Portugal parece estar a perder, paulatinamente, as últimas réstias de auto estima e de consciência moral.
Atulhado num mar de incompetências, hipocrisias, desonestidades e populismos fáceis, o País afunda-se social e economicamente, sucumbindo ao lastro de uma classe política sem fôlego nem visão e de uma classe empresarial sem qualificação nem estratégia.
Passado o ciclo das especiarias da Índia, esgotado o filão do ouro do Brasil, perdidas as riquezas do Império, o xico-espertismo nacional de uma horda de políticos sem escrúpulos e de empresários sem princípios, aliados na cupidez néscia e no deslumbramento boçal esvaiu, em rotundas e Ferraris, os milhões cedidos por Bruxelas para a modernização da indústria, a competitividade do comércio e a formação dos trabalhadores.
O Produto Interno Bruto decresce, o rendimento disponível das famílias diminui, o desemprego aumenta – e o Estado, comportando-se como um predador insaciável, que tributa até a solidariedade, é tratado como um inimigo e um bandoleiro.
Perdeu-se o respeito pelas instituições, cujo funcionamento se questiona, e pelos homens públicos, de cuja honestidade se duvida.
O Parlamento vive de rituais; o Governo de expedientes; os Partidos de cambalhotas programáticas; as Autarquias de obras de fachada.
Os princípios sucumbem perante as mordomias; as ideologias curvam-se respeitosamente perante as conveniências do momento; as declarações de princípios ajoelham-se perante a imperiosa necessidade de satisfazer clientelas partidárias tão mais ávidas de benesses quão maior é o período de afastamento da malga do orçamento; da oposição – das oposições, aliás – só se ouvem uivos de desespero, não por questões de princípio mas pelo distanciamento das vitualhas, que só o Poder distribui.
No Parlamento, os deputados não se respeitam nem se dão ao respeito; uns fogem às responsabilidades a coberto da sombra protectora da imunidade parlamentar; outros, trocam as agruras de S. Bento pelo encanto da corte de S. James; a fraqueza e a tibieza das argumentações de todos só encontram paralelo na arrogância e na convicção da defesa de privilégios comuns; a maioria suspira por um lugar no Governo ou pela Administração de uma Empresa ou Instituto Público; a quase totalidade evidencia os princípios de Pavlov – salivando perante as conveniências do Partido, sempre que a sineta regimental os manda levantar.
O Governo não vive da competência mas dos equilíbrios de forças dentro dos partidos vitoriosos; discutem-se processos de nomeação das estruturas dirigentes, não pela necessidade de promover valores mas de satisfazer aparelhos partidários; busca-se, na facilidade demissória, a fuga óbvia às responsabilidades e a remissão das culpas; as demissões (quando efectivadas) não surgem por imperativo ético da tutela mas por opção táctica do tutelado; todos os subterfúgios são aceites para a manutenção dos privilégios.
Os autarcas convivem alegremente com formas obscuras de financiamento partidário; os que não se refugiam do outro lado do Atlântico, respaldam-se em S. Bento; as obras públicas custam sempre (muito) mais do que o orçamentado; gasta-se desmesuradamente para inaugurar estádios de futebol – mas fecham-se escolas.
O compadrio é generalizado, e floresce como cogumelos alimentados pelo rico húmus da política, da imprensa, do futebol, da construção, do financiamento dos partidos e da fuga ao fisco.
O que resta é a esmagadora maioria, “os outros” que somos quase todos nós e que, ao recusarmos esta perversa promiscuidade, nos comportamos como imigrantes no nosso próprio País.
Não querem lá ver que era a nós que o líder do CDS/PP se referia?
Reli e reli o texto...E está magistral!
Isto merece publicação em livro!
Amigo,
O teu texto está ao melhor de Eça!
Uma relíquia!