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julho 07, 2003

Condom(ínio)s

É terrível ser condómino e viver em condomínio.

Em inglês, a palavra mais aproximada julgo que é condom . que, curiosamente, junta à quase homofonia algum sentido irónico.

Tal como os condoms, os condomínios também têm diferentes dimensões e tipologias, são fabricados por diferentes empresas, comercializados sob marcas distintas, podem-se mostrar com diferentes texturas, apresentar diversos acabamentos e cores variadas e, na sua função primária, quer uns quer outros, são considerados pela maioria como uma estopada decorrente do nosso desenvolvimento civilizacional.

Subsiste, num entanto, um obstáculo a este (quase) brilhante paralelo: a utilização do condomínio, ao contrário do outro, não é descartável, se bem que, com um pouco de exercício jurídico, talvez até se pudesse suprir esta mazela do raciocínio, recorrendo à analogia e tendo em conta a precariedade dos mandatos da administração.

E depois, vendo bem, quais são as graves questões que afectam os condomínios?

São apertados? Também os outros.

Podem apresentar fissuras? Também os outros.

Se não utilizados correctamente podem provocar dores de cabeça? Também os outros.

Mas, se o prazer da horizontalidade (dispensamo-nos aqui, caro leitor, de obliquar sobre outras posições) conduz à utilização de uns, a opção pela verticalidade (quando considerada apenas do ponto de vista da construção) impõe os outros.

Numa voragem imobiliária que (tantas vezes) não respeita planos nem estudos, constrói-se a torto e a direito, numa desordenada plantação de prédios, amontoados uns sobre os outros, sem se cuidar das linhas de água, dos acessos, da impermeabilização dos solos, nem da possível (e necessária) exposição ao Astro-Rei, numa tacanha negação do aforismo que garante que .o Sol quando nasce é para todos..

Com as concentrações metropolitanas características da nossa época, a maioria dos cidadãos são encafuados em zonas residenciais suburbanas . obras que a cupidez desenfreada das autarquias e a permissividade e ausência de políticas coerentes da Administração Central tem tolerado, quando não estimulado.

Por outro lado, uma certa falta de espírito de cidadania impede a glosada .sociedade civil. de actuar de forma mais consistente . e nem o esforço estrénuo de alguns consegue debelar a inércia acomodada de muitos.

Começa a vacilar, na família, o referencial base de valores; não se aprendem, nas escolas . consequência de sucessivas reformas, que visam apenas o primado das estatísticas . nem conhecimentos básicos nem regras fundamentais de civismo; não é fomentada, na universidade, a discussão enérgica e o confronto de ideias; não existe, no Estado, o reconhecimento do mérito; não se vê, nas empresas, o fomento da competitividade; não se sente, nas pessoas, a vontade da participação.

Habituados apenas ao triunfo do .xico-espertismo. nacional, não somos exigentes connosco nem com os outros.

O cidadão que cumpre, porque obedece às precedências é o último a conseguir o táxi; porque não recorre à .cunha. espera e desespera por resposta à sua petição; porque tira a senha e aguarda, cordatamente, a sua vez, é o que mais dificuldade tem em conseguir a consulta; porque é escrupuloso e paga impostos atempadamente, é o que mais prejudicado fica.

Os outros não!

Têm sempre lugar para estacionar o carro, porque lhes é indiferente parar à porta de uma garagem ou num local reservado a deficientes; não perdem tempo nas filas da Conservatória, sob o pretexto de que vão .só fazer uma perguntinha.; não cumprem limites de velocidade e o feito ainda lhes garante cobertura mediática; vangloriam-se, a amigos e conhecidos, de não pagar impostos, e ganham juros e reconhecimento público.

A vida, ao fim e ao cabo, até é fácil.

Vivendo nesta espécie de torpor cívico, nem parece lógica a admiração com a venalidade denunciada em relação a alguns políticos.

Afinal, também são portugueses.

Relembrando as notícias publicadas nos últimos tempos pela imprensa, constatamos que elementos da GNR/BT são suspeitos de crimes de extorsão e corrupção, recebendo avenças para .fechar os olhos. a infracções cometidas por camionistas ao serviço de empresas de transportes e construção civil; muitas empresas provocaram prejuízos elevadíssimos ao erário público, recorrendo a favores e expedientes de funcionários das Finanças; auditorias financeiras detectaram a existência de burla e falsificação de documentos, facturação de serviços não prestados, por parte de entidades convencionadas com a ARS; médicos terão recebido .prendas. de laboratórios farmacêuticos, para prescreveram determinados medicamentos; centros de análise e diagnóstico engendram um esquema para receber vultuosas comparticipações de meios complementares de diagnóstico não realizados; agentes da PSP são suspeitos de declararem falsas deficiências, visando redução dos impostos; autarcas denunciam situações de financiamento partidário, através de relações contratuais e licenciamento de obras de construção civil; empresários ligados ao ramo de transportes e construção civil, estão indiciados de envolvimento num esquema de pagamentos a militares da GNR/BT; elementos da GNR/BT são suspeitos de...bla, bla, bla

Fecha-se, assim, o tenebroso círculo, e sobre o País cai um manto de generalizada suspeição.

Nos tempos de Eça, o manto era .diaphano.; hoje, perdeu o ph, mas continua a ser apenas parcialmente atravessado pela luz!

Publicado por blog-notas às julho 7, 2003 11:09 PM