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julho 11, 2003
Uma descida aos infernos
"Em ti e nele veremos altos peitos
A baxo estado vir, humilde e escuro.
Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
Os que ao Rei e à Lei servem de muro!"
Os Lusíadas, Canto X
A morte não é, de todo, um tema que suscite muito interesse e reflexão . e, tanto quanto me tenho apercebido, não é um mote muito glosado por quem reflecte em público na blogoesfera.
A criatura, para além de não ser muito querida de ninguém apresenta-se, no nosso imaginário, sempre com vestes negras, e com um fácies tenebroso . junto do qual, até o que resta de original na altamente colunável Lili Caneças poderia, sem qualquer esforço, aspirar ao título de Miss Mundo.
Assim sendo, e para além das habituais reflexões sobre o que nos espera depois da viagem no barco de Caronte, pouco tenho encontrado escrito sobre este assunto . salvo as questões de natureza económica e comercial inevitavelmente associadas aos funerais.
A morbidez do assunto configura-se, portanto, como algo cuja abordagem nos causa, quase sempre, um sentimento de mágoa e tristeza.
Na sequência desse tipo de emoções, a ida a um cemitério constitui, salvo o estrito cumprimento de uma obrigação social ou a participação num qualquer ritual místico, um motivo de pesar.
Tecer hoje algumas considerações sobre este assunto - aparentemente impróprio para a aproximação de um fim de semana . não revela nenhum propósito de ferir susceptibilidades mas, tão somente, dar pública expressão à angústia que constitui a ida a um local onde, para a esmagadora maioria da população, é possível um encontro mais próximo com os entes queridos cuja vida terrena encontrou o derradeiro marco.
O cemitério do Alto de S. João é disso exemplo . que alia, ao penoso declive do terreno, um doloroso pendor para o abandono.
Ruas de pavimento irregular, passeios esburacados e lixo espalhado ombreiam, por todo o lado, com jazigos esventrados e pedras tumulares partidas, numa balbúrdia de incúria e desmazelo.
E, por entre este cenário de funesta decrepitude, circulam os funcionários camarários, enfarpelados numa roupagem castanha, cujo tipo reflecte a total inadequação às características da actividade, e cujo aprumo espelha a atenção dos responsáveis autárquicos.
Mas, afinal, o que tem de estranho uma autarquia que não venera respeitosamente os seus mortos . num País que não cuida dignamente dos seus vivos?
Publicado por blog-notas às julho 11, 2003 10:56 PM