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julho 03, 2003
Um pesadelo!
Tal como eu receava, ir trabalhar ontem foi uma desgraça...
Para começar dormi mal; a prodigalidade com que me deixei perorar sobre a função pública, deve ter exercido uma influência funesta sobre os meus já cansados neurónios pelo que, ao invés de um reparador e venturoso sono nos braços de Morfeu, me vi fustigado pelos membros esquálidos e gélidos de um qualquer gigante Adamastor, cuja absoluta fealdade era realçada por um sinistro esgar que desenhava, na hediondez da sua carantonha, o que julgo poder ser descrito como um sorriso discreto da senhora ministra de Estado e das Finanças .
É fácil de ver, pois, o estado deplorável em que um pacífico cidadão se encontra, depois da traumatizante experiência onírica que (correndo o risco de ferir as pessoas mais sensíveis), acabei de descrever.
Mas, ontem foi dia 2 de Julho... e, neste dia, a Polícia de Segurança Pública comemora o seu aniversário.
Não tenho nada contra este tipo de comemorações, quer discretamente celebradas na intimidade do apartamento do aniversariante quer, de forma mais alarve e folgazã, num restaurante ou equivalente, com febras e picanha regadas com litros de cerveja ou outra bebida de superior teor alcoólico; afinal, é sempre um momento de celebração e, mesmo que os outros condóminos até nem gostem muito, ou que o gerente da discoteca se chateie com o aroma acre do vomitado nos sofás, é algo que só incomoda um restrito número de vítimas . e sempre propicia um gozo monumental aos participantes do salsifré.
.Mas as da Polícia, Senhor.../ porque lhes dais tal pendor / porque nos lixam assim?., diria o autor da .Balada da Neve. se, no seu tempo, as forças da ordem se abarbatassem de um dos mais nobres e belos espaços de Lisboa e dispusessem, em frente ao monumento manuelino, um total de cerca de 1000 agentes (m/f), duas dúzias de (lindíssimos, aliás) exemplares da raça canina, cerca de quarenta e cinco motorizadas, igual numero dos chamados carros-patrulha, e mais um número significativo de outros meios motorizados, entre os quais viaturas de características puramente operacionais.
Diria Augusto Gil e digo eu, não propriamente esmagado pelo ritual bélico de uma força que parece ser civil, nem pelo estrago provocado nos tapetes de verde relva que ornamentam as bordas do passeio frontal aos Jerónimos mas, tão somente, pela simples e comezinha razão de que, este aparato de meios (poucos para o Ministro mas excessivos para um dos seus subordinados directos) não se fica pela parada mas espraia-se, voluptuosa e ostensivamente, pelas zonas envolventes . condicionando o trânsito e obrigando a desvios de percurso, quer o cidadão contribuinte se desloque num portentoso e apinhado Volvo de cor laranja, quer o faça ao volante de um decrépito e anónimo utilitário (lamento, mas só os suecos é que se predispuseram a patrocinar este blog...).
Contribuinte e prejudicado, vou mentalmente enumerando toda a rica adjectivação que a língua pátria nos oferece para qualificar os organizadores destas iniciativas, enquanto me liberto do dédalo de ruas estranhas para onde um polícia com o temível braçal vermelho me enxotou . e recordo o ar embasbacado dos turistas nipónicos que, de olhos em bico, aproveitavam o inesperado bónus que um passeio matinal ao sol de Lisboa lhes oferecera e garantiam a perpetuação do momento no interior de uma câmara Sony (esta empresa também contribuiu!)
Lamentavelmente, à bem pouco tempo atrás, o Estado não terá conseguido arranjar uma mísera verba para permitir uma comemoração, ainda que simbólica, da Batalha de Aljubarrota; na situação de desafogo económico em que dizem que Portugal vive agora, desloca-se um milhar de efectivos, não para uma actividade de carácter pedagógico junto da população mas, simplesmente, para satisfazer a jactância bacoca de uns quantos figurões que, ironicamente, se sentam sempre de costas voltadas para o mosteiro erguido em memória de um grande projecto nacional . tal como fazem, aliás, no seu quotidiano, relativamente aos problemas daqueles que, também com os olhos em bico mas não por causas genéticas, os fitam do outro lado da tribuna e da rua.
E já agora, senhora Ministra das Finanças: eu sei (e concordo em absoluto) que as Altas Entidades tenham, até por imposições decorrentes da sua própria actividade, a necessidade e o direito de utilizar viaturas oficiais nas suas deslocações; mas, no momento de contenção a que o Governo obriga o País, um conclave de mais de uma centena de viaturas oficiais (dotadas de motorista, naturalmente....) não será excessivo para a deslocação dos respectivos utentes às comemorações de uma Direcção Nacional - ainda por cima quando algo nos diz que uma parte significativa dos mesmos se terá deslocado de e para os mesmos sítios?
Prece final: Meu Deus, se me estiveres a ouvir, e se a acidez do meu discurso merecer uma nova assombração, humildemente Te peço que, mal por mal, antes o esgar tétrico da ministra do que o cenho míope do seu colega da Administração Interna.
Afinal, e citando um amigo meu .não há mulheres feias; existem, isso sim, belezas estranhas ou exóticas!..
Publicado por blog-notas às julho 3, 2003 09:59 PM
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