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julho 17, 2003

Uma reflexão sobre as férias

Julho é, por excelência, um dos meses escolhidos pelos habitantes das lusas terras para o gozo de férias.

É, de resto, esse facto, que me permite esta incursão pelo mundo dos blogs a uma hora em que, encontrando-me no meu local de trabalho deveria, pelo menos do ponto de vista teórico, estar a desempenhar uma função mais consentânea com o facto: ler o jornal desportivo, preencher o totoloto, discutir com os colegas a entrevista de ontem do Primeiro-Ministro ou, na pior das hipóteses, mudar de cesto os assuntos pendentes.

Nestas condições, e considerando que:

a) .A Bola. não traz assuntos de jeito;
b) a nova modalidade de totoloto instituída pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é reutilizável (evitando, portanto, a tarefa hebdomadária de marcar as cruzinhas);
c) a entrevista de Durão Barroso foi completamente esmagada pela discussão sobre o estado do tempo (afinal, estamos em Julho e o fim de semana está à porta);
d) é mais fácil mudar os cestos de sítio do que trocar o respectivo conteúdo (num deles há até um papiro assinado por um tal de Sebastião qualquer-coisa Marques de Pombal)

entendi decretar o meu direito a uns míseros minutos de alheamento das tarefas rotineiras do serviço, aproveitando-os para uma surtida pelo blogo terrestre!

E, para falar sobre férias . esse período tão apetecido em que temos o direito, legal e constitucionalmente consagrado (artº 59, nº1, alínea d) da Constituição da República Portuguesa), de nada fazer!

Na prática, até nem é bem assim porque, para nada fazer, até que podia continuar aqui no escritório - mas, não era por certo a mesma coisa!

Logo para começar, tinha que renunciar a um mês de conversa com os colegas sobre os aspectos relacionados com o gozo das mesmas: a comparação dos bronzeados, a exibição das fotografias dos pimpolhos aos saltos na piscina, a descrição exaustiva da decoração dos quartos do aparthotel, a enumeração das idas à discoteca, a história daquele senhor careca que, um dia, no café da praia ..... etc, etc, etc.

(Obviamente que, consoante o nível socio-económico das classes envolvidas, podem verificar-se algumas nuances: por exemplo, a classe A em vez da exibir fotografias opta por uma mostra dos recortes das colunas sociais; a classe B, que não vai para hotéis com menos de 4 estrelas, discute as diferenças de temperatura entre as águas da praia dos Tomates e as da República Dominicana; mais para baixo, ao nível da classe C, a divagação sobre a discoteca da moda pode dar a vez à análise comparativa entre as deslocações de camioneta para a Costa da Caparica ou de comboio para S. Pedro do Estoril; finalmente, aos cidadãos atirados para a base desta injusta pirâmide social, as histórias de férias limitam-se às que, na fila do supermercado ou no intervalo do .A vida é bela ., são lidas na .Caras. ou na .TV Guia.)

Por outro lado, a ida de férias apresenta outros aspectos relevantes, que não podem ser descurados: a emoção de escolher o destino (quer sejam as Seychelles ou a Praia das Maçãs); a escolha da roupa adequada; a arrumação das malas; o transporte do canário para casa da tia solteirona ou do peixinho vermelho para a vizinha do 2º direito; a viagem até ao local paradisíaco, com as crianças aos berros, a sogra a resmungar e a mulher a queixar-se que não tem a certeza se deixou a marquise fechada; a chegada à casa alugada, e a constatação de que, afinal, a .deslumbrante vista do mar. se referia ao troço direito do toldo do restaurante .Sol e Mar.; um dia a dia atormentado pelas 2 horas diárias passadas na fila de trânsito até à .praia de eleição.; a busca angustiante de um local para estender a toalha . de preferência fora dos .campos de futebol., longe dos cães que teimam em confundir o guarda-sol com uma árvore e suficientemente afastado do tupperware com arroz de pimentos e pastéis de bacalhau da família do lado; o regresso ao lar, empapado em suor e areia, para enfrentar umas torneiras que, insensíveis às mais pungentes súplicas, se recusam a deixar passar uma gota de água; o combate quase titânico pelo direito a uma mesa no restaurante, onde a urbanidade dos empregados .ad hoc. se assemelha à subtileza de um algoz do Santo Ofício; e, finalmente, a noite sem dormir, acossado por batalhões de melgas e hordas de mosquitos - ecológica consequência dos delicados aromas exalados do lixo não recolhido.

Perante este quadro idílico, que desperta no mais empedernido dos cidadãos uma imensa nostalgia recordatória, e augura a provisão suficiente de temas para comentar com os colegas (pelo menos até à aproximação da época natalícia), quem, de boa fé, pode negar as inexcedíveis virtudes de um retemperador período de férias?

Publicado por blog-notas às julho 17, 2003 08:30 PM