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julho 04, 2003

Um momento de poesia...

Aproveitando o facto de ser sexta-feira, dia em que, naturalmente, a predisposição para o trabalho é ainda menor do que nos outros dias da semana, e a imperiosa necessidade de prover uma calma digestão ao entrecosto assado do almoço, repimpei-me na cadeira e dei por mim a matutar no modo coscuvilheiro como, regra geral, tantos de nós se comportam enquanto, dois armários e um estirador ao lado, alguns colegas discutiam, acaloradamente, a possível relação de amancebamento entre a recente telefonista e o encarquilhado chefe da secção do 2º piso.

De súbito, surgiu-me a revelação: afinal, para que havia eu de estar apenas a ouvir um mexerico inocente se ali, à minha frente, na melhor e mais expedita das janelas de bisbilhotice jamais criada (desde que Deus dera ouvidos e olhos à sua segunda criação humana), um tracinho negro plantado num deslavado fundo branco, piscava insistentemente, qual olho malandro em acto de doce sedução?

Sucumbindo ao apelo do écran, activei o browser e, com um gesto abrangente, rearrumei os papéis e, com um suspiro resignado, simulei a dedicação ao trabalho, brilhantemente acentuado por um .bem, vamos lá a isto...!".

E fui.... fui bisbilhotar, é claro!

Uma forma de bisbilhotice institucionalmente aceite nos dias que correm é esta: os blogs . forma brilhantemente eficaz de, sob o pretexto de que também expomos a nossa, enfiarmos desavergonhadamente um nariz ávido de mexeriquice, na vida e nos pensamentos dos outros.

Convenhamos que, do ponto de vista social, é menos incómodo e perigoso do que espreitar pelo buraco da fechadura (situação em que, para além da exiguidade do campo de visão acresce a vulnerabilidade de quem deixa a retaguarda descoberta e mal posicionada) . para além de que, na perspectiva cognitiva, um blog pode ser perene e minuciosamente dissecado, em casa ou no emprego, a qualquer hora do dia ou da noite, às escancaras ou dissimulado atrás de uma complexa folha de cálculo!

Foi este, de resto, o astucioso método que utilizei enquanto, paulatinamente, fui desfolhando as .páginas amarelas. dos blogs portugueses, até ter, naquele que parece ser o mais lido, tropeçado nas .décimas de refutação., de Vasco Graça Moura.

A fina ironia da rima confirma, afinal, a chocalhice social; foi declaradamente aberta a caça ao Pipi - cuja obscura identidade é agora, perseguida mais sanguinariamente na blogosfera, do que o Saddam Hussein na sua terra natal.

Pessoalmente, gostei da refutação... e, como tal, fui espiolhar o que se passaria no blog do lado . onde, fatalmente, encontrei as .décimas de desagravo", cujo chiste é inegável...

Humildemente, aqui fica o meu pudibundo comentário:

De repente a poesia
passou a ser comentada,
e dos blogs à esplanada,
foi um passe de magia.

Ainda bem que assim foi,
ficamos nós a ganhar!
E a brincar, a brincar,
vai-se deitando p.ro ar
a tristeza que nos rói,
de ter que pagar impostos,
e aturar as trafulhices,
disparates e tolices,
de quantos, em altos postos,
apenas nos dão desgostos.

De palavras impolutas,
ou brejeiras expressões,
se forjam declarações:
as do Vasco, mais astutas,
pois um mestre, nestas lutas,
só entra por ter traquejo!
Mas no vate que há em si,
- e que até sabe solfejo -
estou em crer que há um desejo
oculto, de ser Pipi!

Quanto a este, mais maroto,
e hábil na brincadeira,
afirma que não é roto,
que é um homem à maneira;
e da patroa à sopeira,
a fazer fé no que diz,
não há nenhuma que escape,
ao faro do seu nariz!
Para mim, neste debate,
ganha ao mestre... o aprendiz!!!

Mas as coisas, como estão,
prometem não acabar;
porque um Pipi, glutão,
decerto não vai parar,
de outros temas glosar!
E enquanto o salsifré
nos faz rimar a preceito,
que me importa que o sujeito,
seja Francisco ou André???
Vou mas é ver se me deito...

Publicado por blog-notas às julho 4, 2003 11:53 PM