando encontrei, castamente envolvida num envelope branco, uma carta que me era endereçada, pelo senhor José Xunga.
Não tendo (ainda) o prazer de conhecer esta deliciosa criatura não posso, no entanto, deixar de dar eco às suas legítimas aspirações; aqui vai, ao cuidado de quem de direito, a integral transcrição do grito de alma de um habitante dum populoso povoado que anseia pela elevação a município:
.Exselentíçimo senhor:
Em primeiro lugar espero que esta carta o vá encontrar de ótima saúde na companhia de todos os seus que nós cá vamos indo todos bem.
Escrevo hoje ao senhor para lhe pedir um grande favor porque como vocemessê escreve lá nessas coisas da intrenet e tem mais instrussão do que nós aqui na aldeia podia ser que nos pudeçe ajudar.
É que a gente já semos 103 almas aqui na aldeia o que é uma das coisas boas que o senhor Inácio fez desde que é presidente da junta da freguezia porque dantes a gente eramos menos.
Ora se já semos tantos já podia-mos ser um munissipio e assim o senhor Inacio já podia dar emprego à mulher coitadinha que anda ali que mal se tem só com a renumeração de secretária da junta, e ao filho que até tem estudos e não chegou a médico porque deixou de estudar na 4ª claçe.
Cá na aldeia a gente só tem uma secsão dos partidos porque as conselhias são só para munissipios e se a gente não é munissipio não tem importanssia e nunca mais se conçegue que o fontenário deite água.
E depois a gente tem houvido na televizão que os munissipios tem mais vantagens do que as freguezias, porque os munissipios tem dinheiro para dar ao clube de futebol e a gente cá na terra nem clube de futebol tem ainda.
E depois os munissipios também podem ser dessa coisa do pratrimónio mundial que é assim uma coisa que acontece quando a gente tem pinturas terrestres na rocha e patadas de bicheza na terra. E cá na aldeia à os riscos dos miudos no muro da senhora Aduzinda e temos também as patadas que a mula da mulher do ti Jacinto deixou no largo da fonte quando lá paçou com o çimento fresco.
A gente cá na terra também quer uma estassão de comboios nova e onde passe a parar o .alfa pendurar. para a gente ir mais depreça até á vila e paresse que a companhia dos comboios só põe paragens dessas nos munissipios com importanssia.
O senhor professor que havia cá nisso da teleescola mas que já acabou também disse que se a aldeia paçasse a ser munissipio já podia ter outra vez escola e talvez até um posto de çaúde que é uma coisa que fazia muita falta para a gente poder aprender a ler e a fazer contas.
O ti Xico até tá farto de dizer que se houveçe uma escola cá depois já era mais fáçil a gente conseguir também ter quem fizesse bem as contas do pagamento espessial por conta e assim até era mais fáçil pagar ao Defissi ou como raio é que se chama o homem.
Por estas razões todas, e porque o ti Manel que é um homem vivido e até já foi uma vez a Lisboa nos disse para escrevermos ao senhor que vocemessê sabia escrever no berlogue, e que o berlogue era assim como um jornal mas que não era escrito no papel era só lido na televizão, é que nos escrevemos a pedir a sua ajuda para divulgar o nosso desejo.
Sem outro assunto de momento despedi-mos-nos com muita conçiderassão e amizade, desejando muitas felicidades a vocemessê
este que açina
José Xunga.
Publicado por blog-notas às julho 21, 2003 06:06 PM
Trackback Pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://blog-notas.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/15036
Comentários
http://www.atalaia.blogspot.com/
Publicado por: em outubro 10, 2003 03:35 PM